Verticalidade; Família

NA VERTICAL

domingo, março 30, 2014Teresa Varela

Carlos Simões
Hoje, que por diversas razões não me encontro num dos meus melhores dias, quando estava nas compras, no supermercado, encontrei uma amiga que já não via há algum tempo e quando ela me perguntou como é que eu estava, só me ocorreu responder-lhe: "Na vertical".
Esta era a expressão com que o meu Sogro, Pai do meu segundo e atual marido, habitualmente respondia, quando lhe faziam essa mesma pergunta.
Conheci o meu Sogro já no Outono da sua vida, mas o nosso relacionamento foi, desde início, extraordinariamente gratificante.
Ele aceitou-me na família, daquela forma simples e descomplicada que lhe era tão peculiar.
Aceitou-me simplesmente porque o filho me tinha escolhido  para partilhar a vida com ele e essa era razão suficiente para ser, na verdadeira aceção da palavra, mais um membro da família, com "direito" a um lugar no seu coração.
Tive sempre alguma pena de não o ter conhecido quando era mais novo. No entanto, nem mesmo a sua velhice impediu que, ainda hoje, me sinta profundamente grata por ter partilhado tantos e bons momentos com ele e por, nos últimos anos, me ter "promovido" a sua sexta filha, como tantas vezes dizia, quando se referia a mim.
O meu Sogro era de facto um homem extraordinário. Saiu, com onze anos, de casa dos Pais, como a tantos acontecia nas primeiras décadas do século XX, para vir trabalhar para Lisboa, como "menino do  elevador", no Hospital da Ordem Terceira, local onde também vivia.
Poucos anos mais tarde, decidiu continuar os estudos, tendo concluído com sucesso o Curso Comercial, o que fez com que progredisse e mudasse de atividade profissional
Apaixonou-se por uma enfermeira de nome Elvira e esta tornar-se-ia na sua companheira de uma vida e na Mãe dos seus cinco filhos.
Carlos Simões, o meu muito lembrado Sogro, conseguiu, em conjunto com a mulher, dar uma vida de qualidade a toda a família e foi um exemplo de dedicação, trabalho, organização e verticalidade.
Os seus pequenos prazeres, fumar um cigarro, ou beber um whisky, foram, durante muitos anos, apenas reservados para os seus dias de férias, pois, no resto do ano, era necessário ser comedido, havia uma grande família para alimentar, vestir e educar.
Tive ocasião de vislumbrar parte dessa forma de estar na vida, quando, há poucos anos,  se tornou necessário que fosse para um Lar, em virtude de uma doença que o debilitou bastante, tornando-se arriscado que continuasse a viver sozinho na sua casa.
Assim, foi  juntar-se à minha Sogra, a qual se encontrava num Lar, há vários anos, por padecer da doença de Alzheimer:
Não esteve lá muito tempo, pois, pouco depois, foram para um outro Lar, onde a minha Sogra viria a falecer, e intencionalmente e por incúria, lhe provocaram uma overdose de benzodiazepinas, a qual o conduziu perto da morte e fez com que, durante alguns meses, ficasse muito confuso e diminuído física e intelectualmente, completamente dependente dos cuidados alheios.
O meu Sogro saiu do Hospital diretamente para um outro Lar, de grande qualidade, onde eu o visitava todos os dias. Inicialmente ia mesmo à hora de almoço, pois ele perdera até a capacidade de se alimentar sozinho. 

Foi durante esse longo período de recuperação, que fiz uma viagem no tempo, ao seu lado.  Ele recuara no tempo, via-se a si próprio como se fosse 30 ou 40 anos mais novo, estivesse a trabalhar e tivesse uma família para sustentar e cuidar, embora apenas mencionasse os três filhos mais velhos, pois, na época para que recuara, ainda não tinham nascido as duas filhas mais novas

Em mim via uma amiga da família, com quem conversava acerca das suas preocupações e afazeres e foi muito através dessas conversas que me foi dado conhecer o grande homem que ele fora.

Felizmente, a sua recuperação foi total, ainda que o peso da idade se fosse fazendo sentir.

Quase até à sua morte, em 2011, mantivemos o ritual do jantar, das terças-feiras, em nossa casa e do fim-de-semana, de cinco em cinco semanas, que passava connosco. Estes rituais tinham sido estabelecidos pelos filhos, alguns anos atrás, para que o Pai tivesse a companhia de um dos filhos, em todos os dias da semana e, também ao fim-de-semana. 
O meu Sogro era extremamente organizado, cuidadoso, afetuoso e educado. Não era homem de gargalhadas, mas tinha sentido de humor e sorria muito. A família sempre foi a sua primeira prioridade, mas o seu trabalho era para ele algo de importante e de que guardava gratas recordações.
Algumas delas tornaram-se  no seu ex-libris e eram motivo de risos na família, pelas muitas e repetidas vezes que contava, a quem o quisesse ouvir, as suas histórias verídicas, "A história dos kiwis", foi o primeiro importador de kiwis em Portugal,  "A história das maçãs bravo de esmolfe" e "A história dos morangueiros".
Penso que, nos seus últimos anos de vida, uma das coisas que mais prezava era o facto de poder andar pelos seus próprios pés e não necessitar que cuidassem dele nas coisas essenciais.
Daí que respondesse "Na vertical", a quem lhe perguntasse como estava.
Felizmente, manteve-se, literalmente, na vertical até praticamente à sua morte, pois caminhava sem qualquer tipo de ajuda. Mas, para além disso e acima de tudo, foi sempre um homem vertical.
Tenho pena de que o meu Sogro e o meu Pai não se tivessem conhecido. Ambos amavam a terra, as árvores e as plantas. Ambos foram homens que puseram a família em primeiro lugar. E ambos foram homens profunda e intrinsecamente verticais.
Espero que, no lugar em que se encontram agora, conversem bastante e nos observem com amor e benevolência.
Tenho a esperança de me manter na vertical, até ao fim dos meus dias. Mas, acima de tudo, espero ser sempre uma mulher vertical, honrando assim a extraordinária herança que estes dois homens me deixaram.





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1 comentários

  1. Que história e homenagem linda Tê! Meu sogro tb era especial...aliás,ambos. Nenhuma piada de sogra se encaixa...graças a D'us! Hoje consegui entrar aqui sem problemas minha amada....então to feliz!!!!! Vai entender esse bloguer?!
    Beijuuss e uma semana de paz para vc!

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