Literatura Música e Vida

O Jardim das Delícias ou entre o Paraíso e o Inferno

domingo, agosto 21, 2011Teresa Varela

O Jardim das Delícias Terrenas é um tríptico de Hieronymus Bosch, no qual é descrita a história do Mundo desde a criação. O Paraíso encontra-se à direita do painel central e o Inferno à esquerda. Ao centro celebram-se os prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimento de culpa.
Ligada à "utopia" por um lado, mas representando o lugar da vida humana por outro, Bosch revela a actualidade do seu tempo, dado que essa vida está entre o Paraíso e o inferno, como referem os Génesis. No tríptico, quando fechado, pode ler-se uma citação transcrita desse livro "Ele mesmo ordenou e tudo foi criado". Entre o bem e o mal está o pecado, preposição cristã. No jardim, painel central, representações da luxúria, mensagem de fragilidade nas envolvências do vidro e das flores, reflectem um carácter efémero da vida, passagem etérea do gozo e do prazer.
Será que o Mundo em que vivemos é mesmo o Jardim da Delícias?

Um local em que estamos continuamente suspirando pelo Paraíso, mas escorregando sempre perigosamente para o inferno?

Por natureza somos dicotómicos, talvez mesmo um pouco maníaco-depressivos, ou, como se diz agora, bipolares. Verdadeiramente, nunca estamos completamente satisfeitos com o que temos ou com o que somos. Queremos sempre mais, queremos sempre outra coisa. Muitas vezes, gostaríamos de ter a capacidade para seguir por dois caminhos diametralmente opostos, de viver duas vidas, em simultâneo.

O que nos trava ou o que nos impele tem sempre a ver com a forma como fomos educados, com os nossos afetos e profissões, com as escolhas que fazemos ao longo da vida e com a sociedade que nos envolve. Mas, acima de tudo, tem a ver com o nosso eu profundo que nos guia e, por vezes, nos atormenta, conduzindo-nos a um lugar que só pode ser definido como a história da nossa vida.

O livro que estou a ler atualmente, o Jardim das Delícias (2005), do escritor e jornalista, prematuramente falecido (2010), João Aguiar, tem o mesmo nome do quadro de Bosch e, de alguma forma, também a mesma essência e contradição Paraíso/Inferno versus Vida..

A ação desenrola-se num futuro próximo, meados do século XXI, em que a Europa se encontra unida na Federação Europeia, na qual, à semelhança da atualidade, os seus membros mais poderosos dominam os mais fracos, obedecendo aqueles às condições impostas pelos poderosos grupos económicos. Esta Federação conduz à massificação e estupidificação das sociedades e dos povos que dela fazem parte. No entanto, a pouco e pouco, dois movimentos, de fações diferentes, começam a emergir e a contestar, de forma mais ou menos violenta, o status quo.

Encontro-me sensivelmente a meio do livro e propositadamente escrevo este texto antes de saber qual o seu desfecho, pois que este me levou, mais uma vez, a questionar-me sobre mim própria, enquanto pessoa, enquanto membro ativo e responsável da sociedade em que vivo, e  sobre essa mesma sociedade, que mais não é que o resultado das atitudes e comportamentos de todos nós.

Se o mundo em que vivemos, nas suas vertentes políticas, económicas, ambientais, sociais e afetivas, é resultado dos nossos comportamentos e atitudes e se esse resultado não é favorável à maioria das pessoas, porque razão nos mantemos nós indiferentes a esse fato e apenas nos lamuriamos, acusando uns eles, entidade anónima, dos fatores negativos da sociedade.

Que faz cada um nós para contribuir de forma efetiva para que possamos viver verdadeiramente num Jardim das Delícias, no qual não sejamos continuamente atormentados pelos anseios do Paraíso ou pelas tentações do Inferno?

Se reduzirmos o âmbito, do social para o familiar, que fazemos nós para recriar, no seio da nossa família e afetos, esse Jardim de Delícias livre de tentações e anseios?

E será que podemos fazer algo? Ou este é um fatalismo da nossa condição humana, vivermos um constante combate entre o bem e o mal, o que desejamos e o que está certo, o que deveríamos fazer e a indolência, as tentações e as sujeições?

Buscarmos sempre o melhor de nós, fazermos o melhor que sabemos, contribuirmos de forma positiva para a sociedade em que vivemos, lutarmos por aquilo em que acreditamos, criarmos  e desenvolvermos laços afetivos positivos e gratificantes, vivermos conforme desejamos, parece ser razoável, desejável e mesmo sensato.

Antigamente, na sociedade Ocidental, vivia-se sob a espada do pecado, hoje vive-se, quase, sob a espada da ausência de valores. Mas, no fundamental, os homens, desde o aparecimento da humanidade, atuam basicamente da mesma forma, numa eterna relação e luta pelo poder, sem tréguas.

Porque é tão difícil à sociedade e a cada um de nós encontrar um Jardim de Delícias em que todos possam usufruir da liberdade, da alegria, de desejos satisfeitos, de gozo profundo, de êxtase e de bem-estar? 
Porque é que o amor não basta? Porque é que viver não basta? Porque é que escolher não basta? Porque é que acreditar não basta?


O tríptico fechado: A Criação do mundo, óleo sobre tábua, 220 x 195 cm.

Jeroen van Aeken, cujo pseudónimo é Hieronymus Bosch  (1450 - 1516), foi um pintor dos Países Baixos.
Muitos dos seus trabalhos retratam cenas de pecado e tentação, recorrendo à utilização de figuras simbólicas complexas, originais, imaginativas e caricaturais, muitas das quais eram obscuras mesmo no seu tempo.
Especula-se que sua obra terá sido uma das fontes do movimento surrealista do século XX, que teve mestres como Max Ernst e Salvador Dalí.

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