Histórias - Natureza - Vida - Sobreiro (Chaparro) - Abençoado

O Velho e o Chaparro Abençoado

sexta-feira, fevereiro 15, 2013Teresa Varela

Alentejo - Inês' Gallery
O sol iniciara a sua curva descendente, de forma mais acentuada. O  calor acalmara, corria uma brisa, ligeira e morna, que fazia ondular a vegetação.
 O Velho saiu de casa, encurvado e trôpego, caminhando em  passos curtos e rígidos.
Olhou em volta, deixando que a sua alma se enchesse dos cheiros e das cores, daquele mundo que conhecia de olhos fechados.
Os seus olhos, permanentemente lacrimejantes, fixaram, com amor, o velho sobreiro.
Determinado, caminhou até ele. Este não era um sobreiro qualquer. Era um sobreiro, ou melhor, um chaparro com história.
Contava-se que o seu bisavô o tinha plantado no dia em que lhe nascera o primeiro filho e que sempre o tratara com desvelado carinho e permanente atenção, como se o chaparro fosse gente ou animal de estimação.
Quando lhe perguntavam o que tinha o chaparro, para que lhe desse tanta atenção, invariavelmente, respondia que o chaparro era abençoado e que, um dia, seria a sua salvação.
O sobreiro, não se fazendo rogado, crescia, crescia, engrossava o tronco e estendia, fortes e elegantes, as suas enormes pernadas em direção ao céu. E, um dia, foi mesmo a sua salvação.
Era verão, um verão quente como não havia memória, o mundo estava quedo, a terra e as searas torravam ao sol, os insetos emudeciam, o gado estava prostrado, quando, inesperadamente, no céu ribombou um enorme trovão.  
Atingido mortalmente, o centenário carvalho, que fazia sombra à casa, entrou em combustão, o fogo alastrou pelos campos, engolindo tudo à sua passagem. Não havia fuga possível. Então, o avô, arrastando o seu velho pai, correu até ao sobreiro, levando a família na frente. Um a um, todos subiram para as pernadas do imenso sobreiro e este, lambido pelas chamas em fúria, protegeu generosamente toda a família.
Naquela região, todos conheciam e respeitavam, agora, o Chaparro Abençoado.
O Velho nunca conhecera o bisavô e mal se lembrava do avô, mas, desde menino, aprendera a venerar aquela árvore, agora centenária, que orgulhosamente dominava a paisagem.
Era à sombra deste sobreiro que dormitava nas tardes de verão. Foi numa das suas pernadas que pendurou o baloiço para os filhos. Era sob a sua proteção que pensava e cismava, quando enfrentava problemas difíceis. Era de lá que vigiava o gado na pastagem.
Rebanho de Ovelhas
Toda a vida do Velho fora dedicada à lavoura e à criação de animais. Ovelhas, vacas alentejanas, porcos pretos alentejanos e até as vacas turinas, que lhe garantiam o leite durante todo o ano.
Porco preto Alentejano

Eles eram o seu sustento, o seu trabalho e toda a sua devoção.


Vaca e bezerro Alentejanos
 Do seu trabalho diário, que começava ao raiar da aurora e só terminava pela noite fora, dependia toda a sua família. Eles eram a sua honra, o seu legado, que também a ele tinha sido passado, pelas mãos do seu pai.
Touro Alentejano
Sentado no chão, encostado ao chaparro, o Velho, com as suas mãos trémulas, cortava pedaços de queijo com o canivete que retirara do bolso. Mastigava lentamente, saboreando cada pedaço que ia acompanhando com pão.


Vaca Turina
Uma ponta de saudade desceu sobre o seu peito.  
Bem guardado, nas suas memórias, estava aquele dia distante, teria ele uns nove anos,  em que a Cigana, a égua de seu pai, parira o seu primeiro poldro.
 O Velho, deslumbrado, assistiu ao nascimento e o seu coração de menino inchou de orgulho e felicidade quando o pai, olhando-o com seriedade, lhe disse: Este poldro é teu. A partir de hoje és responsável por ele. Mas, toma atenção, será a forma como o tratares que ditará aquilo que poderás esperar dele.

Encantado foi o nome que o Velho escolheu, para dar à maior prenda que alguma vez recebera na vida.
Até ao final, Encantado  foi o seu grande companheiro de trabalho, de passeios, das idas à vila...
Ainda lhe parecia poder ouvir, pairando no ar, o seu relinchar potente, o som ligeiro dos seus cascos. Mesmo agora, sentira um toque suave no rosto, das suas crinas esvoaçantes.
De olhos fechados, recostado no velho chaparro, o Velho recordava as loiras searas, que as suas mãos, outrora fortes e destemidas, haviam semeado, ceifado, enfardado e debulhado.

Para a sua mulher ficavam os trabalhos da casa, os filhos, a horta, as galinhas e os coelhos. Juntos tratavam o pequeno pomar. Juntos tinham vivido uma vida, criado uma família, trabalhando sem descanso, sem férias, sem viagens ao estrangeiro, mas essas eram coisas que para eles nem tinham sentido.  O seu mundo era aquele. Animais, sementeiras e colheitas não lhes davam férias, nem feriados.




Recordou a casa velha, de seus pais, aquela onde tinha nascido...


Monte alentejano - Carlos H. Macedo
Recordou a casa de seu tio, da qual, agora, só restavam ruínas. Nenhum dos filhos se interessara pela lavoura. Deixaram-na cair, triste e abandonada.
Quando era menino, o Velho, corria, um bom quarto de hora, todas as manhãs, para levar o leite da vaca turina para os primos.


Alentejo com Papoilas- Salvação Barreto
O tempo passara, bem mais depressa do que o Velho dera conta. Da velha casa dos pais, que ele mantivera e cuidara com carinho, só restavam as memórias.  O seu filho mais velho, que fora para Lisboa e se dedicara à construção civil, tinha-a restaurado, melhor dizendo, deitara-a quase completamente abaixo, deixando ficar apenas algumas paredes, e fizera dela uma casa grande, com as comodidades e modernices da cidade.
Dissera-lhe, um dia, "Meu Pai, gosto muito de vir para cá com a minha família, mas temos que ter condições. Não posso obrigar a mulher e os filhos, a virem para aqui, sem casas de banho, sem electricidade, sem comodidade.  Eles até gostam de vir.  Têm a praia perto, gostam da vida do campo e gostam de estar com os avós, mas  não vêm se não tiverem condições, se não poderem convidar os amigos.
O Velho aceitou as alterações, as obras, a grande confusão. Afinal, tinha criado bons filhos, amigos de seus pais e, portanto, tinha que fazer concessões. E, no final, também ele se habituou às modernices e à comodidade.


Na Terra dos Quatro Cantos - Paulo Narciso


O Velho sorriu, com um sorriso meio desdentado. Tinha tido uma boa vida. Houve momentos difíceis, alguns, mesmo, de desespero. 
Mas, a vida dera-lhe família, uma boa mulher, filhos que o adoravam, amigos e terra castanha, campos verdes, animais no pasto e dera-lhe aquele sobreiro, onde podia descansar.
A mulher do Velho chamou ao longe: Zé, anda para casa, já se faz tarde, o jantar está pronto.
Não obteve resposta, nem viu qualquer movimento.  Apressada foi ter com o marido. Observou-o sorrindo. Chamou-o de mansinho, mas nem um músculo se moveu na cara do Velho.
A Mulher agachou-se, tocou-lhe no rosto,.... Uma lágrima escorreu-lhe pelas suas faces de velha, crestadas pelo sol. Sentou-se ao lado do marido e encostou-se a ele.
Fechou os olhos e, sentindo um aperto no coração, recordou, também ela sorrindo, o primeiro beijo que o seu Zé lhe roubara.  Tinha sido ali mesmo, sob o olhar protetor do Chaparro abençoado. 
Fora também debaixo daquele chaparro que deitara os seus filhos, à sombra, enquanto andava, atarefada, entre galinhas, couves, coelhos,  ou amassando o pão, que o seu belo forno havia de cozer.
E, fora ali, também, ninguém jamais soubera disso, que ela e o seu Zé, pela primeira vez se tinham amado.



No dia seguinte, quando os filhos chegaram, para passar as férias, encontraram os seus pais sorrindo, encostados um ao outro, sob a proteção do Chaparro Abençoado.....

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2 comentários

  1. Uma história linda, comovente... acho que chegar ao final da vida dessa maneira, é o que eu mais quero, mais espero: com a certeza de que fiz o meu melhor, dei importância ao que foi realmente importante, e pude entregar-me sem medos e sem arrependimentos quando chegou a minha hora de ir.

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