HOJE É O DIA CERTO

"SÓ EXISTEM DOIS DIAS NO ANO EM QUE NADA PODE SER FEITO, UM CHAMA-SE ONTEM E O OUTRO CHAMA-SE AMANHÃ. PORTANTO, HOJE É O DIA CERTO PARA AMAR, ACREDITAR, FAZER E, PRINCIPALMENTE, VIVER." DALAI LAMA

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

MEMÓRIAS DO VELHO QUARTEL

Quartel Velho - Bombeiros Voluntários de Santiago do Cacém

 Ergue-se orgulhosamente, na íngreme ladeira que conduz ao castelo, o Velho Quartel dos Bombeiros.
As paredes, descascadas, mantém-se firmes, suportadas por décadas de memórias dos homens, de coração generoso, que lhe deram alma.
A larga porta vermelha, envidraçada, dá acesso a um mundo onde, para sempre, ficarão imortalizados momentos de abnegação e de coragem, de lágrimas e risos, de histórias mil vezes contadas e, também, de algumas fanfarronadas.
As paredes exalam um calor imaterial, reminiscências das fornalhas vividas, sussurrando palavras de encorajamento, impotência ou vitória que, indelevelmente, registaram.
Do alto da torre, o Velho Quartel contempla a cidade com benevolência. O seu olhar protege, com orgulho, o seu jovem herdeiro que, do outro lado da cidade, fervilhante de vida, alberga, agora, outros jovens e generosos corações, de homens e mulheres que, voluntariamente, protegem a vida, com  a sua própria vida.
Ao som das minhas memórias, de jovem e criança, oiço, ainda, o toque inconfundível da sirene, seguido do galopar de botas sobre a calçada, dos homens que, ainda meio despidos, acorriam à chamada.
Estes homens  valorosos que, ao longo dos tempos, esquecidos de si, correm em direção aos perigos, na tentativa de salvar outros homens, animais e toda a natureza, foram e serão sempre, para mim, uma inspiração e o garante de que existe um lado profundamente bom na humanidade.




Terça-feira, 15 de Maio de 2012

DEAMBULAÇÕES

A manhã fresca e silenciosa transporta meus passos pelas memórias do tempo, num regresso nostálgico a um passado onde memórias e sonhos se confundem e  a realidade é apenas um local sem nome.
O céu, carregado de tons de azul, empresta uma luminosidade fria à paisagem. A terra húmida e árida, em tons de castanho acinzentado, não  reflete a luz, nem emite calor. A visão do parque infantil agride-me, com a violência das cores que destoam e ferem a paisagem, como uma luz, demasiado forte, incidindo nos olhos acabados de acordar.
O meu olhar perde-se nos vazios bancos de jardim que escarnecem da minha solidão. O baque inesperado do meu coração produz-me um violento cansaço. Sento-me num dos bancos. O olhar perdido. A mente divagando sem nexo. O  peso do desencanto descansando nos meus esgotados ombros.
Como num sonho, sento-me num dos baloiços e embalo-me, por tempo indeterminado, perdida num desejo nostálgico de algo indefinido.   

A gargalhada espontânea, do primeiro cliente do Parque, devolve-me, abruptamente, à realidade.
Ergo-me pesadamente. O meu tempo passou. Desalentada caminho, lentamente,  sem destino. 
Inesperadamente, os meus olhos detêm-se numa visão caricata que me chama para a vida.   
Inspiro profundamente.  

Os meus ombros erguem-se altivamente. De regresso à vida, começo a minha viagem fantástica, em torno da minha cidade, no lugar a que chamamos casa.
E, as imagens maravilhosas de vida e de cor sucedem-se, como se, subitamente, tudo ganhasse um novo sentido, uma nova alma...Um recomeço...

A vida, as cores...A natureza, os cheiros, os animais...
 As flores...A vida que se fertiliza...
A harmonia...A partilha...O esplendor da natureza em flor...
 Aves em bando, em ninhos ou trilhando caminhos
 

O som das vagas, o cheiro marinho, o céu , o sol, o ar e o mar..

Piso, dançante, o fofo tapete, matizado de verde e castanho, rodeada pelas corajosas e imponentes árvores, minhas irmãs. 
Então, uma voz, um sussurro, quase apenas o meu pensamento, faz-me interromper a minha dança com a natureza. 
Suspensa no tempo, olho em volta, de ouvido à escuta...Mas,...nada.... "o essencial é invisível para os olhos, só se vê bem com o coração"...Esvazio-me de conceitos, preconceitos e verdades absolutas e caminho, em busca,  para dentro da natureza... É então que oiço um sussurro, uma brisa que me afaga o rosto e me despenteia suavemente os cabelos e vejo-o, não nítido, mas numa imagem difusa, própria dos sonhos e das nossas aspirações e desejos mais secretos. 
Ele, o Espírito da árvore, sempre viveu ali, desde o princípio dos tempos, e sinto a sua força e vitalidade que me contagia e me faz sentir parte do imenso todo que é o Universo.
Sinto que estou viva e que todas as coisas são possíveis, mesmo aquelas que serão apenas sonhos.
O fim do dia aproxima-se, o sol espreguiça-se, por trás das árvores, ensonado. É chegada a hora mágica em que, por momentos, o tempo parece parar.
É tempo de regressar ao coração da cidade...A noite cai... As garras do medo tentam, ávidas, aprisionar o meu coração.
Os meus passos ressoam nas ruas desertas. A solidão afoga-me num nó. Enovelo-me, protegendo-me do frio, do medo e dos meus fantasmas.
Perante os meus olhos, atónitos, uma imagem, de alguém nunca esquecido, começa a tomar vida, a ganhar contornos...

Paro na íngreme ladeira... Os saltos escorregam na calçada gasta e polida pelos anos...Não pode ser verdade..Os meus olhos estão a pregar-me uma partida...Os que partiram não voltam...
Um odor suave e inesquecível espalha-se pelo ar...Não sei se devo ter medo, ou ficar feliz...
A medo dou curtos passos, os saltos prendem-se entre as pedras da calçada e, por momentos, sinto que vou cair. 
Então, um toque suave, imaterial, devolve-me o equilíbrio. Sinto uma onda doce de calor que envolve o meu coração e acaricia o meu rosto. 
Sinto que a saudade, há tanto tempo escondida, explode e sai da minha alma. 
Uma grossa lágrima, de emoção sentida, escorre-me pela cara, nela não existe dor, sofrimento, ou revolta, é apenas a expressão do mais belo, forte e seguro sentimento que alguma vez senti na vida.
Sei, agora, que não estou sozinha, nunca fui abandonada. 
A figura ténue esfuma-se na noite, mas, dentro de mim, para sempre, fica a certeza da eternidade.
Abro as cortinas para deixar entrar a luz, de uma lua esplêndida, imensa e radiosa. Os seres que a habitam são-me familiares, mas, a partir de hoje, sei que não mais os devo temer.  Eles serão, para sempre, os meus mais fieis guardiões que nunca, nunca, me deixarão sozinha.

Da minha cama, vejo-a redonda, brilhante e imensa. A sua luz emana um calor que embala e vela o meu sono. E, eu, adormeço pacificada.



Fotos de João Crux

Domingo, 6 de Maio de 2012

DIA DA MÃE

Eu e a minha Mãe





Mãe
É aquela que já nos amava,
Antes de nos poder tocar.
E nos amará,
Quando já não a podermos abraçar.
               
                                

De Joelhos 

 “Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer ...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver ...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

Sábado, 28 de Abril de 2012

FLORES DE MAIO


Schlumbergera truncata, também conhecida como flor de maio, é uma espécie de Schlumbergera, do género botânico da família cactaceae. É originária do Brasil e seus nomes populares são: Flor de maio, cacto de natal, cacto de Páscoa, flor de seda. Floresce no outono do hemisfério sul, apresentando flores cor de rosa, brancas, laranjas e vermelhas. Seu ciclo de vida é perene. Possui caule formado por vários artículos que podem ser destacados para formar novas plantas - Fonte Wikipédia

Maio é o quinto mês do calendário gregoriano e tem 31 dias. O seu nome parece ter ficado a dever-se à deusa romana, da fertilidade, Bona Dea, ou à deusa grega  Maya, mãe de Hermes.
Em França, no Antigo Regime, era costume plantar um " Maio " ou " árvore de Maio " em honra de alguém. 
No Condado de Nice moças e rapazes « giravam Maio » ao som de pífaro e tambor, ou seja, dançavam, à roda da árvore de Maio, as denominadas rondas de Maio.
Para os católicos Maio é o mês de Maria, mãe de Jesus Cristo, e realizam-se diversas celebrações em sua honra
Maio é, também, o mês do signo astrológico Touro.
Depois de um Abril, normalmente, chuvoso,  chega o mês de Maio, repleto de flores e de cheiros, o esplendor da Primavera. 
Toda a natureza parece ganhar nova vida, nova esperança, novo vigor e nós, humanos, também não lhe somos imunes. 

Flores de Maio - Fotografia de PlantaSonia
Gosto do mês de Maio, do seu nome e de todas as "promessas" de esperança, vida e amor que lhe estão associadas.


Neste ano de crise, nesta era, dita, do Conhecimento, de alterações profundas na sociedade, a todos os níveis, familiares, sociais, económicos, científicos ou tecnológicos, em que tantos valores, outrora tidos como inquestionáveis, foram postos em causa. Neste ano, dizia eu, "apetece-me" olhar este mês, luminoso, colorido e cheiroso, com uma renovada esperança e, enchendo o meu coração do seu vigor, acreditar que todas as coisas são possíveis.
Vamos todos plantar uma "árvore", um Maio, que gere vida, crescimento e bem-estar.


Menina e Moça

Santiago do Cacém - fotografia de Jorge Ganhão


Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
Menina e Moça, início, Bernardim Ribeiro

Também eu, menina e moça, sai de casa de meus pais, para vir estudar para a capital. 
Deixei o meu querido Alentejo e a minha linda vila, Santiago do Cacém, hoje cidade,  na firme convicção de que voltaria para casa, mal tivesse terminado o meu curso. Mas, há sempre um mas, acabei por ficar por aqui.  Aqui casei e tive os meus filhos. Aqui descasei. Aqui tenho trabalhado nas mais variadas atividades e feito outros tantos cursos. Aqui voltei a refazer a minha vida. E, entretanto, passaram 35 anos...
No entanto, Santiago será sempre a minha Casa.  O Alentejo corre-me nas veias e, verdadeiramente, tenho sido sempre uma "estrangeira" na cidade de Lisboa.
Logo que as circunstâncias o permitam, voltarei para Casa. Para ali, perto do mar e do campo, onde todas as memórias dos meus antepassados repousam e onde quase toda a minha família se mantém.
Costumo dizer que as minhas malas estão sempre feitas e, logo que a "vida" me deixe, regressarei a Casa.
Enquanto isso não acontece, restam-me os fins-de-semana, as férias e as imagens que me levam de volta à minha cidade, localizada, naquilo que chamo o melhor do Alentejo, ou seja, o Litoral Alentejano. Os meus queridos amigos do interior do Alentejo que me perdoem, mas viver perto do mar e do campo é uma bênção extraordinária.









Detalhes


Santiago do Cacém - Foto de Paulo Pereira Calado


Santiago do Cacém - Castelo- Foto de Paulo Pereira Calado
Santiago do Cacém - Jardim Municipal - Fotografia de Jorge Ganhão
Santiago do Cacém - Vista Noturna - Fotografia de João Crux
Santiago do Cacém - Passeio das Romeirinhas - Fotografia de Luis Filipe Silva
Santiago do Cacém - Castelo e Capela de S. Pedro -  Fotografia de Jorge Ganhão
Santiago do Cacém - Castelo e Igreja Matriz - Fotografia de Jorge Ganhão
Santiago do Cacém - Capela de S. Sebastião - Fotografia de Jorge Ganhão
Santiago do Cacém - Interior da Capela S. Sebastião - Fotografia de Leonor Sobral

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

ÁRVORES DANÇANTES

"Dancing Trees"  by Igor Zenin |
Belas, elegantes,
Fortes, confiáveis
Férteis, frondosas,
Exuberantes, frescas,
Verdejantes e gloriosas,
Erguendo, em adoração,
Seus robustos braços
Para o céu,
Elas, as árvores dançantes,
São fonte de vida,
São o imenso pulmão da Terra.


 

Elas, as árvores dançantes,
Guardam segredos e memórias,
Guardam histórias e misérias humanas,
Na seiva que circula
Infinitamente nas suas veias.

Sua nobreza, orgulho e firmeza
Dão-me coragem e a certeza
De que nelas posso confiar.
Nelas me inspiro para manter,
Contra ventos e tempestades,
A verticalidade das  escolhas,
A constância dos valores,
A fiabilidade dos amores.


Elas, as árvores dançantes,
São a imagem da coerência
Que tantas vezes nos falta
A nós humanos.

Amo as árvores porque são fiáveis,
Verdadeiras e coerentes.
Só nos magoam por acidente.
Amo as árvores porque lhes posso contar
Meus segredos,
Declara-lhes o meu amor,
Abraçar os seus troncos,
Mesmo rugosos,
Ásperos e rijos,
Sentindo que estou protegida,
Não da vida,
Mas de atos cruéis ou negligentes,
Das atitudes incoerentes
E de todas as maldades dos  
Descontentes com a vida.


Amo as árvores porque
São seres presentes
E me têm acompanhado
Na minha, já longa, jornada
De regresso a casa.

Amo as árvores
E como elas quero morrer,
De pé, vertical e coerente.








Sábado, 21 de Abril de 2012

ESVAZIANDO

Perdendo a forma 
Como balão que esvazia.
Cansaço, inércia, marasmo,
Ausência de mim.
Quantas perguntas ficam sem resposta?
Quantas dúvidas pairam sem encontrar ancoradouro?
Que estranhos seres são os humanos...
Eternos insatisfeitos, 
Escavando nas profundezas de si.
Alheada, olho sem ver,
Sem sentimento, o brinquedo
Que outrora fez as minhas delícias.
Procuro mais...
Um novo sentimento?
Um novo caminho a desbravar?
Terminada uma luta.
Resolvida uma questão.
Finda uma etapa.
Esvazio como balão sem ar,
Perdida no cansaço,
No tédio,
Ou na insatisfação,
De não alcançar a recompensa merecida,
Ou o clímax sonhado.
De não conhecer a verdade absoluta,
Nem as respostas a todas as perguntas.
Não vibro, nem choro.
Não me arrepelo, nem grito.
Recosto-me inerte.
O olhar vago.
Uma imprecisa depressão.
Um indefinido sentimento
De ter deixado fugir entre os dedos
A verdadeira, a única, resposta.
Aquela que me traria a satisfação e o conhecimento.
Como quando acordamos de um sonho,
Com a firme sensação de que,
Nos remotos lugares do inconsciente,
Tivemos nas nossas mãos a fórmula secreta,
A verdadeira e inequívoca 
Solução...