Divagações Natureza e Espiritualidade

DEAMBULAÇÕES

terça-feira, maio 15, 2012Teresa Varela
















  
A manhã fresca e silenciosa transporta meus passos pelas memórias do tempo, num regresso nostálgico a um passado onde memórias e sonhos se confundem e  a realidade é apenas um local sem nome.
O céu, carregado de tons de azul, empresta uma luminosidade fria à paisagem. A terra húmida e árida, em tons de castanho acinzentado, não  reflete a luz, nem emite calor. A visão do parque infantil agride-me, com a violência das cores que destoam e ferem a paisagem, como uma luz, demasiado forte, incidindo nos olhos acabados de acordar.
O meu olhar perde-se nos vazios bancos de jardim que escarnecem da minha solidão. O baque inesperado do meu coração produz-me um violento cansaço. Sento-me num dos bancos. O olhar perdido. A mente divagando sem nexo. O  peso do desencanto descansando nos meus esgotados ombros.




Como num sonho, sento-me num dos baloiços e embalo-me, por tempo indeterminado, perdida num desejo nostálgico de algo indefinido.   

A gargalhada espontânea, do primeiro cliente do Parque, devolve-me, abruptamente, à realidade.
Ergo-me pesadamente. O meu tempo passou. Desalentada caminho, lentamente,  sem destino. 
Inesperadamente, os meus olhos detêm-se numa visão caricata que me chama para a vida.   
Inspiro profundamente.  

Os meus ombros erguem-se altivamente. De regresso à vida, começo a minha viagem fantástica, em torno da minha cidade, no lugar a que chamamos casa.
E, as imagens maravilhosas de vida e de cor sucedem-se, como se, subitamente, tudo ganhasse um novo sentido, uma nova alma...Um recomeço...
A vida, as cores...A natureza, os cheiros, os animais...
 As flores...A vida que se fertiliza...





A harmonia...A partilha...O esplendor da natureza em flor...
 Aves em bando, em ninhos ou trilhando caminhos
  


O som das vagas, o cheiro marinho, o céu , o sol, o ar e o mar..

Piso, dançante, o fofo tapete, matizado de verde e castanho, rodeada pelas corajosas e imponentes árvores, minhas irmãs. 

Então, uma voz, um sussurro, quase apenas o meu pensamento, faz-me interromper a minha dança com a natureza. 
Suspensa no tempo, olho em volta, de ouvido à escuta...Mas,...nada.... "o essencial é invisível para os olhos, só se vê bem com o coração"...Esvazio-me de conceitos, preconceitos e verdades absolutas e caminho, em busca,  para dentro da natureza... É então que oiço um sussurro, uma brisa que me afaga o rosto e me despenteia suavemente os cabelos e vejo-o, não nítido, mas numa imagem difusa, própria dos sonhos e das nossas aspirações e desejos mais secretos. 
Ele, o Espírito da árvore, sempre viveu ali, desde o princípio dos tempos, e sinto a sua força e vitalidade que me contagia e me faz sentir parte do imenso todo que é o Universo.
Sinto que estou viva e que todas as coisas são possíveis, mesmo aquelas que serão apenas sonhos.
O fim do dia aproxima-se, o sol espreguiça-se, por trás das árvores, ensonado. É chegada a hora mágica em que, por momentos, o tempo parece parar.

É tempo de regressar ao coração da cidade...A noite cai... As garras do medo tentam, ávidas, aprisionar o meu coração.

Os meus passos ressoam nas ruas desertas. A solidão afoga-me num nó. Enovelo-me, protegendo-me do frio, do medo e dos meus fantasmas.
Perante os meus olhos, atónitos, uma imagem, de alguém nunca esquecido, começa a tomar vida, a ganhar contornos...

Paro na íngreme ladeira... Os saltos escorregam na calçada gasta e polida pelos anos...Não pode ser verdade..Os meus olhos estão a pregar-me uma partida...Os que partiram não voltam...
Um odor suave e inesquecível espalha-se pelo ar...Não sei se devo ter medo, ou ficar feliz...
A medo dou curtos passos, os saltos prendem-se entre as pedras da calçada e, por momentos, sinto que vou cair. 
Então, um toque suave, imaterial, devolve-me o equilíbrio. Sinto uma onda doce de calor que envolve o meu coração e acaricia o meu rosto. 
Sinto que a saudade, há tanto tempo escondida, explode e sai da minha alma. 
Uma grossa lágrima, de emoção sentida, escorre-me pela cara, nela não existe dor, sofrimento, ou revolta, é apenas a expressão do mais belo, forte e seguro sentimento que alguma vez senti na vida.
Sei, agora, que não estou sozinha, nunca fui abandonada. 
A figura ténue esfuma-se na noite, mas, dentro de mim, para sempre, fica a certeza da eternidade.
Abro as cortinas para deixar entrar a luz, de uma lua esplêndida, imensa e radiosa. Os seres que a habitam são-me familiares, mas, a partir de hoje, sei que não mais os devo temer.  Eles serão, para sempre, os meus mais fiéis guardiões que nunca, nunca, me deixarão sozinha.

Da minha cama, vejo-a redonda, brilhante e imensa. A sua luz emana um calor que embala e vela o meu sono. E, eu, adormeço pacificada.


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3 comentários

  1. UAU Tê!!! Que vivência mais linda...e é fato que eles não nos abandonam, apesar de ter dias que preciso me esforçar pra sentir a presença deles. Mas é aprendizagem minha, aprendizagem.
    Beijuuss, encantados por mais essa beleza que partilhou, n.a.

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  2. Olá, vim lhe convidar para visitar meu blog. Talvez goste, assim como gostei do seu! Aproveito para lhe desejar um final de semana magnífico.

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