Contos

O GRITO DA CORUJA - II Capítulo

domingo, julho 13, 2014Teresa Varela



O som horripilante das enormes asas deixou de se ouvir, exatamente no mesmo momento em que a chuva parou. Um pouco amedrontados,  olharam em volta. 
Ao longe, a Coruja descia num voo picado em direção a uma mulher, com longas vestes brancas, da qual emanava uma luz irreal que iluminava fantasmagoricamente a floresta.
Confusos, aguçaram a visão. No grupo ouviu-se um murmúrio. Nada de fantasmagórico existia na floresta. A estranha luz  era apenas o resultado da combustão de uma árvore atingida por um raio.


Tudo se encontrava calmo, agora. Ergueram-se, algo envergonhados, evitando olhar uns para os outros e, em silêncio, começaram a caminhar em direção à Aldeia.
Pelas sete da tarde, o sino da igreja ecoou pelos ares a sua melodia, seguida de nove badaladas. Era um sinal, um chamamento. Todos os habitantes da Aldeia e das redondezas se deveriam reunir por essa hora.
Às nove em ponto, a velha Casa do Povo estava a abarrotar de gente. Até a Ti Aniceta, que não saía de casa há vários anos, fora transportada, sentada numa cadeira, para estar presente na reunião.
Adalberto, o Presidente da Junta, considerado o homem mais culto e inteligente da região, pois tinha estudos, vivera no estrangeiro e possuía a maior e mais produtiva quinta daquela zona, subiu para o palco do salão de festas.
Aclarando a voz, começou a falar:
- Boa noite a todos. Devem calcular porque os chamei hoje aqui.
Estamos a meio de Julho e fomos surpreendidos por uma violenta tempestade, coisa nada habitual nesta altura do ano.
Sei que muitos de vós apanharam um grande susto. Mas, também não é caso para tanto.
O que é importante é que ninguém esqueça que vivemos num vale. A serra é nossa amiga e ajuda-nos a irrigar e fertilizar os nossos campos, mas, se nós não a respeitarmos e às leis da natureza, ela pode transformar-se na nossa maior inimiga.

Todos nos lembramos, ainda, da grande desgraça que aconteceu, há uns dez anos a esta parte. Infelizmente, o Manel dos Currais perdeu a vida e a sua casa, animais e culturas foram levados pelo deslizamento das terras. A Esmeralda ficou viúva, com quatro filhos a cargo, sem forma de os sustentar.
Esta era uma desgraça que podia ter sido evitada. Bastava que todos tivessem dado ouvidos à sabedoria dos antigos.
Não se pode arrancar demasiadas árvores, nem cultivar a encosta demais, pois a terra vai ficando solta e, um dia, sem aviso vem tudo por aí abaixo. 
Mesmo depois da morte do Manel, muitos de vós continuaram a desflorestar a Serra, sem se preocuparem com as consequências e, agora, mesmo que já não o façam, por causa das novas leis, o mal já está feito, para além de que os incêndios dos últimos anos ainda vieram agravar mais as coisas
Os que vivem no sopé da montanha são aqueles que correm maiores riscos, mas a responsabilidade é de todos. Pois, só se nos mantivermos unidos poderemos ter sucesso.
Assim, queria pedir a colaboração de todos. Se continuar a chover, aqueles que vivem no sopé devem deixar as suas casas e acolher-se nas casas da aldeia.
No Salão de Festas gerou-se um grande reboliço que Adalberto tentava aclamar, pedindo silêncio.
Mas, foi a voz roufenha da Ti Aniceta que os emudeceu a todos, ao dizer: - Tenham medo, muito medo, a Coruja já foi chamar a morte!!!! 

Depois, voltando às contas do seu rosário, que passava a grande velocidade entre os dedos, continuou ciciando a sua ladainha incompreensível, olhando o vazio com os seus olhos cegos.
Adalberto, recuperou de novo a palavra. - Pois, já ouvi para aí dizer que viram ou ouviram a Coruja piar. Isso é natural, todos sabemos que os animais pressentem o perigo, bem antes de nós. Portanto, a coruja piar durante o dia só quis dizer que vinha aí a tempestade, tal como veio.
A voz infantil de António, o mais novo dos filhos de Joaquim, fez-se então ouvir no silêncio do Salão - E a Senhora? A Senhora da Coruja, onde é que está?


Joaquim saltou na cadeira. Olhou a mulher interrogativamente. 
Esta, encolhendo os ombros, disse que o filho estava a brincar na rua, com os outros, quando começou a chover. Tinha ido logo buscá-lo, mas ele não queria sair da janela. Só falava na Senhora. Que queria ver a Senhora. Que a Senhora era muito bonita. Pelo que, preocupada, acabou por ter que fechar as madeiras, não fosse algum relâmpago cegá-lo.
O silêncio no Salão de Festas era denso, apenas, perturbado pelo sussurrar contínuo da Ti Aniceta.
Novamente, se fez  ouvir a voz de Aldaberto que pediu a todos para ficarem atentos, não correrem riscos desnecessários e, no caso de voltar a chover, para que os que viviam mais longe da montanha acolhessem os do sopé. Depois, despedindo-se, pediu a todos para saírem.
Joaquim reparou que o Toino estava sentado a um canto, todo encolhido e tremendo como varas verdes. A mãe de Toino morrera há alguns anos e este, desde essa altura, passara a viver da caridade dos vizinhos. 
A casa em que vivia, não passava de uma choupana, mesmo no sopé da montanha e ainda que ele por lá pernoitasse, o resto do dia andava de um lado para o outro, à mercê da generosidade dos outros, pois a sua capacidade mental era muito reduzida.
Joaquim teve pena dele  e foi buscá-lo para que dormisse em sua casa. Quando iam a sair, a Ti Aniceta, que se encontrava sentada à porta da Casa do Povo, à espera que a levassem, estendeu a mão e agarrou com uma força inesperada o braço do pequeno António. Depois, olhando fixamente, com os seus olhos cheios de névoa, disse-lhe com uma voz gutural: Viste a Senhora, menino! Pois ela  há-de vir buscar-te.
Subitamente, começou, de novo, a chover com violência. Joaquim puxou o filho com determinação e afastou-se dali a passos largos. 
Já em casa, foi tratar dos animais, sempre seguido de Toino.
Este deteve-se ao ver Alcaide, o cavalo que era a vaidade e orgulho de Joaquim. Por momentos, nos seus olhos apareceu um brilho de inteligência.
Joaquim olhou-o pensativamente, congeminando se seria possível ensinar-lhe a tratar dos animais.
A chuva continuava a cair. Joaquim trancou portas e janelas e foi deitar-se, rezando para que esta parasse.
No campo os afazeres começam cedo. O sol ainda não tinha nascido quando Joaquim se levantou. Ao dirigir-se à cozinha, deparou-se com a porta da rua aberta. Procurou Toino por toda a casa, mas, deste, nem sinais.
Então dirigiu-se ao casão dos animais. Foi aí que encontrou o Toino, dormindo, todo encolhido, deitado na palha, ao lado de Alcaide, que parecia achar perfeitamente natural compartilhar o seu espaço com aquele novo companheiro.



- Fim do 2º Capítulo -

  

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