MOMENTOS MÁGICOS II

Praia da Torre - Carcavelos
Estou aqui olhando o mar. Um mar calmo, apaziguado, de um azul claro forte, vibrante e cheio de vida. Um mar quase sem ondas, apenas com uma ligeira turbulência que revela, não a sua passividade, mas a sua força e vitalidade, tal como uma ténue coluna de fumo, saindo da boca de um vulcão, revela a fornalha incandescente das profundezas da terra.
Pequenas ondas formam-se, já na areia, e desfazem-se suavemente em espuma branca que beija a areia. 
Barcos repousam sobre as águas densas, embalados pela suave canção do mar que ressoa no meu coração e as gaivotas planam livres, sustentadas pelas asas que nunca tiveram medo de usar.
O céu começa lá longe, na linha do horizonte, num azul ainda mais claro do que o do mar, e espreguiça-se sobre a terra, sem nuvens, pacifico e protetor. Bem alto e em todo o seu esplendor o sol ilumina a paisagem, com uma promessa de vida, amor e calor.
Sentada na explanada escrevo as palavras que o momento me dá e contemplo a paisagem e a areia onde há pouco me encontrava sentada, curando feridas, eliminando cicatrizes, revivificando o meu coração. Absorta, durante horas, sozinha, mas não solitária, deixei-me aconchegar pelo sol, embalar pelo mar, robustecer pela areia, elevar pelo céu e acariciar pela brisa suave.
O meu encontro com os elementos, com o universo, com Deus e comigo própria, encheu-me os olhos de cores e o coração de brilhos.  A calma suave invade o meu coração pacificado. A certeza de que todas as coisas têm um tempo certo e uma razão, dá-me um novo alento, uma nova energia para retomar a minha caminhada pela vida.
Sou por natureza apressada. Quando quero uma coisa, quero-a logo ali, naquele momento. Mas, a sabedoria divina é contrária à pressa. Porque a pressa é inimiga da calma, da reflexão e de conseguirmos ouvir, com clareza, a voz sussurrante do nosso coração.
Recordo, sem dor, sem remorso, sem tristeza, o passado recente e o passado longínquo. Sinto a certeza de que nenhuma das minhas lágrimas foi em vão. Nem um segundo da minha vida foi desperdiçado. 
Percebo que a coisa que melhor sei fazer é amar. Amar profundamente, amar docemente, simplesmente amar. Não amo todos de igual forma, nem com a mesma intensidade. Mas sei que amo porque a felicidade dos outros me traz felicidade.
Sinto agora que os projetos e sonhos que o meu coração silenciosamente guardava e que eu afastava do pensamento, como se de uma mosca incómoda se tratasse, mas que apesar de tudo foram lentamente ganhando forma, esperando o momento em que eu, perdendo o medo, tivesse a coragem de os assumir,  estão finalmente maduros e tenho agora a coragem para os pôr em prática.
Não tenho maneira, nem forma de saber o que o futuro me reserva, mas isso não me incomoda, nem me deixa perplexa, pois sei que, quaisquer que sejam as circunstâncias, nunca estarei sozinha travando as minhas lutas, sofrendo minhas dores, aceitando as realidades menos agradáveis. 
Sei que nunca estarei sozinha, porque nunca o estive. Não é difícil de acreditar quando, olhando o passado, me vejo sempre acompanhada.
Inspiro lenta e suavemente, que bom que a minha maior habilidade é amar, isso torna bem mais fácil fazer seja o que for que faça na minha vida.
Agradeço este momento a Deus, a algumas pessoas muito especiais e queridas e a mim própria, por me terem ajudado a encontrar a coragem para enfrentar os meus maiores medos, as coisas que sempre mais temi.
E, sei agora, de forma profunda e interiorizada, que aquilo que mais tememos são os medos que temos dentro de nós.

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