Alegria; Amor; Solidão Natal

MARILUA - Uma história de Natal

segunda-feira, dezembro 23, 2013Teresa Varela

Ceifeira - Costa Araujo - Acrylic on canvas
Nascida Maria Luísa, em homenagem à sua Madrinha, foi rebatizada pelo seu irmão mais novo, tendo passando a ser conhecida, por todos, como Marilua.
Desde tenra idade, Marilua revelou ser uma rapariga desenrascada,  quer fosse na lida da casa, nos trabalhos do campo ou a cuidar dos irmãos mais novos.
Na escola não foi das melhores alunas, não porque não gostasse das letras e dos números, mas porque em casa a sua ajuda era sempre necessária, acabando por ter pouco tempo para os estudos.
Marilua nunca foi bonita,  as suas pernas demasiado compridas, o rosto grosseiro e o andar desengonçado  davam-lhe um ar um pouco masculino e sem graça.
De belo tinha apenas os seus encaracolados e brilhantes cabelos e os seus olhos imensos.
Mas, o coração de Marilua era grande, grande, como os seus olhos de mel, enormes, sempre sorridentes, sempre doces. 
Marilua transformou-se numa mulher de trabalho, o qual realizava  sempre alegre  e cheia de energia. Arranjava tempo para tudo e para todos os que precisassem dela, fosse para cuidar dos doentes ou dos filhos dos vizinhos e amigos, fosse para os ajudar nas atividades agrícolas.
Um a um, todos os seus seis irmãos foram casando e deixando a casa dos pais. Uns arranjaram trabalho por ali, outros foram para a cidade grande, outros para o estrangeiro, mas Marilua foi ficando.
Os pais envelheceram, já pouco podiam fazer e todo o trabalho da quinta foi ficando a cargo de Marilua. Ela começou a ter dificuldade em conciliar o seu emprego, com o trabalho da quinta e o apoio aos sobrinhos e aos pais.
Marilua, embora muito cansada, mantinha o sorriso e a sua boa disposição natural, nunca recusando o pedido de ajuda de algum vizinho ou amigo.
A saúde dos pais foi-se degradando progressivamente e, a certa altura, ficaram os dois acamados. Marilua viu-se obrigada a deixar o emprego. Nunca fora gorda, mas agora os ossos pareciam querer furar-lhe a pele. O seu sorriso mantinha-se, como um hábito antigo, mas nos seus olhos nascera uma sombra. Ninguém a via, mas ela estava lá.
Os pais faleceram, com diferença de poucos meses, e, pela primeira vez na vida, Marilua viu-se sozinha. O tempo sobrava-lhe. Os sobrinhos tinham crescido e já não precisavam dela. 
Mesmo após a morte dos pais, não tornou a arranjar emprego. Passava os seus dias trabalhando na quinta, tratando dos animais, da horta e do mais que nela semeava. De manhãzinha pegava na velha pickup e ia aos supermercados e mercearias  para onde, desde há muito, eram vendidos os produtos da quinta.
Marilua estava sozinha e sobrava-lhe tempo para pensar, ainda que os irmãos e muitos dos vizinhos lhe pedissem ajuda ou, esporadicamente, a convidassem para uma festa, um almoço, um casamento ou batizado.
Marilua tinha irmãos, irmãs e amigas, mas todos tinham a sua vida, os seus empregos, os filhos e os maridos ou mulheres. Só ela estava sozinha, sem ninguém, que lhe quisesse bem, para cuidar.
Foto de MaraSarmentoPhotography

Dezembro caminhava apressado. O Natal aproximava-se rapidamente, as ruas da pequena vila, engalanadas e repletas de luzes multicolores, pareciam querer desmentir o frio que se fazia sentir.
Naquele dia, um nevoeiro cerrado abateu-se por toda a região.
Logo que lhes era possível, as pessoas recolhiam a casa ou aos cafés. As ruas estavam desertas, não se via vivalma, nem mesmo cães ou gatos.
Marilua acabara os últimos trabalhos da quinta. Todos os animais estavam agora tratados. 
Recolheu a casa e ficou imóvel, por largo tempo, olhando o céu, enevoado, através da vidraça. 
Na casa todas as luzes se encontravam apagadas, a única iluminação era proveniente da lareira, que projetava figuras fantasmagóricas nas paredes. 
A chaleira, que se encontrava ao lume, apitou. Marilua moveu-se por fim. O seu rosto perdera o sorriso. O seu olhar parecia ausente, mas determinado.
Conscienciosamente, apagou os bicos do fogão, encostou a lenha bem ao fundo da lareira, vestiu o casaco e saiu de casa, fechando a porta de mansinho.
Estranhando o atraso da irmã, a quem havia convidado para jantar, Isabel decidiu ir até à casa dela, talvez até a encontrasse pelo caminho.
Agora que escurecera, as ruas encontravam-se adormecidas. Isabel parou à porta da casa que fora de seus pais. Esta estava escura, adormecida. Meteu a mão dentro da mala e procurou a chave.
A casa, primorosamente arrumada, estava fria e sem vida. Isabel acendeu as luzes e procurou a irmã em todas as divisões. Mas, de Marilua nem o rasto.
Preocupada, ligou para o marido, para saber se a irmã já tinha chegado, pois podiam ter-se desencontrado. Mas a resposta foi negativa.
Dali a pouco toda a vila estava em sobressalto. Vestidas com os seus abafos mais quentes, enchendo as ruas, há pouco desertas, todos procuravam Marilua, chamando-a, aos gritos. Mas, apenas o eco das suas vozes lhes respondia.
Ninguém se lembrava de a ter visto ao fim da tarde. O medo encheu-lhes os corações. Que lhe poderia ter acontecido? Logo ela uma rapariga tão alegre, sempre disposta ajudar todos?
Ramiro da Azinhaga chegou, de mais uma projeção de cinema na cidade, e ficou espantado, quando viu tamanha agitação.
Estacionou o carro e, aflito, perguntou, à primeira pessoa com quem se cruzou, o que se passava.
Mas, eu via-a, dizia Ramiro.  Quando ia para a cidade, via-a a caminhar pela estrada fora. Até pensei cá para mim. Onde irá a Marilua a estas horas, com este nevoeiro e este frio? Mas, depois, conclui que devia ir à Quinta da Eira, ou aos Freixos, ajudar nalguma coisa. Ainda olhei mais uma,ou duas vezes para trás, mas nunca mais pensei nisso.

Foto de MaraSarmentoPhotography

De imediato se juntou um grande grupo, uns foram telefonar para os donos das herdades, outros para a Guarda e os restantes decidiram ir estrada fora.
Isabel estava parada na rua, tiritando de frio e com lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Não acompanhou o grupo. 
Começou a caminhar devagar, em sentido contrário, na direção da casa da irmã.
Abriu a porta do quarto de Marilua, devagarinho. Sentia-se como um ladrão, invadindo o espaço e intimidade de sua irmã. Esta que sempre fora tão alegre, tão amiga, tão disposta a ajudar e tão reservada.
Acendeu todas luzes. Abriu gavetas e armários e caixas. Por fim, encontrou o que procurava. Uma caixa, velhinha, de sapatos. Os sapatos que Marilua levara ao seu primeiro baile.
Quase a medo, abriu a caixa, dentro desta encontravam-se fotografias, pequenos objetos, sem mais valor do que sentimental, caracóis de todos os sobrinhos e, mesmo no fundo, vários cadernos escolares.
Isabel, como se cometesse um sacrilégio, passou os olhos  por todos eles rapidamente.
Procurava algo que lhe pudesse ser útil para encontrar a irmã, que lhe dissesse para onde ela poderia ter ido.
Afinal, que sabia ela da própria irmã, para além daquilo que estava à vista de todos?
A irmã nunca se queixava de nada, nunca pedia nada e mostrava-se sempre incansável, feliz, sorridente.
Que tonta fora. Nunca olhara a sua querida irmã com olhos de ver.
Aos poucos, foi entendo as dores, incertezas, angústias e tristezas de Marilua e, ao chegar ao primeiro caderno, entendeu, finalmente, porquê e onde a sua irmã se encontrava.
Ligou para o marido e pediu que a viesse buscar. Ele estava longe, no meio do pinhal, procurando Marilua, mas disse-lhe que iria o mais rápido que pudesse.
Pouco depois, entraram no carro em silêncio. Isabel apenas lhe disse: Vamos ao rio.
O frio era cortante, o rio corria veloz, salpicando tudo em volta com pingos de água gelada.
Isabel parou na margem. Esquadrinhou, aproveitando a luz dos faróis do carro, toda a área circundante, depois deteve os seus olhos no rio. Fixou-o até que os olhos lhe doessem.
Estremeceu sobressaltada com o grito do marido: Olha ali....
Num abrir e fechar de olhos, chegaram focos, barcos, uma ambulância, mergulhadores e quase toda a população da vila.
Os imensos olhos de Marilua, vítreos,  fixavam o céu. Viera à tona, presa nos ramos de um tronco de árvore que vagueava pelo rio.
Isabel chorava inconsolável. Incrédulos, todos os presentes se perguntavam como era possível. Logo a Marilua, ela que era a alegria em pessoa.
Soluços altos e incontroláveis vieram perturbar os murmúrios dos circunstantes.
Carlos, o homem mais forte e rico da região, dirigia-se enlouquecido, para o corpo sem vida de Marilua.
Ajoelhou-se. Abraçou-a e, num lamento profundo, disse: Como pudeste partir, se eu te amo?
De ti apenas tenho o beijo que te roubei aqui, junto ao rio, e a recordação dos teus olhos doces e do teu sorriso quente.
Isabel encaminhou-se vagarosamente até ao sítio em que o corpo se encontrava. Colocou a mão no ombro de  Carlos e disse-lhe em surdina: Ela também te amava. 
Depois, entregou-lhe o caderno amarelecido pelo tempo, que nunca mais largara e, virando as costas, pediu a todos para se afastarem.
Nesse momento, o nevoeiro dissipou-se. Milhares de estrelas brilhavam no firmamento e, vinda de um lugar misterioso, uma luz, quase divina, iluminou os dois apaixonados.
Álvaro Roxo - Portfólio Fotográfico

Era véspera de Natal....


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1 comentários

  1. MM LINDO CONTO, E LINDAS FOTOGRAFIAS. A IRMÃ NUNCA TINHA OLHADO MARILUA COM OLHOS DE VER... ISSO É MUITO TRISTE. É HORRÍVEL A MANEIRA COMO AS PESSOAS DEIXAM PASSAR OUTRAS PESSOAS EM BRANCO, E SÓ PERCEBEM QUANDO ELAS MORREM. TEU CONTO TOCA FUNDO.
    FELIZ NATAL!

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