Contos

O VIAJANTE - CAPÍTULO VI

quinta-feira, março 06, 2014Teresa Varela





Me sinto em casa em qualquer lugar
Mas sou turista em todos
Sou viajante em qualquer lugar
Sou uma parte do todo






O Viajante - Forfun 









João e Marie não se cansavam de olhar-se, ainda não estavam completamente convencidos de que o seu encontro inesperado, depois de mais de um ano de afastamento, era real. O seu abraço fizera parar o tempo. Alheados do Mundo, somente eles existiam.
Lentamente, voltaram à realidade. Os seus rostos sorridentes revelavam toda a felicidade que lhes ia na alma. Por fim, falaram, pela primeira vez, atropelando-se um ao outro, o que os fez rir divertidos.
Havia tanto para contar, tanto tempo perdido para recuperar, tantas confidências para trocar.
João olhou Marie intensamente e disse-lhe: - Pensei que te tinha perdido para sempre.
Conversando, seguiram de mão dada pelo calçadão. Marie contou-lhe que estava no Rio, há quase um ano, a fazer voluntariado nas Favelas e com os Meninos de Rua.
Viviane Moos' photography
O seu coração doía sempre que olhava aqueles Meninos perdidos, sem rumo, sem família, sem amor e sem futuro. O contraste entre os muito ricos e os muito pobres era esmagador e revoltante, mas, mesmo assim, ela estava a gostar da sua estadia naquele país e tinha pena de que estivesse quase a terminar.


João passou a acompanhar Marie, todos os dias, nas suas atividades e estabeleceu relacionamentos afetivos com muitos dos Meninos de rua com quem contactava, mas, sentia-se completamente impotente para lutar contra os graves problemas, que os afetavam, ou contra  as causas sociais, políticas e económicas que lhes davam origem.
Os ideais de vida, a comunhão de ideias e interesses, o sentido de humor, aproximavam João e Marie, cada vez mais. O seu amor tornara-se mais forte, mais seguro e mais sereno.
Aproximava-se a altura de Marie regressar a França e, também, de decidir que rumo tomaria a sua vida. Angola aparecia amiudamente nas conversas dos dois. Ambos tinham saudades dos tempos passados em África e sentiam como que um chamamento daquela terra.

Foi numa das suas últimas visitas a um dos locais que serviam habitualmente de dormitório a alguns Meninos de Rua que conheceram o Ricardo Almeida, português, nascido em Moçâmedes, Angola, e que vivia no Brasil desde 1975.
Ricardo fizera fortuna no Brasil e utilizava muito do seu dinheiro e tempo livre para tentar melhorar as condições de vida daquelas crianças desprovidas de tudo.
Mas, para ele, o seu país, o seu lar, o lugar em que o seu coração se encontrava sempre fora e continuaria a ser Angola.
Naqueles últimos dias, os três embrenharam-se em conversas e fizeram múltiplos planos. Ricardo dispôs-se a ajudá-los com dinheiro e apresentando-lhes pessoas influentes, endinheiradas ou ligadas a Organizações Internacionais e Nacionais de Ajuda Humanitária.
O plano de João e Marie era voltarem para Angola e criarem uma organização humanitária, vocacionada para o apoio às crianças órfãs, à saúde e à educação.
As hipóteses levantadas para a localização de tal organização foram diversas, mas, por fim, acordaram em que seria no Namibe, por ser, certamente, um dos locais onde a intervenção humanitária seria mais necessária.


Quando deixaram o Brasil já tinham um projeto bem definido daquilo que pretendiam fazer e capaz de ser apresentado às entidades, portuguesas, francesas e angolanas e às organizações internacionais que pretendiam contactar, bem como aos potenciais patronos, apoiantes e benfeitores, muitos dos quais faziam parte da uma lista de pessoas conhecidas de Ricardo.

Os dias que estiveram em Portugal passaram rapidamente, entre encontros com a família e reuniões com diversas pessoas e entidades. O seu Projeto foi bem aceite pela maioria daqueles com quem se encontraram, muitos dos quais  já se encontravam abertos a analisar e dar luz verde ao mesmo, pois Ricardo já os tinha contactado do Brasil, pedindo-lhes que dessem  apoio à sua execução.
Por fim, seguiram para França, para mais uma longa série de reuniões com diferentes organizações e particulares.
Em muito menos tempo do que haviam imaginado, tinham conseguido todas as autorizações necessárias para darem início ao seu Projeto, bem como os apoios financeiros, técnicos e humanos para o conseguir implementar e manter durante os próximos anos. 
Fizeram uma passagem rápida por Portugal, para se despedirem da família e tratarem dos últimos pormenores e partiram para Angola, levando uma imensa bagagem de sonhos, medicamentos e equipamento médico, livros e todo o tipo de material escolar.
João e Marie deram as mãos, os seus corações batiam mais rápido agora que se aproximavam do seu destino.
Fenda de Tundavala
Através da janela do avião iam  observando a paisagem. Instintivamente, olharam-se intensamente e perceberam que os dominava exatamente o mesmo sentimento...
Serra da Leba
Estavam de regresso a casa. Ali era, sem sombra de dúvida, o seu lar.
Deserto do Namibe

No aeroporto Yuri Gagarin aguardava-os uma pequena comitiva e foram de imediato informados de que o local disponibilizado pelo Governo Provincial do Namibe, para a instalação do orfanato, escola e pequeno hospital, tinha sido um antigo colégio, agora abandonado, nas proximidades do deserto.

Acompanhados pela sua Comitiva, dirigiram-se até ao antigo Colégio, onde um pequeno batalhão de trabalhadores e diversos materiais de construção os aguardavam.

João e Marie estavam estupefactos, quase incapazes de articular palavra. Estavam em África, onde tudo se passava a uma velocidade mais lenta. Como era possível que tudo estivesse já tão organizado, se eles mal tinham chegado?

Então a grande porta, enferrujada e de gonzos rangentes, abriu-se, dando passagem a Ricardo, que se encaminhou para eles sorridente. Ah, era então essa a explicação!




Abraçaram-se saudosos. Embrenharam-se numa longa troca de informações enquanto inspecionavam o que restava do velho colégio, tentando perceber o que podia ser aproveitado e o que teria que ser feito de novo. 

Felizmente o colégio era constituído por vários edifícios, o que permitiria separar as diferentes valências e necessidades daquela instituição, centro de saúde / pequeno hospital, orfanato, escola e residências dos voluntários e de João e Marie.

Ricardo informou-os de que pretendia passar algum tempo por ali, pois queria ajudá-los a erguer aquela Obra e quer o seu dinheiro, quer os seus conhecimentos, poderiam contribuir, em muito, para que tudo se desenrolasse mais rapidamente.

O tempo corria célere e, estranhamente, também a reconstrução e adaptação do antigo Colégio.

João e Marie, com a ajuda de um arquiteto e de um engenheiro, ambos amigos de longa data de Ricardo, faziam o projeto das instalações, escolhiam materiais e vigiavam o progresso da obra, dando instruções aos operários. 

Embora condicionados por um orçamento algo limitado, pretendiam que as instalações ficassem funcionais e tão modernas e adaptadas aos objetivos quanto possível, mas, queriam, também, que estas fossem acolhedoras e se enquadrassem no ambiente que as circundava.




Nos tempos livres, aproveitaram para se familiarizar com a região, com as suas gentes sorridentes, os seus hábitos, caraterísticas e maiores carências.

Mulheres Himba

Fascinava-os o deserto, ali tão perto, belo e misterioso, habitat de diversas espécies animais e vegetais, e também "lar" dos Himba, o povo matriarcal e seminómada das Mulheres de Vermelho, também eles belos e misteriosos.

Crianças Mucubais


Tinham consciência de que necessitavam criar relações de confiança e amizade tanto com os Himba, como com os Mucubais, estes últimos constituíam a maioria da população nativa, pois só assim o seu projeto teria sucesso. Pelo que aproveitavam todas as oportunidades para se misturar e conviver com eles.
 
Mulheres Mucubais



Viajando um pouco por toda a Província, aproveitaram para visitar o Parque Natural Regional do Namibe, o qual, ocupando uma área desértica com grandes dunas de areia, termina em escarpas montanhosas, lá onde a temperatura média anual é de 20,6°C, mas em que a escassa pluviosidade só permite a sobrevivência de plantas adaptadas ao deserto, como a welvitschia mirabilis."


Welvitschia
Apesar do Parque, pela sua proximidade do deserto, ser pouco propício ao desenvolvimento da fauna, lá puderam maravilhar-se com a vida selvagem, pois que neste habitam elefantes, olongos, rinocerontes negros e zebras da montanha.

FOTOS ANGOLABELA












Aproveitaram ainda para se refrescar nas águas amenas das praias da região.


Dunas, Baía dos Tigres, Namibe, Foto Angola Off Road

O sonho de João e Maria ganhava, a cada passo, contornos mais nítidos. De facto, os "deuses" pareciam olhar com benevolência o seu projeto.

Welvitschia - Centro Humanitário Polivalente do Namibe foi o nome escolhido para batizar a Instituição. A resistência, longevidade e capacidade de adaptação desta planta às condições mais adversas, inspirava-os e ajudava-os a lutar pelos seus objetivos. Para além do facto da Welvitschia ser também um dos símbolos nacionais angolanos.

Logo que lhes foi possível, ainda as obras estavam longe de estar terminadas, começaram a vacinar crianças e adultos, a fazer o rastreio das doenças mais comuns e mortíferas da região e, também, criaram os primeiros alicerces da Welvitschia - Clínica da Mulher. 

Esta Clínica pretendia vir a ser um centro de apoio à família e particularmente à mulher, a qual sofria ainda as consequências de uma acentuada desigualdade, efetuando sessões e consultas de educação sexual e planeamento familiar, para além dos serviços normais de ginecologia, obstetrícia, acompanhamento pré e pós-parto e despistagem de doenças sexualmente transmissíveis.

Os voluntários começaram, finalmente, a chegar. Médicos, professores, enfermeiros, vindos de todos os cantos da Europa.




A Escola estava concluída, com salas de aula e oficinas, dedicadas ao ensino de diferentes profissões, informático, eletricista, carpinteiro, canalizador, entre outros.
O Orfanato estava pronto a receber os primeiros ocupantes. Infelizmente, as crianças órfãs excediam, em muito, a capacidade do mesmo.


A azáfama era enorme.  João e Marie sentiam que, de alguma forma, todos os acontecimentos e escolhas das suas vidas os tinham conduzido ali. Tinham a certeza de que estavam onde deviam e queriam estar, a fazer exatamente aquilo de que gostavam.
Sabiam que tinham um longo caminho a percorrer, com muitas lutas, muitas vitórias, mas também muitos momentos de desespero e muitas derrotas. Mas, a primeira batalha estava ganha e eles, juntos, estavam preparados para enfrentar tudo o que o futuro lhes trouxesse, para lutar e para crescer.
Três anos se passaram sem que quase tivessem dado por eles. 
A luta por conseguir os fundo necessários para a manutenção e crescimento do Welvitschia ou a aceitação das diversas ações ou interferências no modo de vida dos nativos, era uma constante.
Momentos houve em que pensaram que não poderiam continuar com a sua obra, ou, pelo menos, que muito do que tentavam fazer era um trabalho inglório, em que as derrotas eram desencorajantes, pelo sentimento de impotência que causavam. Mas, se possível fosse, a paixão por aquela causa, crescia nos seus corações todos os dias, tal como o amor que sentiam um pelo outro.
Os voluntários chegavam e partiam. João e Marie recebiam-nos de braços abertos e despediam-se com um aperto no coração. Mas, logo em seguida, chegava uma nova "leva", à qual era necessário dar atenção, para que se adaptasse àquela tão diferente forma de viver e trabalhar.
João e Marie sentiam-se gratos e felizes com a sua vida e esta felicidade foi, ainda mais, reforçada quando, dois anos após a sua chegada, nasceu a pequena e muito amada Aimée.

Ver Aimée crescer feliz, naquela terra calorosa e cheia de luz, brincando com as outras crianças, tão diferentes na cor da pele e dos cabelos, mas tão iguais na sua alegria genuína, no seu espírito puro e na sua necessidade e capacidade de amar, era algo extraordinário, que os fazia sentirem-se, simultaneamente, maravilhados e insignificantes perante o poder da Vida.

As irmãs de João, acompanhadas das respetivas famílias, visitaram-nos num Natal  e, também  ficaram apaixonadas por África, pelas cores, pelos cheiros, pelos sabores, pelas paisagens e pelas gentes, mas, acima de tudo, a partir daquela altura, passaram a compreender e a admirar as escolhas e projeto de vida daqueles dois missionários, sem outra religião que não fosse o amor à vida e ao próximo.


Antes de partirem, as irmãs insistiram com eles para  irem em breve a Portugal. Tantos anos sem se verem era doloroso, por mais que entendessem que lhes fosse difícil tirar umas férias.
Olhando a pequena Aimée confirmaram, as duas, a sua disponibilidade para a receber em suas casas, quando ela tivesse idade para ir estudar para a faculdade.
Partiram em lágrimas, prometendo voltar a África e levando a promessa de que também João e Marie os iriam visitar, logo que lhes fosse possível. 
Nos anos seguintes, encontraram-se várias vezes, quer porque João e Marie necessitaram deslocar-se à Europa, para angariar fundos para o Welvitschia, quer porque as irmãs nunca mais foram capazes de estar muito tempo sem voltar a África.
João e Marie vivem o sonho de uma vida. Cheio de lutas, de vitórias e derrotas. De momentos de trabalho intenso e momentos de calma. De alegria e de dor. De Vida e de morte.
João já não viaja mais, a não ser por necessidade. O seu tempo de viagens terminou, mas, para sempre, delas lhe ficaram as memórias. 
Gostaria de ter conhecido o mundo inteiro, mas a sua grande viagem levou-o até à sua "casa".
João e Marie resistem, adaptam-se, lutam e perduram, tal como as Welvitschias, nesse imenso, colorido, misterioso e apaixonante Continente Africano...



Fim, ou talvez não.....


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1 comentários

  1. Que belo post! Enfim, quando a intenção é boa, parece que as portas do universo se abrem.
    Belíssimas fotografias também! Pessoas assim precisam ser pessoas encantadas. Eu não sou mesmo.

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Vou adorar ler os seus comentários....
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