Saúde; Hospitais; Competência / Incompetência; Humanidade / Desumanidade

HOSPITAIS PORTUGUESES E A INVISIBILIDADE HUMANA

segunda-feira, fevereiro 03, 2014Teresa Varela


Este fim-de-semana, por que não tinha nada combinado, tinha projetado acabar o conto "O Viajante", o qual já se encontra todo escrito na minha cabeça. Mas, o homem põe e Deus dispõe. 

A meio da tarde de sexta-feira, o meu "Anjo da Guarda" (a minha porteira, mulher a dias e, acima de tudo, minha Amiga,  há mais de 30 anos) telefonou de minha casa, a dizer que o meu filho estava cheio de dores e não parava de vomitar, pelo que ela estava a ficar assustada.

Sai mais cedo do trabalho e fui a correr para casa.  Se a minha Lena me tinha ligado era por que a coisa estava preta.

Chegada a casa, deparei-me com o meu filho a contorcer-se de dores, no lado superior esquerdo do abdómen, e a vomitar continuamente.

Decidi chamar o 112, até porque com a altura que ele tem,1,92m, seria imprudente levá-lo de carro, pois seria impossível segurá-lo, se acaso ele desmaiasse. 

Quase imediatamente, chegou a ambulância, dos Bombeiros de Moscavide e Portela , a quem muito agradeço a rapidez, competência e simpatia,
Estes fizeram a despistagem normal e mediram-lhe a tensão arterial, pelo que, de imediato, concluíram que era urgente levá-lo para o hospital.

Já na ambulância, fui conversando com um dos Bombeiros. O meu filho tem 22 anos e estava com dores violentas no abdómen, a vomitar continuamente e tinha 17 de tensão máxima. Pus diversas hipóteses, uma intoxicação alimentar, um vírus, uma rotura de tecidos, por esforço no ginásio, ou, ainda que a dor fosse no lado contrário, uma apendicite aguda, pois, por vezes, as dores são reflexas e, portanto, podem ser sentidas do lado contrário ao do apêndice.

Mas, para já, a minha maior preocupação era com o valor elevado da tensão arterial.
Hospital de São José
 O meu filho entrou de cadeira de rodas na urgência do Hospital de São José, pelas 18h00, de sexta-feira, os Bombeiros levaram-no até à triagem, enquanto eu aguardava que me dessem autorização para entrar.
Qual não foi o meu espanto, ao entrar no bloco das urgências, quando constatei que, na triagem, tinham colocado uma pulseira verde no meu filho. O que queria dizer que tinham considerado a condição dele de pouca urgência e, portanto, levaria horas até que fosse atendido por um médico.
Dirigi-me a uma das enfermeiras, que se encontrava na sala de urgências, questionando-a relativamente à triagem que tinha sido feita, pois a tensão arterial do meu filho estava elevadíssima, o que constitui um risco sério para qualquer pessoa, mas que aumenta exponencialmente a gravidade no caso de jovens, pois se se der uma paragem cardíaca, ou um AVC, ou algo similar, o impacto súbito da falência ou mau funcionamento de um órgão vital, num jovem, tem consequências muito mais graves, pela violência da falha num órgão jovem.
A enfermeira disse-me que nada podia fazer, porque a pulseira dele era verde e esse assunto era da responsabilidade da enfermeira que tinha feito a triagem. Ainda lhe comecei a perguntar, se, então, faria alguma coisa se o meu filho tivesse um ataque cardíaco, ou se primeiro lhe mudava a pulseira para uma vermelha, mas desisti e fui falar com a enfermeira da triagem. Esta disse-me que se eu considerava que a triagem tinha sido mal feita, devia dirigir-me  a um dos médicos, que se encontravam nos gabinetes 1, 2 e 3.
Assim fiz. Bati à porta do gabinete nº 3 e entrei.  Estava lá um médico, ainda relativamente novo, a quem pedi desculpa pelo incómodo, mas que pensava ter havido um engano na triagem, pelo que lhe pedia que fosse verificar a tensão arterial do meu filho. Ele perguntou-me o nome do meu filho, olhou-me com um ar vago e disse-me:" Está bem."
A urgência estava cheia de gente, mas, também havia muitos médicos. A maior parte dos doentes que lá se encontravam,  pareciam estar relativamente controlados e já medicados.
Aguardei uma boa meia hora e o médico nada de aparecer, pelo que pedi a um dos enfermeiros, que por ali estava, para medir a tensão ao meu filho. Desta vez, tinha uma máxima de 16. Assim, voltei à zona dos gabinetes dos médicos e dirigi-me a um outro. Estava lá uma médica, novinha e muito simpática, que disse compreender a minha situação e que, quase a medo e pedindo-me para não dizer a ninguém, veio ver o meu filho e medir-lhe a tensão. Estranhamente, o meu filho tinha 13 de máxima, passados dez minutos da anterior medição. Não fiquei muito convencida. 
Em casa, os Bombeiros, por terem achado a tensão demasiado elevada, verificaram segunda vez, de ambas as vezes 17 foi o resultado, para a tensão máxima. Quando, pouco antes, o enfermeiro lhe medira a tensão, pude confirmar, no monitor do grande aparelho, que o valor desta era de 16 e agora, sem mais nem para quê, passara para 13.
Esperámos horas sem que lhe dessem nenhuma espécie de medicamentos para as dores, para os vómitos, ou para a tensão. O ambiente era pesado, não tanto pelos muitos doentes que se encontravam nas urgências, mas, principalmente, pela atitude desagradável e, mesmo, muitas vezes, agressiva que algumas auxiliares e enfermeiras manifestavam para com os familiares dos doentes.
Note-se que, por vezes, acontece que os familiares são desagradáveis com o pessoal das urgências e, como um enfermeiro teve ocasião de me acusar, "acham sempre que os casos dos seus familiares são mais urgentes do que os outros".  Mas, tanto quanto pude observar, nenhum dos familiares presentes era especialmente incomodativo, ou agressivo, nem ninguém estava a tentar que fosse dada mais atenção ao seu familiar doente, do que aos restantes. Toda a gente tinha um comportamento normal, ainda que preocupado, falando com educação e sem exigências especiais, para todo o pessoal que estava de serviço.
Considerei o caso do meu filho urgente, não pelas dores ou vómitos que tinha, mas sim pelo descontrolo da tensão arterial, caso contrário teria aguardado pacientemente que chegasse a sua vez.
Enquanto aguardava, eu e todos os familiares fomos, por diversas vezes, "expulsos" daquela sala de urgências, a maioria das vezes, de forma deveras desagradável, como se antes de nos pedirem para sair, já devêssemos saber que tínhamos que sair. 
As razões para as "expulsões", ao longo das oito horas e meia que lá passamos, foram diversas, mudanças de fraldas, lavagem de chão, mudança de turno, mais mudança de fraldas, excesso de doentes na sala. Tudo coisas deveras compreensíveis.  A única coisa que não era compreensível, era que enfermeiros e auxiliares se dirigissem a nós, familiares, como os tivéssemos ofendido, ou que a nossa presença fosse, de alguma forma, uma coisa imprópria, desadequada, ou, mesmo, infame.
Durante esses períodos longos em que nos encontrávamos a aguardar no corredor, acabámos por entabular conversa uns com os outros.  Cada um falando das suas angústias, do tratamento indiferente dispensado aos doentes e familiares e da forma desagradável como estávamos a ser tratados.
Falei-lhes da minha situação, dizendo que compreendia que houvesse doentes prioritários.  Afinal, se entramos no hospital com uma perna, ou braço, partidos, estes não se partem mais se tivermos que esperar horas para ser atendidos, mas, se entramos com 17 ou 20 de tensão arterial, pudemos ter um ataque cardíaco, um AVC, morte súbita, entre outras coisas.
Refiro, agora, alguns do casos que me foram relatados, enquanto aguardava. 
Ao meu lado, estava uma rapariga, ainda nova, que tinha trazido a mãe de urgência para o hospital, pois esta tinha desmaiado e dado entrada ali com 17 de tensão e 190 de batimentos cardíacos, já lá estava há mais de uma hora e ainda não tinha sido vista, por nenhum médico, apenas lhe deram algo para baixar os batimentos cardíacos.
Uma senhora, mais ou menos, da minha idade, estava com o marido, o qual tinha sido diagnosticado, há algum tempo, como tendo cancro da medula óssea  e que, naquele dia, havia caído, queixando-se agora de uma forte dor nas costas e ao nível das costelas. O cancro da medula óssea enfraquece os ossos, podendo estes fraturar-se ao mínimo esforço e, como qualquer cancro, não tem ainda um prognóstico muito bom. Mas, essa não parece ser uma boa razão para, pelo menos, através de uma simples radiografia, não verificarem se, efetivamente, o doente tem, ou não, uma fratura, coisa que não fizeram e acabaram por mandar o doente embora, sem qualquer tipo de medicação ou diagnóstico.

A última, e talvez mais absurda, situação que vos vou descrever, faz-nos ficar sem palavras. 
Com um ar triste, necessitando de apoio, dirigiu-se àquele grupo de familiares, no qual me encontrava incluída, uma senhora, um pouco mais velha do que eu. Então contou-nos uma história paradoxal.
Há alguns anos atrás, a filha tinha tido uma Meningoencefalite, a qual lhe deixara algumas sequelas, das quais estavam tentando que recuperasse. Entretanto, há coisa de um mês, a filha tinha voltado a sentir-se mal, pelo que entraram de urgência, naquele mesmo Hospital. Após realizarem uma TAC e uma Ressonância Magnética, o médico de serviço, que a atendeu, dirigiu-se à mãe da doente e disse-lhe, mesmo ali, à porta das urgências, junto ao corredor, de chofre e sem qualquer tipo de contemplações "A sua filha tem um tumor na cabeça".
Meio atordoada, a senhora procurou adaptar-se à situação. Dali foram encaminhadas para o Hospital dos Capuchos, para que fosse realizada uma biópsia, a fim de identificar o tipo de tumor.
Após a biopsia, a senhora foi falar com o médico e este informou-a de que a filha teria alta dentro de um ou dois dias. Ao que a senhora contrapôs, estupefacta, mas como, no estado em que ela se encontra?"
Então, o médico, confirmando a alta, informou-a de que a filha tinha apenas uma pequena infeção no cérebro, pelo que não havia motivo para a manter no Hospital. Ao que ela, estarrecida, inquiriu " Uma pequena infeção? Mas, mandaram-nos para aqui por que a minha filha tem um tumor na cabeça!!".
O médico respondeu, prontamente: " A sua filha tem uma pequena infeção na cabeça, mas se a senhora preferir um tumor, também se arranja".
A filha teve alta e nesta sexta-feira, lá estava de novo na urgência, porque os dedos da mão direita começaram a contorcer-se e deixaram de obedecer à vontade da doente.
Provavelmente, nunca ficarei a saber o que irá acontecer a esta rapariga, mas sei que esta forma de tratar os doentes e os seus familiares é totalmente desumana e desadequada.
Perto da meia-noite, finalmente, um médico viu o meu filho. Eu, já antes tinha falado com ele, expondo-lhe a situação, e ele dissera-me que, logo que lhe fosse possível, iria vê-lo. Este médico entrara há pouco, no novo turno, e ouviu-me pacientemente, parecendo compreender a situação, ou, pelo menos, tentando amenizá-la.
Voltei a encontrar o primeiro médico, a quem tinha pedido para ir ver o meu filho, e, prontamente dirigi-lhe a palavra, dizendo-lhe, sarcasticamente: " Senhor Doutor, quero agradecer-lhe, pela atenção que teve com o meu filho".  Ao que ele respondeu, sem olhar para mim "Mas, o meu colega, já falou consigo, não falou?" Retorqui-lhe "Sim, Senhor Doutor,  falou, por isso mesmo lhe venho agradecer a si, para que não se esqueça da minha cara (espero que não!!!). E, pode estar certo, ainda lhe irei agradecer muito mais.
Entretanto, o meu marido  tinha vindo ao Hospital, para ver como as coisas estavam. Colocou o meu autocolante, de acompanhante, no peito e foi ver o meu filho. Viu no corredor várias pessoas, mas, como quando chegou perto da porta da sala de urgência, esta se abriu automaticamente, ele entrou e foi até ao pé do meu filho, para saber como estava. Imediatamente, a voz, alta e desagradável, de uma auxiliar se fez ouvir do fundo da sala, num tom de violenta censura " Senhor familiar, faça favor de sair, já tinham sido avisados de que não podiam estar aqui.", Pelo que o meu marido saiu, sem lhe dar resposta, embora profundamente irritado.  Ele acabara de entrar, não podia saber que não o deveria ter feito.
Perto das duas da manhã, já o meu filho se tinha levantado da cama e encontrava-se a aguardar, sentado numa cadeira, para ver se  a água e as bolachas que tinha comido se aguentavam no estômago, e para medir a tensão, novamente, a fim de lhe darem alta, quando a voz de um doente, que se encontrava também sentado e a receber soro, se fez ouvir para pedir a uma das enfermeiras para ver o que se passava, pois o soro não estava a correr.
A enfermeira, a uma distância de cerca de 10m, respondeu, com brutalidade, "Não corre, não corre, por que tem a mão torcida, se tiver a mão direita, começa a correr". E, não se deu ao trabalho de ir verificar se, eventualmente, a IV se encontrava entupida, ou se de facto era o doente que tinha a mão em má posição.  Note-se que quem nunca esteve com uma IV na mão, não faz ideia nenhuma qual a posição adequada para ter a mão.
Era demais, não me contive, e disse "Eh, cavalgaduras, deviam estar a tratar de bestas, ferradas das quatro patas, já que não gostam da profissão que exercem."
Estranhamente, ninguém me respondeu e, pouco depois, quando saímos dali, as enfermeiras, sorridentes, despediram-se de mim e do meu filho, desejando as melhoras.
Pergunto-me, será que gostam de ser tratadas da mesma forma que nos tratam a nós? 
Felizmente que a doença do meu filho foi apenas uma virose, ainda que violenta, da qual já se encontra quase completamente recuperado. Mas, a atitude. de grande parte, destes pretensos profissionais de saúde é, de facto, inenarrável. Não nos veem, olham através de nós como se fossemos invisíveis. Já com alguns auxiliares acontece um fenómeno caricato. Elas(es) estão no fim da linha. Isto é, toda a gente, médicos e enfermeiros, manda neles, assim, aproveitando o facto de que quando estamos no hospital, por que nos encontramos doentes, ou por que temos alguém doente, nos encontrarmos fragilizados e fora do nosso ambiente, decidem mandar em nós e tratar-nos mal, pois  é a única forma, de, finalmente, se sentirem importantes. Que pobreza de espírito!!!!!!

Contudo, não quero deixar aqui a impressão de que não respeito ou admiro os profissionais de saúde que, de facto, merecem esse nome, ou mais do que isso, os que são profissionais, mas também voluntários, ou seja, exercem a sua profissão como uma missão, com competência, humanidade e humildade.
Sou uma defensora e admiradora do Serviço Nacional de Saúde, em tudo aquilo que ele tem de bom, e que é muito
Tenho, felizmente, muitos exemplos que vos posso deixar, pois, infelizmente, tive, ao longo da minha vida, que recorrer aos seus cuidados, muitas mais vezes do que aquilo que consideraria razoável, na maioria delas, não para mim, mas para familiares próximos e amigos.

Assim refiro, com Gratidão, Respeito e Admiração:


  • Os Profissionais de Saúde da Urgência do Hospital D. Estefânia.  Nem todos são simpáticos, mas, todos, enfermeiros e médicos, sem ter encontrado uma única exceção, respiram bom senso e competência. E, sempre que um médico da urgência tem dúvidas acerca do diagnóstico que fez, não tem qualquer hesitação em chamar um, ou mais, colegas, para ouvir a sua opinião.  Era assim quando os meus filhos eram pequenos e, confirmei com algumas jovens mães, na passada sexta-feira, continua a ser.



  • Muitos dos Profissionais de Saúde do Hospital de Santa Maria. Tive ocasião de constatar a Qualidade e Humanidade de alguns Serviços, deste imenso hospital que, à primeira vista, poderia pensar-se ser desumano.

  • A grande maioria dos Profissionais de Saúde do IPO de Lisboa, quer na vertente crianças, quer na vertente adultos, pois tive, infelizmente, ocasião de constatar a qualidade dos serviços e dos Profissionais de Saúde, em ambas as vertentes.
  •  

  • Os profissionais de saúde da Urgência do Hospital de Vila Real de Trás-os-Montes, onde, há alguns anos atrás, tive ocasião de dar entrada com o meu filho e onde fomos tratados com extraordinária competência, humanidade, disponibilidade e, até mesmo, carinho. Conforme já tive ocasião de referir, neste blog, numa outra crónica "Fim-de-semana Alucinante".



  • Que me perdoem os Profissionais de outros hospitais que, certamente, serão igualmente bons, mas que, por desconhecimento de como funcionam, não refiro aqui.

Termino, manifestando a minha total incompreensão e repugnância pelo funcionamento de alguns hospitais portugueses e seus profissionais de saúde. E, a forma incompetente, desumana, agressiva, como tratam os doentes e/ou os familiares destes. Olhando através de nós, como se fossemos invisíveis e eles pequenos deuses, dados a maus fígados.

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