Viver; Sobreviver; Observar; Viventes

Viver ou Sobreviver

sexta-feira, setembro 20, 2013Teresa Varela

Sobrevivemos, sobrevivemos, a adolescências conturbadas, a perdas de pessoas e coisas, a guerras, a doenças, a dificuldades financeiras, a trabalhos desagradáveis ou desmotivadores, a chefes intragáveis,  a traições, a campos de refugiados, a preocupações com os filhos, a maus casamentos, a injustiças, a mentiras, a calunias, a torturas.....a sonhos desfeitos, a objetivos gorados, a desejos adiados....
Nós, humanos, somos sobreviventes, até que os nossos corações parem e as ondas cerebrais cessem de existir.
Somos os animais mais inteligentes da Terra. E somos capazes tanto dos maiores atos de abnegação e coragem, como das maiores atrocidades.
Sobrevivemos sim, muitas vezes vergados pela dor física ou psicológica,  sozinhos, perdidos, desiludidos, zangados, desesperados, revoltados, fracassados....
Sobreviver é tanto uma questão de instinto, como uma questão orgânica.
Já Viver é uma outra coisa.
Viver tem a ver com a forma como agarramos a Vida.  Tem a ver com a nossa capacidade de nos reinventarmos e reerguermos. 
Viver é ter a capacidade de sonhar, acreditar, amar e sorrir.  Viver é ter a capacidade de ser feliz, apesar de todos os pesares.
Há alguns anos atrás li um livro da atriz e autora Liv Ulman, neste ela descrevia a sua experiência como embaixadora da UNICEF. Li o livro de um fôlego. As suas palavras transportaram-me aos campos de refugiados que visitou e com ela vivi momentos de emoção, perplexidade e tristeza. 
Já não me recordo de quase nada do livro, mas uma passagem ficou gravada de forma indelével, para sempre, na minha memória e no meu coração.
Contava ela que, certo dia, quando chegou a um campo de refugiados, reparou numa menina que se encontrava muito quieta e triste.  Foi ter com ela e dividiu um pão, que estava a comer, com a menina. Então a criança olhando-a com uns enormes olhos agradecidos, que revelavam já terem visto muito mais coisas, tristes e assustadoras, do que deveria ser permitido ver a qualquer ser humano, agradeceu-lhe e tirando do seu magro dedo infantil um anel de metal, de inferior qualidade, provavelmente o único bem que possuía na vida, ofereceu-lho. 
Liv Ulman tentou recusar o anel, mas a menina disse-lhe que era assim que deveria ser, que todos deveriam partilhar o que tinham uns com os outros. Liv Ulman, de olhos rasos de lágrimas, agradeceu à menina a oferta.

Foi este momento extraordinário de Vida e este anel  que deram origem àquele que é hoje o símbolo da UNICEF, um anel  que tem no seu interior uma imagem do mundo e uma criança ao colo de uma mulher.
A isto eu chamo Viver, Esta menina perdida, sozinha e assustada, sem nada de seu, tinha ainda a capacidade de amar, de ser grata e, acima de tudo, de partilhar o único bem que detinha.
Vivemos, todos os dias, rodeados por estes pequenos milagres, que dão sentido à palavra humanidade e à palavra Vida.  Muitas vezes nem nos damos conta das pessoas extraordinárias que passam pela nossa vida. Nem dos momentos fantásticos que nos é permitido viver.
Pois, passamos a vida preocupados com o que temos e o que queremos vir a ter; com o que fizemos e com o que deveríamos ter feito; com os nossos erros, as nossas desilusões, as nossas mágoas..
Queríamos viver num mundo de bondade, sensatez, facilidades, riqueza, saúde,...., mas, a maior parte das vezes, somos nós mesmos que não temos a capacidade de dar essas mesmas coisas a nós próprios e ao mundo.
Vivi dois anos de depressão.  Vive dois anos de culpabilização por não ter feito muitas das coisas que gostaria de ter feito na vida.  Vivi dois anos de revolta por todas as injustiças ou faltas de amor de que fui vítima. Vivi dois anos sentindo-me culpada por não ter energia para pegar na minha dissertação de mestrado, com verdadeiro empenho.
Há dois dias atrás, levei a "conselho de família" a seguinte questão:
- Que devo fazer relativamente ao mestrado que deveria entregar no final deste mês? Peço prorrogação do prazo para outubro? Inscrevo-me novamente neste ano letivo (opção muito mais dispendiosa)? Ou desisto de obter o grau de mestre e fico-me só pela pós-graduação que já tenho.
As respostas foram unânimes: Devia inscrever-me  novamente. Tentar fazer tudo até ao final de outubro seria demasiado cansativo e, provavelmente, não daria bom resultado. Mas, era uma pena não terminar o mestrado, quer porque o esforço de dois anos, a ir para aulas e fazer trabalhos, se tornaria como que numa coisa inglória, quer porque obter o mestrado me daria satisfação pessoal e também  poderia contribuir para o melhoramento da minha vida profissional.
Senti-me, verdadeiramente, apoiada. Senti que, finalmente, me tinha começado a libertar do peso da culpa. Que, finalmente, começava a aceitar a minha falibilidade, como algo perfeitamente aceitável.
Por vezes, temos que nos afastar e olhar, para a nossa vida e para o que nos rodeia, apenas como observadores, sem fazer avaliações ou críticas, e mesmo sem interferir com o que observamos.
Deixar fluir a calma. Deixar nascer dentro de nós a resposta que nos é sussurrada do nosso coração.
A vida terrena é demasiado curta, para não aproveitarmos todos os momentos. Sejam eles de aprendizagem, sofrimento, alegria ou dúvida.
No final, a vida continua sempre e é essencial que, para além de sobreviventes, sejamos Viventes.

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1 comentários

  1. Que lindo Tê! É isso mesmo...viver dói,mas doí mais, muiiito mais não viver ou sobreviver!
    Beijuuss irmiga

    ResponderEliminar

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