Contos

O VIAJANTE - CAPÍTULO V

sábado, fevereiro 15, 2014Teresa Varela





Me sinto em casa em qualquer lugar
Mas sou turista em todos
Sou viajante em qualquer lugar
Sou uma parte do todo



                                                    O Viajante - Forfun 








João voou de Lisboa para Buenos Aires e dali para Ushuaia.


Chegou ao Fim do Mundo, Terra do Fogosobrevoando o Estreito de Magalhães. E, de imediato, vieram-lhe à memória as aulas de História, com o impagável professor Ribeiro que,
 
Estreito de Magalhães

ingloriamente, tentava manter a calma e dominar a sua voz estridente, enquanto se esforçava por explicar, a uma turma turbulenta e pouco interessada, como e porquê Fernão de Magalhães navegara por aqueles mares, ao serviço do Rei de Espanha, nos derradeiros três navios que lhe restavam, Trinidad, Concepción e Victoria, aquando da sua viagem de circum-navegação.


Trinidad, Concepción e Victoria
Era verão naquela parte do mundo. Um verão frio e diferente.


A luminosidade, daquela região do mundo, fascinava-o. A paisagem era única e envolvente e, embora a temperatura fosse bastante baixa, João sentia, pela primeira vez desde a morte de seus pais, o coração aquecido.
Terra do Fogo

Aquela terra, bela, selvagem e inóspita, quase completamente intocada pela mão humana, lembrou-lhe a sua passagem pelo Tibete e aqui, tal como lá, sentiu que o seu espírito ascendia para um lugar mais elevado. Convidando-o ao silêncio, à meditação e à reflexão.
 

Canal Beagle


Replicando as aventuras do naturalista Charles Darwin, a bordo do navio HMS Beagle, João percorreu a rota Ushuaia – Punta Arenas, através do Canal Beagle em direção ao mítico Cabo Horn, última fronteira antes da Antártica, desembarcando na Ilha Horn.
Ilha Horn

 
Continuou a expedição rumo à Baía Wulaia, local onde Darwin teve contato com a vegetação magalhânica e com os nativos canoeiros Yámanas, habitantes originais do lugar. Navegou para o Glaciar Aguila, onde foi surpreendido pelo  contraste entre a Cordilheira Darwin e a floresta magalhãnica, a mesma paisagem que maravilhou Charles Darwin.


Glaciar Aguila
 
Visitou lugares como a  Ilha Magdalena, onde pôde observar, os seus inefáveis habitantes,  milhares de pinguins magalhãnicos,
 
Ilha Magdalena

ou o Parque Nacional Torres del Paine.
 
Parque Nacional Torres del Paine
Conviveu com as gentes daquela parte do mundo. Em Porto Williams com os descendentes dos Yámana e, mais a norte, com os mestiços, descendentes dos  Selk´nam.

Sentia-se bem com eles. Os seus ancestrais haviam-lhes deixado um valioso legado, a capacidade de viver em sintonia com o Universo, em harmonia com o ritmo da natureza e, simultaneamente, a habilidade, a força e tenacidade para a vencer e usar para a sua sobrevivência.

Itinerário de João na América do sul



João despediu-se da Terra do Fogo, obrigando-se a partir. Era tempo de continuar a sua Viagem, mas levou dentro de si a mágoa de quem abandona um refúgio, um lugar sagrado ou um amigo querido. 
Seguiu junto aos Andes, vagueando entre o Chile e a Argentina. Enchendo o seu espírito de cores, cheiros, sensações...
Viu-se refletido nas água límpidas dos extraordinários Lagos Andinos. 

Caminhou pelos trilhos da imensa cordilheira
E, apaixonou-se pelas gentes,  índios e mestiços de índio com branco de origem espanhola, de sangue quente, pele morena e grandes sonhos.


Foi nos Andes que encontrou um velho e sábio Índio Pehuenche, com quem manteve longas conversas e longos silêncios. 

O Velho ensinou-o a silenciar o pensamento, a tornar-se parte integrante da natureza, a ouvir o sussurro do Grande Espírito e ir ao encontro dos seus animais de poder.

João percebia que dentro de si se davam grandes transformações, mas, a sua voz interior falava ainda em surdina e ele não a conseguia entender inteiramente.

Numa tarde luminosa e morna, encontravam-se sentados na encosta, em silêncio, olhando o grande lago de águas cristalinas.

Então, o Velho quebrou o silêncio e mantendo os olhos fixos num lugar distante disse - É tempo de partires. É tempo de regressares a Casa.

Sem transição, perguntou-lhe: - Porque foges do Destino? - e, sem aguardar resposta, continuou. - Por mais que fujas do Destino, ele nunca desistirá de te alcançar!!

Depois, remeteu-se ao silêncio. Imóvel, de olhos semicerrados, como se a sua mente se tivesse ausentado para um outro lugar.

João, por mais que tentasse, nunca mais lhe ouviu a voz, até ao momento em que, pondo a mochila às costas, se dirigiu ao Velho para se despedir. 

Este olhou-o longamente, pousou-lhe as mãos nos braços e, sorrindo vagamente, disse-lhe: - Vai, segue o teu Caminho, o Grande Espírito te acompanhará.




João dirigiu-se para a região das Pampas, de paisagem e costumes tão diferentes daquelas que deixara para trás,  e lá conviveu, cantou, trabalhou com os  Gaúchos, fazendo deles seus amigos. 

Precisava juntar algum dinheiro para continuar a viagem, ainda que, desde o falecimento dos pais, tivesse mais desafogo financeiro, pois estes tinham conseguido juntar, ao longo da vida, uma razoável quantia, muito mais do que ele poderia ter alguma vez imaginado, a qual havia dividido com as irmãs, em partes iguais.

Mas, era importante não esbanjar. O ideal seria tentar repor aquilo que já havia gasto, com as viagens de avião e de barco. Afinal, aquele dinheiro como que não lhe pertencia e, se alguma utilização deveria dar-lhe, seria melhor que o fizesse numa altura em que não conseguisse arranjar trabalho. 

As Pampas eram belas e férteis, repletas de vida e cor, mas João sentia, agora, uma urgência inusitada de partir, como se fosse muito importante dirigir-se a algum local. Ainda que ele não tivesse ideia nenhuma de que lugar serie esse, nem por que razão deveria lá ir.
Logo que lhe foi possível, João caminhou para sudoeste, em direção ao Uruguai, fez a travessia do rio homónimo, cruzando a fronteira natural existente entre este país e a Argentina.
Rio Uruguai
Durante os seus, já longos, anos como viajante, João habituara-se a conviver tanto com a riqueza, o fausto e a cultura, como com a pobreza e as profundas desigualdades sociais existentes por esse mundo fora.
“Rambla de Montevideo”
O Uruguai, um dos países mais pequenos da América do Sul, que, ainda não há muitos anos, regressara à democracia, sofria agora um processo de desenvolvimento e melhoria das condições sociais, o que surpreendeu João agradavelmente.



Praia Brava, em Punta del Este
João deambulou um pouco por este país, trabalhando aqui e acolá, admirando as paisagens e monumentos, tomando contacto com os costumes das gentes e o seu modo peculiar de falar o castelhano, ou apreciando alguns dos seus eventos festivos tradicionais.
Então, partiu de novo. Por mais  agradável que fosse estar ali, João continuava a sentir uma necessidade imperiosa de se mover, de ir para outro lugar.
Regressou à Argentina e seguiu em direção ao Paraguai, pelas margens do rio Paraná.


Rio Paraná
João sentia-se maravilhado com a vegetação, a paisagem, a cozinha tradicional. 
Chegado ao Paraguai, aquele  que é a "casa" de grande parte dos  Guaranis e seus descendentes, a maioria mestiços, interessou-se pelos costumes locais e aprendeu uma nova língua, o guarani, a outra língua oficial do país, além do castelhano, a qual se veio juntar à enorme quantidade línguas e dialetos que já aprendera a falar.  O que, de vez em quando, o punha confuso, fazendo com que tivesse dificuldade em fazer-se entender de imediato.
Às vezes, dava por si pensado noutras línguas, que não a sua língua materna, principalmente, quanto refletia sobre sentimentos e ideias abstratas, pois em cada cultura existem palavras que têm significados mais abrangentes e que expressam melhor certas ideias.
Lago Ypacaraí

Visitou praias em lagos e à beira-rio, ou ruínas e monumentos que falavam de um passado repleto de história, lutas e conquistas.
 
Ruínas de Jesus
O Paraguai sofria uma certa instabilidade política e social, tornando-se menos agradável permanecer por ali, o que, aliado à contínua ansiedade que João sentia em continuar a caminhar, para um qualquer lugar incerto, fez com que seguisse mais cedo, do que inicialmente programado, para a Bolívia.  
BOLÍVIA - AMAZÓNIA

A Bolívia, o país mais alto e mais isolado, situado no coração da América do Sul, esse mundo de contrastes, mistérios, tesouros arqueológicos e paisagens, tão díspares quanto os Andes e a selva Amazónica, revelou-se pobre, mas apaixonante, na sua multiculturalidade e orgulho do seu passado, nos valores e crenças ancestrais impondo-se aos novos tempos, nos diferentes idiomas falados nas ruas, o aymara, o quéchua, o guarani e o espanhol.

João sentia-se maravilhado e quando se deparou com o lago Titicaca, esse lendário berço dos Incas, a 3.809 metros de altitude, sentiu que havia chegado ao ponto mais alto da sua viagem, como se este fosse o mais belo e extraordinário templo do Mundo, onde ele, finalmente, se reencontrava com Deus. Não o Deus dos cristãos, não o Alá dos Muçulmanos, não o Grande Espírito dos Índios, mas, todos eles e apenas Um, um Deus uno e único que se revelava através de todas as coisas do mundo, naquele lugar incomparável.
João sentiu que estava "pronto". Era hora de voltar a "Casa". ainda que não soubesse, ainda, o que essa "Casa" significava.
Lago Titicaca
João deixou a Bolívia, dirigindo-se agora para o Brasil. Sentia-se  como se estivesse vivendo dentro de um sonho e os seus olhos transbordavam de cores e sensações a cada nova paisagem.
Rio Guaporé - Fronteira - Rondônia
João chegou ao Brasil, fazendo a travessia do rio Mamoré. Depois, com uma rapidez inusitada, atravessou quatro unidades federativas desse país gigante, Rondônia, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, desaproveitando muito do encanto que estas lhe poderiam ter proporcionado. 
Barco que faz a travessia do Rio Mamoré . Fronteira natural entre Brasil e Bolívia
Mas, ainda que a sua pressa fosse tão imensa, como, aparentemente, injustificada, foi-lhe impossível não se deter e encantar com muitas das maravilhas, paisagísticas, históricas, culturais e até gastronómicas que estas tinham para lhe oferecer.
Cemitério das Locomotivas localizada no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Foto: Luis Olarte - Ministério do Turismo


Interior da Catedral do Sagrado Coração de Jesus. Foto: Luís Olarte - Ministério do Turismo

Ao chegar ao Brasil, João teve a estranha sensação de ter chegado à sua Pátria. Ali falava-se a sua língua mãe. Mais doce, mais cantada, mais alegre, com diferentes sotaques e, por vezes, difícil de entender, mas a origem era a mesma e as palavras eram exatamente iguais às primeiras que aprendera.
Caldeirada de Tambaqui, prato típico da culinária regional de Porto Velho. Foto: Luís Olarte - Ministério do Turismo

João despediu-se da Rondônia e da sua população, uma das mais diversificadas do Brasil, onde ainda se perseveravam os fortes traços amazónicos da população nativa. 
Campo Novo
Mato Grosso, desde sempre achara graça  ao nome daquele estado, não sabia bem porquê. Havia tanto para conhecer, para ver, para se deleitar, mas a ansiedade de partir, para chegar a um onde incerto, não lhe permitia que se demorasse em lugar algum, mais do que o absolutamente necessário. Mesmo assim, ia guardando, como um bem precioso, no seu coração e nas suas memórias, todas as paisagens,  monumentos, animais e gentes, com quem se cruzava, ou por onde ia ficando.

Cuiabá - Mato Grosso

Pantanal










João sentia-se dividido, queria ficar, conhecer, ver, misturar-se com as gentes, mas o seu coração batia veloz e obrigou-o, mais uma vez, a partir. 
Destino Goiás. Goiás da vegetação do cerrado, da fauna riquíssima, das baías hidrográficas, dos lagos e das lagoas, das grutas das curiosidades arquitetónicas..



Salto São Domingos - Piranhas - Goiás


Coreto
Igreja de Nossa Senhora da Aparecida





Era, novamente, chegado o momento de partir, Um frenesim louco tomava-lhe conta do coração, do pensamento,...
De vez em quando, o rosto de Marie aparecia-lhe em sonhos. Os seus doces olhos azuis fixavam-nos com tristeza e mágoa, mas sem censura. Acordava alagado em suor e logo afastava o pensamento. Havia perdido Marie, afastara-se dela e há cerca de um ano que nada sabia dela, nem tentara contactá-la.
Minas Gerais acidentada, com alguns dos picos mais altos do país, nascente de alguns dos principais rios do Brasil, de clima tropical,  rica fauna e flora, distribuídas nos biomas que cobrem o estado, especialmente o cerrado e a ameaçada Mata Atlântica., recebeu-o  festiva e engalanada.


O clima festivo causou-lhe alguma melancolia e saudades dos pais, das irmãs e de todos. 
Nada  o obrigava a viajar continuamente.  Podia voltar a casa, logo que quisesse, mas sentia que tinha que continuar, Sentia que era urgente chegar. Chegar onde? Não sabia.

Hotéis e Resorts

Ouro Preto
Locomotiva Tiradentes

As gentes, as cores, os cheiros, os sabores, a fauna e a flora envolviam-no, tocavam-no, mas partir, seguir em frente, era, mais do que uma urgência, uma necessidade incontrolável..


João chegou, ao Rio de Janeiro, cansado, triste, confuso e meio perdido. Esta cidade era uma metrópole imensa, cheia de contrastes, de miséria e de riqueza, de crime e de carnaval. Não era, de facto, o lugar em que mais gostaria de se encontrar, depois de uma viagem de quase um ano, por ilhas, montanhas, desertos, florestas e rios.
Mas, por qualquer razão, sentia que tinha que estar ali. 

Por mais incómodo  ou, quem sabe, tristemente simbólico, que fosse olhar a Favela, ali, sob os olhos tristes do  Cristo do Corcovado

João caminhava pelo Calçadão, de mochila às costas, meio atordoado, cheio de calor, sem saber para onde ir ou que fazer. Os pensamentos atropelavam-se e sentia-se quase agoniado. 
Olhava, quase sem ver, o mar azul, a areia morna, as gentes morenas, alegres, vestidas de cores garridas.
Pela primeira, desde que iniciara, a sua grande Caminhada, há mais de onze anos atrás, João sentia o peso da solidão. Nunca, como agora, no meio de tanta gente, de tanta vida, de tanta confusão, se sentira tão sozinho.
Afinal, se aquele era o destino, para onde correra incansavelmente, era um triste e deprimente destino.
Perdido, confuso e triste João caminhava sem parar.
Calçadão de Copacabana
Foi então que reparou numa figura que, em contraluz, caminhava na sua direção. 
Reconheceu o seu andar, leve e gracioso, o seu porte, seguro e ágil.
Por momentos, julgou que os olhos cansados, do sol inclemente, lhe estavam a pregar uma partida.
Julgou que a sua solidão e tristeza lhe estivessem a causar ilusões óticas.
Parou, olhou fixamente, quase esfregou os olhos, o vulto que caminhava na sua direção.
Talvez pela insistência e intensidade do seu olhar, o vulto imobilizou-se.  
O seu coração começou a latejar desenfreadamente.
O vulto moveu-se, saindo da zona de sombra, e os olhos mais azuis e mais doces, que alguma vez havia visto, fitaram-no incrédulos, marejando-se de lágrimas.
Caminharam um para o outro, como num qualquer filme romântico, de terceira categoria... Mas, tal como as cartas, como dizia Fernando Pessoa, o Amor é ridículo, mas mais ridículos são aqueles que nunca amaram, com medo de serem ridículos.
Já muito próximos, olharam-se profundamente. Abraçaram-se, estremecendo, soluçando de mansinho, esquecidos do mundo, da morte, da vida do sofrimento ou do riso. O mundo à sua volta, por largos momentos, cessou de existir. Eram só eles, no seu imenso e imortal abraço.

Continua

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