Contos

O VIAJANTE - CAPÍTULO IV

terça-feira, fevereiro 04, 2014Teresa Varela

 



Me sinto em casa em qualquer lugar
Mas sou turista em todos
Sou viajante em qualquer lugar
Sou uma parte do todo


                                                    O Viajante - Forfun 



João chegou ao Aeroporto da Portela, às primeiras horas de uma manhã fria de Janeiro. A viagem fora apenas de algumas horas, mas a diferença de temperaturas, os cerca de seis anos de ausência do país, o afastamento de Marie e a doença do pai, faziam-no sentir, não como se tivesse mudado de país ou continente, mas, como se, repentinamente, estivesse num outro planeta, onde tudo lhe era estranho, difícil de entender, ou mesmo assustador.

Isabel, a irmã mais velha, esperava-o com o marido e os dois filhos. Abraçou-o emocionada. Afinal, ele nunca deixara de ser o menino. Era o benjamim da família, o bebé que tinha enchido a casa de alegria, numa altura já improvável, acabando por ser uma espécie de filho de três"mães", pois tinha uma diferença de 8 e 10 anos, respetivamente, das suas irmãs.
Dali, seguiram diretamente para o Hospital. A mãe e a Ana, a outra irmã, já se encontravam lá.
Ver a mãe foi um choque. Tinha envelhecido. As costas encurvadas, os cabelos pouco cuidados e o olhar perdido, afundado numas olheiras profundas, cinzentas e tristes.
Alguns minutos depois, chegou o marido de Ana, acompanhado dos quatro filhos.
João já nem se lembrava quando fora a última vez em que estivera assim com toda a família reunida
Depois das manifestações afetivas iniciais, das exclamações e das perguntas acerca das suas últimas aventuras, fez-se um grande silêncio.  Afinal, não estavam ali reunidos por causa do regresso do João, mas por que o patriarca da família se encontrava de partida.
A mãe levou-o até à porta do quarto, onde o pai se encontrava, e, dando-lhe uma palmadinha nas costas, deixou-se ficar para trás, pois não queria perturbar aquele momento de reencontro entre pai e filho.
O pai estava de olhos fechados, parecia dormir. Tinha uma cor macilenta e os ossos da cara furavam-lhe a pele. Estava muito magro.
João acercou-se da cama, silenciosamente, sem quase se dar conta de que os olhos se tinham enchido de lágrimas e que estas lhe escorriam, livremente, pelo rosto moreno, curtido pelo sol.

Afagou demoradamente a mão de seu pai que repousava sobre a colcha. O pai abriu os olhos e fitou-o, como se vindo de um mundo distante.
Um sorriso cansado, mas feliz, nasceu-lhe no rosto. A sua voz, enfraquecida e rouca, fez-se ouvir:
- Chegaste. Tinha a certeza de que virias. Eu não podia partir sem me despedir de ti.
João pigarreou, para aclarar a voz embargada. - Fui um mau filho. Deixei-os para aqui abandonados, todos estes anos. Não aproveitei  este tempo para estar junto dos pais, para os apoiar e construir memórias.
O pai pousou a mão sobre os seus lábios, silenciando-o.
- Não foste um mau filho. Confesso que nem sempre te entendi e, inicialmente, achei que era uma grande irresponsabilidade, da tua parte, ir por esse mundo fora, sem um objetivo definido, sem arranjares um trabalho de jeito, constituíres família ou valorizares-te profissionalmente. - disse o pai, compassadamente, interrompendo-se, amiudadamente, para ganhar forças para continuar.
- Mas, com o passar dos anos. Com as tuas longas cartas, em que nos transportavas para esses lugares belos, pobres e remotos do planeta, fui compreendendo.
Tu procuras o teu caminho. Dedicas-te a causas, fazes amigos e ajudas as pessoas, ao mesmo tempo que vais ganhando novos conhecimentos, mas sem te envolveres demasiado
 - Não se canse tanto a falar, pai. - disse João.
- Não te preocupes. Nada pode mudar a minha situação e é importante que te diga estas coisas, para que, por um lado, não te sintas culpado e, por outro, não desperdices a tua vida. Não me interrompas, pois ainda me cansas mais.
Tu não queres criar raízes, porque tens medo de perder as pessoas. 

Meu filho, não há como evitar perder as pessoas. Mas, se nunca te deixares envolver, em vez de perder as pessoas, vais perder é a oportunidade de amar, ser amado e ser feliz. Sei que ainda não estás preparado para te "arriscares".
Mas, pai, - interrompeu João - eu agora vim para ficar, o pai está doente e eu não vou deixar a mãe sozinha.



- Filho, acho bem que apoies a tua mãe, mas, eu e ela tivemos uma vida cheia. Além disso, as tuas irmãs vão estar sempre por aqui. E, tenho a certeza, ela também vai gostar de te ter por perto, mas só se isso significar que estás aqui por que te sentes bem e não a utilizá-la como desculpa para não enfrentares os teus medos e viveres a tua vida.
Nós sabemos que tu nos amas. Nunca tivemos dúvidas disso, por isso não quero que te sintas culpado  pelos anos que estiveste longe. As tuas cartas traziam-te até nós e podíamos sentir o quanto gostas de nós.
Filho, tens que ultrapassar a morte da Mariana e do David. Ela foi o teu grande amor. Ele o teu maior amigo. As suas mortes foram injustas, dolorosas e marcaram-te profundamente, mas tu não morreste. Estás vivo e tens que perder o medo de viver.
O pai calou-se. Estava exausto. O esforço fora demasiado grande. Mas, a sua expressão calma demonstrava que se sentia em paz. A vida dera-lhe tempo para ter uma última conversa com o filho.
Nos dias seguintes, a saúde do pai foi-se degradando rapidamente. Partiu, numa madrugada cinzenta, em paz e bem com a vida.
A casa dos pais estava quase sempre cheia de gente, para apoiar a mãe, as irmãs iam jantar lá a casa, todos os dias, com os maridos e filhos.

Quando, finalmente, todos se iam embora, João sentava-se ao lado da mãe e conversavam pela noite fora. Havia tanto para recordar, tanto para contar.
Numa dessas noite, a mãe falou-lhe da Mariana e do David. Tinha passado tantos anos sem falar neles  e agora, com poucos dias de diferença, era a segunda vez que lhe tocavam no assunto.
David tinha sido seu amigo desde o infantário. Eram unha com carne, Juntos viveram aventuras, estudaram, jogaram futebol, foram às primeiras discotecas, tiveram as primeiras
namoradas.
Mariana só aparecera nas suas vidas quando entraram para a Faculdade. Tornaram-se inseparáveis, sempre juntos, sempre com palhaçadas e brincadeiras.
Depois, ele e Mariana apaixonaram-se e a vida sorria-lhes. Combinaram ir fazer a passagem de ano ao Algarve, em casa de uns amigos.  João só podia ir mesmo no dia 31, porque estava a trabalhar e a Natália, a namorada do David, acontecia-lhe o mesmo. 
Dois dias antes, David levou Mariana e mais alguns amigos no seu carro. Iam à frente e aproveitavam para limpar a casa, onde ninguém tinha ido desde o verão, e ir às compras, mas nunca chegaram lá. Um brutal acidente, de uma vez só, levou-lhe as duas pessoas mais importantes da sua vida.
Até acabar o curso, João viveu como numa espécie de sonho. Tentava manter-se o mais ocupado possível, com trabalhos, estudo e atividades desportivas, para não pensar, para não sentir. Depois, decidiu partir. Sempre gostara de viajar, conhecer novas pessoas, novos hábitos, novas histórias, novas terras. Assim, ao mesmo tempo que fazia uma coisa de que gostava, ia em busca do que, desde o fatídico acidente, lhe faltava.
A mãe, tocou-lhe ao de leve no braço, despertando-o do seu devaneio:
- Meu filho, não te prendas por mim. Eu fico bem. Não é que não goste de te ter por aqui, mas não quero que deixes de fazer aquilo que gostas, para me ficares a fazer companhia. Eu estou bem e, como tens podido ver, as tuas irmãs não me dão muito descanso e não me deixam sozinha. Quero que me prometas que quer fiques, quer vás, estás a fazer aquilo que, de verdade, queres.
Mas, João não teve tempo de refletir, ou tomar uma decisão. Nessa mesma noite, a mãe partiu, inesperadamente, enquanto dormia.
Atordoado e profundamente triste, João consolava-se pensando que a vida de seus pais tinha sido um caso de amor. Tinham vivido uma vida juntos. Não estavam preparados para continuar sozinhos.
João ficou muito surpreendido quando as irmãs lhe disseram que agora a casa dos pais era dele. Na sua ausência, explicaram, os pais tinham conversado com elas, dizendo-lhes que era essa a sua vontade, pois assim o  irmão teria sempre uma casa para poder voltar e eles iam compensá-las de outra forma.
As irmãs tinham concordado e tudo tinha sido tratado. 
João ficou sem palavras. Eles tinham pensado em tudo. A ele restava-lhe dizer às irmãs para levarem lá de casa tudo quanto gostassem. Afinal, ele não deveria ir passar muito tempo por ali.
Depois de todos os assuntos legais estarem tratados, João informou as irmãs de que ia partir de novo. As duas manifestaram tristeza, mas não pareciam surpreendidas e ofereceram-se para ir olhando pela casa.
Após a morte da mãe, João decidira imediatamente que ia viajar para a América. 

A falta que sentia de Marie causava-lhe uma dor funda e contínua no peito,   mas decidiu que não lhe diria nada. Afinal, ele era um homem de vida errante. Não tinha nada para oferecer a uma mulher, nem segurança, nem estabilidade,  nem mesmo sabia se estava preparado para ter uma família. Por isso mesmo, desde que chegara a Portugal, nunca mais ligara o telemóvel. Assim, não saberia se ela tentara, ou não, comunicar com ele, o que lhe tornava as coisas mais fáceis.
Começaria pelo Sul. Pela Terra do Fogo e depois se veria.
Toda a família foi despedir-se ao Aeroporto. Abraçaram-se silenciosamente, depois de João lhes ter prometido que manteria o telemóvel ligado e que lhes escreveria, longas cartas, regularmente. Afinal, as suas cartas tinham sido, durante os últimos anos, o ponto alto dos almoços de domingo, em casa dos pais.

Terra do Fogo



Continua

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