Contos

O VIAJANTE - CAPÍTULO III

quinta-feira, janeiro 30, 2014Teresa Varela

 




Me sinto em casa em qualquer lugar
Mas sou turista em todos
Sou viajante em qualquer lugar
Sou uma parte do todo

                                                    O Viajante - Forfun





João terminara a sua caminhada para Sul, atravessou a África do Sul, esse país de contrastes, do incontornável apartheid e do seu maior opositor Nelson Mandela, ou Madiba, como carinhosamente lhe chamam os locais, e seguiu pela Namíbia em direção a Angola.

Itinerário de João em África


Esta foi uma atribulada viagem, de vários dias, na qual se deslocou de diversas formas, incluindo a pé, e que culminou numa inolvidável expedição, num velho autocarro todo desconjuntado e cheio de gente, carregada de sacos, malas e até animais. 
O calor era sufocante e o autocarro baloiçava, periclitante, a cada ressalto da esburaca estrada, sacolejando, intermitentemente, os exaustos passageiros.

Mas, ao contrário do que se poderia pensar, a calma reinava dentro do incómodo veículo. Até mesmo as crianças raramente choravam ou gritavam. Afinal, todos estavam habituados ao desconforto, às longas esperas e aos acidentes de percurso.
Ninguém parecia particularmente incomodado, nem mesmo, quando o ofegante autocarro, emitindo um som gutural, se engasgou, estrebuchou e, finalmente, se quedou silencioso e inerte, no meio de coisa nenhuma.
Durante horas, abrigando-se do sol, por debaixo das árvores da floresta tropical, que ladeava a estrada, aguardaram pacientemente que o motorista tentasse resolver o problema com a ajuda de um passageiro que se voluntariou para tal, afirmando-se entendido no assunto.
O radiador fumegava, foi preciso encontrar água em grande quantidade para conseguir saciar a sua sede, mas, mesmo assim, o motor parecia ter emudecido para sempre. Retiraram peças, voltaram a colocá-las e, a cada nova tentativa, o motor rosnava, tossicava e morria. Num último esforço, pediram a todos que empurrassem o decrépito autocarro. Este rosnava, oscilava, estremecia e, por fim, sem saberem bem como, lá pegou.
Subiram apressadamente para o autocarro, temendo que este se fosse abaixo e lá seguiram viagem, por mais quatro sacolejantes horas, ao som de um motor asmático.
João chegou, meio atordoado, a Benguela, a capital da Província de Benguela. Vagueou, sem direção definida, pelas ruas da cidade, tentando desentorpecer as pernas e clarear a mente.
Os bancos do jardim pareceram-lhe convidativos e decidiu sentar-se num deles, para decidir onde se deveria dirigir. Foi quando estava a retirar um mapa, já muito surrado, e os seus apontamentos da mochila, nos quais havia colocado informações relativas aos locais que iria visitar, que passou por ele um grupo de pessoas, com ar europeu, falando inglês, com diversos sotaques.
Eles também o viram e param ao seu lado, perguntando se precisava de ajuda.


Após a conversa inicial, informaram-no de que faziam parte de um grupo de voluntários, ao serviço dos Médicos do Mundo, que se encontrava em Benguela e João simpatizou de imediato  com eles.
Estes, depressa, perceberam que João poderia vir a ser uma ótima aquisição para o grupo, por que, embora não fosse médico, trabalho era coisa que não lhes faltava e João poderia ajudá-los com a papelada, nos transportes ou na integração e educação das crianças, até por que, com a sua já longa estadia naquele continente, aprendera várias línguas e dialetos, sendo-lhe muito fácil comunicar com os indígenas.
Baía Azul
Os meses foram passando.  João tomara a seu cargo diversos trabalhos fundamentais para o melhor funcionamento da organização, quer fossem as relativas a papeis, à recuperação e melhoramentos no edifício em que desenvolviam as atividades, ensinando às crianças coisas tão diversas quanto a matemática  e a física, ou carpintaria, pintura e outros trabalhos relacionados com a construção civil.
Primeiras locomotivas
Nos tempos livres, aproveitava para ir descansar e refrescar-se nas diversas praias ou para dar passeios pelos locais mais pitorescos da região, ou para conversar, principalmente nas noites quentes e longas, em que havia menos o que fazer.
Morro (Cubal)

Marie, uma francesa loira, de doces olhos azuis, passou a ser a sua companhia mais frequente.

Barragem do Biopio

Falavam de tudo e de nada, riam-se das mesmas piadas, gostavam das mesmas coisas..
Ponte da Catumbela
Nas folgas passadas na praia, em visitas aos muitos locais interessantes ou aos monumentos históricos, a maioria deles herança do colonialismo português, viajando até às localidades mais próximas, ou mesmo fazendo pequenas incursões na selva, foram aprendendo a conhecer-se, tornaram-se amigos e, pouco depois, amantes.


Quedas de água do Casseque

João sentia-se feliz e não parecia dar pelo tempo passar, ainda que a maior parte das vezes estivesse rodeado  pela doença, pela morte, pela pobreza e pelas condições de vida degradantes de muitos dos que recorriam àquela ONG e, mesmo, de grande parte dos habitantes daquela região.


Rio Catumbela

Finalmente, descobrira algo em que gostava de trabalhar, que o fazia sentir-se bem e gratificado.





Praia Morena
Por outro lado, Marie parecia ser exatamente aquilo que sempre procurara numa mulher, contribuindo para que se sentisse em paz e para que a sua mente descansasse, um pouco, do seu, habitualmente, quase frenético pensamento.


Unidade hoteleira do Lobito
Ao longo da sua vida, tivera várias namoradas e, durante estes anos de Viajante, envolvera-se afetivamente com várias mulheres, mas nenhuma, até agora, o fizera sentir assim. Tão apaixonado, tão sereno, tão enraizado.


Acácia Rubra

Estava sentado, à espera que a Marie viesse ter com ele, à sombra da grande Acácia Rubra, local em que ambos gostavam muito de conversar, ou, em silêncio, observarem o mundo africano e perderem-se nos seus pensamentos, quando decidiu ligar o telemóvel e este, ato contínuo, começou a tocar, assustando-o e quase fazendo com que pregasse um salto.

João rebelara-se, durante muito tempo, contra utilizar um telemóvel, mas, nos últimos anos, optara por comprar um, o qual ligava apenas alguns minutos por dia, quer por que, muitas vezes, não era fácil carregar a bateria, quer por que em muitas zonas não havia sinal, quer ainda por que não estava disposto a transformar aquele objeto numa dependência, mas, os seus pais estavam cada vez mais velhos e preocupava-o que pudesse acontecer alguma coisa e não o conseguissem avisar. Para além de que estes se sentiam muito mais descansados, desde que passaram a ter a garantia de que, sempre que quisessem, poderiam falar com o filho.

João atendeu, o seu rosto perdeu a cor. Foi com dificuldade que conseguiu falar. Depois, encolhendo-se, deixou os braços escorregarem num gesto de impotência e começou a soluçar.
Marie chegou nessa altura. Compreendendo que algo de muito grave se passava, sentou-se ao seu lado, em silêncio, aguardando que João se acalmasse, para lhe explicar o que se passava.
Pela primeira vez, desde que, há mais de dez anos atrás, iniciara a sua grande aventura, João ia viajar de avião. O pai adoecera subitamente e os médicos não lhe tinham dado qualquer esperança de recuperação.
Despediu-se dos amigos, de coração apertado. Abraçou Marie, durante muito tempo, com os olhos marejados de água.
Marie tinha-lhe dito que ia com ele, mas João recusou. Não se sabia por quanto tempo se iria prolongar a situação do pai e ela estava quase a terminar o voluntariado, em Angola, pelo que não era uma boa altura para partir, pois havia muitos trabalhos a ultimar, muitas decisões a tomar.
Mais uma vez, pôs a mochila às costas e, sorrindo, disse adeus aos seus mais recentes amigos, que o viam partir com alguma tristeza e incompreensão.


Aeroporto internacional de Catumbela

Continua

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