E, depois dos 50? Mais, ou menos, mulheres? Ou apenas mulheres diferentes?


Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo. -- Luis Fernando Veríssimo 


Ao ultrapassarmos o meio século, todas nós, mulheres, somos confrontadas com essa inevitabilidade que é a menopausa.
Menopausa não é apenas o fim daquela tremenda chatice que é a menstruação. Ela simboliza e é, de facto, a perda dos últimos resquícios de juventude. E, em muitos casos, acaba por ser a perda da  feminilidade e sexualidade, em que passamos de mulheres inteiras, a apenas esposas, mães ou avós, ou, alternativamente, tias rabugentas.
Mas, acima de tudo, a menopausa pode ser um lugar muito solitário, no qual nos sentimos diferentes, inferiorizadas ou ridículas. E essa é exatamente a razão pela qual escrevo estas palavras.
A menopausa embora produza, indiscutivelmente, alterações físicas, psicológicas ou emocionais, nas mulheres, não obriga de forma alguma à perda da feminilidade, da sexualidade, da beleza e da elegância.
O peso dos valores e tabus da sociedade, que a mulher carrega ao longo da vida, causam-lhe enormes ansiedades. Pois, supostamente, ela deve ter umas medidas estandardizadas, ser elegante, inteligente, bonita, sensual, divertida, maternal e uma dona de casa irrepreensível.
Ela deve manter-se fresca, jovial e elegante após noites perdidas, tirando fraldas, dando biberões, limpando vómitos ou nas urgências do hospital. Às quais se seguem dias de trabalho normal e ainda os mais diversos trabalhos domésticos.
A partir dos 50, a sociedade olha a mulher apenas como de utilidade residual, no trabalho ou como avó.
Cabe-nos a nós, mulheres, alterar essa forma de sermos olhadas. Cabe-nos a nós mulheres apoiarmo-nos umas às outras, partilharmos as nossas ansiedades, dores físicas, frustrações, medos e devaneios.
Chegadas aos 50, ainda que a idade não seja um posto, adquirimos sabedoria e conhecimento. Somos detentoras de doutoramentos e pós-graduações em enfermagem, psicologia, apoio a crianças e idosos, sexologia. Sabemos dar colo, acalmar jovens com os corações partidos, apoiar amigos e familiares nas suas desventuras. Somos um manancial inesgotável de conhecimento, ternura, amor e dádiva. Adquirimos, portanto, um estatuto que a sociedade não tem qualquer direito de nos retirar, não somos alienáveis ou de somenos importância.
Temos, é um facto, problemas em enfrentar a perda da nossa juventude, as mudanças subtis, mas evidentes e inevitáveis, que o nosso corpo sofre de dia para dia. Mas, todas essas mudanças não devem conduzir a que nos sintamos seres humanos menos importantes, dignos de respeito e admiração. Esta experiência é comum a todas nós, não somos bichos raros, isolados no mundo.
A nossa sexualidade altera-se, mas, não tem necessariamente que ser para pior.
Entrámos na derradeira etapa, que nos conduzirá à velhice, mas, ainda não somos velhas. Sabemos que esta é última oportunidade para cumprirmos os nossos sonhos, recebermos os nossos créditos, rompermos com as peias que nos impediram de realizarmos projetos. Bem, se é última oportunidade, então temos que aproveitá-la.
Estamos em crise, rabugentas e choronas? E daí? Aqueles que nos amam têm que compreender que chegámos a uma fase de transição, logo têm que nos dar o tempo de nos adaptarmos. Têm que nos acarinhar e apoiar, tal como nós fizemos, com todos eles, ao longo da vida. Têm que aceitar que queremos cumprir os nossos sonhos e realizar os nossos projetos. Ao longo dos anos, demos tudo o que tínhamos, a todos os que nos rodeavam. Agora é altura de pararmos, descansarmos, inovarmos…
Não vamos abandonar ninguém, vamos apenas viver de acordo com as nossas necessidades, anseios, desejos e condicionalismos.
Podemos dormir até que a vontade nos passe, apaixonar-nos, fazer declarações de amor ou rirmos às gargalhadas sem sermos ridículas.
Não, não somos bichos raros. Somos apenas mulheres a atravessar um período complexo. E, por isso mesmo, devemos unir-nos.
Partilho convosco excertos de um trabalho realizado por uma psiquiatra brasileira, poderão encontrar toda a informação em 
http://www.rio4.org.br/v2/artigos/psicoterapia_com_mulheres_na_menopausa.pdf 

"2. MENOPAUSA: CRISE E LUTOS
2.1 A dor e a fala
«A menopausa, ou seja, o fim da menstruação, é uma época de transição na vida da mulher. Na sociedade ocidental contemporânea, constitui um período de crise que frequentemente se faz acompanhar de sintomas físicos e psíquicos. São frequentes as queixas de fogacho, dores diversas, palpitações, insónia, tonturas, dormências etc. »
                                            (Appolinário, 1997)
Esse conjunto de sintomas se apresenta muitas vezes de forma repetitiva, sendo comum, um dos diversos especialistas que são procurados, se sentir incomodado por essa paciente a cujo sofrimento não consegue dar fim. Ele se vê impotente para resolver tal demanda, que parece infinita.
No entanto, muitas vezes nos defrontamos com uma
reação surpreendente.
Quando perguntamos a uma dessas pacientes o que está acontecendo com a sua vida, ela muda completamente o modo de falar, deixa de lado os detalhes dos sintomas  orgânicos e passa a contar fatos de sua vida pessoal. E também é surpreendente a facilidade com que fala, uma facilidade raramente encontrada.
A menopausa é um período de transição que pode acarretar uma crise e desencadear um processo que leva a mulher a passar em revista e avaliar sua vida.
Esse processo de avaliação provoca uma urgência em falar. Há uma vontade de ser ajudada que facilita bastante a intervenção psicoterapêutica.
Uma vez que lhe é dada a oportunidade de falar, ela fala coisas sobre as quais silenciou por muito tempo, coisas que foram deixadas de lado, em relação às quais foi se acomodando durante toda a vida e que a crise da menopausa traz de volta à ordem do dia.
(...) A menopausa implica para a mulher o enfrentar de uma série de perdas. São perdas que dizem respeito a aspectos fundamentais da identidade feminina, desencadeando um processo doloroso de elaboração de lutos e de transformação.
Embora seja muito difícil distinguir as mudanças provocadas pela menopausa das provocadas pelo envelhecimento, não há como negar também as alterações corporais.
A pele torna-se enrugada, o pescoço flácido, as unhas quebradiças, o cabelo branco, ralo, etc. Algumas mulheres se submetem a cirurgias plásticas, mas, de alguma forma, em algum lugar, as marcas aparecem, no pescoço, nas mãos, nos olhos e a mulher terá que enfrentar, mais dia, menos dia, o luto pela perda da juventude e da beleza jovial. Essas mudanças atingem outro aspecto de sua identidade. Segundo Germaine Greer, o que ocorre é que os homens tratam a mulher na menopausa de uma maneira diferente; não demonstram o mesmo interesse por ela,  não mais lhe dirigem gracinhas, não mais se dão trabalho de intimidá-la com assobios quando ela passa pela rua. Não mais reconhecem sua existência (...) Cessa a perseguição pelas calçadas (...) A mudança dói (...) Ela (a mulher] não se consciencializara  de quanto dependia de sua aparência física -nas lojas, no escritório, nos ônibus. Pela primeira vez na vida, percebe que precisa falar mais alto ou então esperar indefinidamente enquanto outros passam a sua frente. (Greer,1994) 
(...) Constatar que vai morrer é também dar-se conta do limite do tempo. Já não é possível adiar para sempre antigos projetos, torna-se necessário rever os sonhos impossíveis e a mulher na menopausa muitas vezes é tomada de uma urgência que lhe permite dar uma virada e finalmente mobilizar esforços para obter conquistas até então apenas imaginadas.
 2.3 Revendo relações fundamentais
Todo esse processo de constatação das perdas e de tentativa de elaboração é em parte responsável pelo tumultuado processo da menopausa. Nele a mulher vai reavaliar a sua vida e muitas de suas relações serão revisadas.
in "Observações sobre uma Experiência de Psicoterapia com Mulheres na Menopausa" Ruth Rissin
E, porque não somos ridículas, porque podemos amar e ser amadas e preciosas para a sociedade que nos rodeia, peço-lhes, partilhem as vossas experiências, apoiem-se uma às outras, neste blog ou doutra forma qualquer.
Deixo-vos com as palavras imortais de Álvaro de Campos

Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 

Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935

Comentários

  1. Tê amaaada!
    Então é isso (como brincamos por aqui): uma apoia no ombro da outra...só não pode ser para o mesmo lado...senão, caimos todas de madura!rsrs
    Brincadeiras à parte, e pescoços também, sinto esses tempos como a melhor época de minha vida! Como se tudo vivido nas décadas anteriores, fosse um prelúdio para algo maior, melhor e mais "inteiro", condizente com o que me tornei.
    Beijuuss n.a.

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  2. Uma amizade pura e extremamente grande,que eu nem sei como retribuirr
    Porque todos sabem .
    Ou quase todos levo cola por não aguentar escrever por muito tempo.
    Não adianta copiar frase de agradecimento,
    mais escrever e colocar coisas do meu coração.
    Todas as minhas amizades tem uma absoluta
    comprienssão comigo.
    Com cola ou sem cola a retribuição
    do carinho que recebo é imediata.
    Que Deus pague a todos por tudo pois com certeza nunca poderei retribuir
    tanto amor.
    As coisas que você faze, com tanta compreensão e bondade,
    me enchem de gratidão por ter a sua amizade. Obrigada, por se importar comigo.
    Um Tarde Abençoada.
    Bjs ,paz e luz.
    Evanir
    Estou aqui e já seguindo vc através do blog da amada amiga Maga.
    Venha me conhecer e seguir-me

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  3. Amiga, valha-me Deus!! Não tive pachorra para te ler até ao fim, mas do que li, te posso dizer que depois dos 50, depois da menopausa, depois da fertilidade... fica sempre a Mulher, um ser incrivel, um ser capaz de criar seres, um ser com uma força tal, que não será certamente uma contagem de anos ou a paragem de um sangramento que fará com que uma Mulher o deixe de ser...
    Um beijão da amiga (com 65)
    Maga

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  4. Passei correndo (corro mais que tu) só para te dizer que no meu blog deixei um ralhete para ti... Espero que aprecies!
    Beijos da amiga
    Maga

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