Prosa

Recordando

quinta-feira, agosto 04, 2011Teresa Varela

A minha família
Os anos passam rapidamente.  Ainda ontem era uma menina e hoje sou uma mulher madura, com as marcas indeléveis de uma vida vivida.
Recordo os meus alegres tempos de infância e juventude vividos numa família de afetos, valores, gargalhadas, brincadeiras e ironias. Essa família presente, da qual muitos já partiram, continua a ser para mim o grande marco, a minha bússola, a minha balança e grande parte da minha identidade.
  O meu pai, a melhor pessoa que conheci na minha vida, que, como eu, gostava de rir e que me ensinou o valor da honestidade, da tolerância, do perdão e do cuidado que devemos ter com aquilo e aqueles que amamos.
Nesse tempo, a minha casa era uma casa cheia. Cheia de família, amigos, funcionários, conhecidos e vizinhos que lá entravam por uma porta sempre aberta.
Esse era um tempo em que o próprio tempo passava mais devagar.
Eu, a minha irmã e a Estrelinha
Recordo as férias no monte, onde cabia sempre mais um, o cheiro da terra, do leite de ovelha, aquecendo em grandes tachos junto ao lar, dos queijos acabados de fazer ou a curar; do sabor incomparável da água nas quartas de barro; dos banhos no grande tanque, que o meu pai mandava limpar, mas em que escorregávamos como em manteiga; dos passeios na pequena charrete  puxada pela paciente Estrelinha (burra).
Recordo as idas à praia, um monte de gente transportando sacos geleiras, cadeiras e guarda-sóis, entre conversas, risotas e brincadeiras.
Recordo os primeiros dias de aulas, em que os livros e cadernos cheiravam a novo e se conheciam novos colegas ou se reencontravam os antigos. E a minha avó com a sua inigualável paciência para ensinar a ler e escrever, aritmética, verbos e gramática a várias gerações de crianças da família e amigos.
Recordo os Natais cheios de cores e luzes, de gente bem disposta e sorridente, de um calor especial que só é possível sentir quando é Natal, de embrulhos envoltos em papeis coloridos e fitas brilhantes, cheios de mistérios e promessas, da Missa do Galo repleta de músicas que nos faziam querer cantar.
Recordo os almoços e jantares em família, os cheiros, o som dos talheres, as conversas, as gargalhadas e os amigos, para os quais havia sempre um lugar.
Recordo as viagens, com os picnics do primeiro dia, (ficava mais barato do que ir ao restaurante),  e os passeios que davam quase sempre direito a uma pequena lição de história, de agricultura ou geografia, dada pelo meu pai.
Recordo os primeiros amores e paixões, os olhares, as mãos que se tocavam ou o primeiro beijo.
Recordo a trupe de amigos, as idas ao cinema, em que tínhamos uma fila só para nós, o calcorrear das ruas nas noites de verão, as conversas intermináveis até às tantas na minha casa.
 
Eu e a minha irmã, num tempo em que todos os sonhos eram possíveis
Recordando revivemos o já vivido. Saudades ou nostalgia, de um tempo passado que se torna presente, marcam as nossas histórias de vida.
Recordando fazemos descobertas, damos outros significados às situações vividas, os quais  nos estavam vedados por estarmos demasiado próximos ou envolvidos, olhamos as coisas numa outra perspetiva.
A vida é feita de momentos, de escolhas, de desafios, de alegrias e de tristezas, de ansiedades, de sonhos, de rebeldias, revoltas, transgressões, desejos, emoções, amizades sólidas e desfeitas, amores que começam e outros que acabam.
A vida é para ser vivida, mas também pode ser contada. O legado deixado pelos meus pais será, por mim, passado aos meus filhos e, de alguma forma, chegará aos meus netos, formando uma cadeia e uma referência que nos identifica, nos distingue e nos inclui num mundo de contradições, misérias e glórias.
A nossa passagem pelo mundo é breve, mas importante para cada um de nós  e para todos aqueles a quem tocamos.
Recordar é também viver, mas não posso viver só de recordações. Todos os dias são para ser vividos e em todos eles posso fazer, aprender ou criar  algo de novo. Para mim, todos os dias são dias de afetos, de família e de amigos, de sorrisos e de gargalhadas e, embora, existam os dias das lágrimas, não quero perder nunca a capacidade de me apaixonar, de amar, de fazer amigos, de sorrir, de lutar por aquilo em que acredito, de me dedicar a um novo projeto, em suma, de viver.

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2 comentários

  1. é tudo bem verdade! beijinhos Isabel

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  2. Pelo que escreveu parece que viveu uma infância bonita. Acho que o campo também deve ajudar. Há dias estava a pensar nisso, que provavelmente não teria sido tão feliz na infância, se não tivesse vivido no campo. Bjs
    (há bocado comentei outro post, mas acho que não ficou embora tenha clicado 3 vezes, espero que agora dê, não sei o que se passa)

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