Contos

O GRITO DA CORUJA - III Capítulo

terça-feira, julho 15, 2014Teresa Varela


Joaquim tratou dos animais com a ajuda de Toino, seguindo depois para as Hortas. Pelo caminho foi encontrando outros  que também iam para o trabalho.  O grupo das mulheres, habitualmente bastante ruidoso, seguia em silêncio. Todos apresentavam no rosto as marcas da uma noite mal dormida.
A  temperatura era a normal para aquela época do ano e o sol brilhava num céu sem nuvens, como se a tempestade do dia anterior não tivesse passado de um mau sonho
À hora do almoço juntaram-se para comer. Normalmente, havia conversas, brincadeiras e risos, mas, naquele dia, todos pareciam perdidos nos seus pensamentos. Óscar ainda tentou animar o ambiente, com as suas graçolas habituais, mas não conseguiu mais do que uns sorrisos amarelos.
O dia decorria normalmente, apenas perturbado pela  ausência de conversas entre os homens e mulheres que trabalhavam, curvados, lado a lado.
Foi então que Rosa Maria elevou a voz e perguntou se já tinham reparado no silêncio. Não se ouvia estranhos piados de corujas ou qualquer outro som extraordinário, mas, também, durante o dia inteiro não se ouvira nenhum pássaro a cantar, ou quaisquer outros sons de animais.
Ouviram-se resmungos e valha-nos Deus, mas ninguém encontrou nada mais para dizer acerca do assunto.

No regresso a casa o silêncio manteve-se. No ar pairava uma estranha e inusitada calmaria, nem a mais leve brisa soprava, como se toda a natureza se encontrasse adormecida.
Joaquim foi encontrar Toino ao pé dos animais. Este parecia ter estabelecido uma relação única  com todos eles, especialmente com Alcaide.
A mulher disse-lhe que Toino se tinha mantido todo o dia por ali, junto aos animais ou observando as crianças a brincar. Parecia ter adotado a casa como sua.
Joaquim perguntou-lhe o que é que ela achava de o deixarem estar ali, por uns tempos. Ela encolheu os ombros, dizendo que ele não incomodava nada e até servia de companhia.
A noite serena e estrelada abateu-se sobre o vale e dentro em breve todas as luzes estariam apagadas. Esta deu lugar a um novo dia  que amanheceu embaciado.
No trabalho as piadas e conversas iam começando a voltar ao habitual. À hora do almoço, Óscar, ao imitar a voz medonha da Ti Aniceta profetizando o fim do mundo, provocou uma  gargalhada geral. 
Quando se preparavam para regressar ao trabalho, o grito rouco da Coruja fez-se de novo ouvir e, agora, não era apenas um grito, mas dezenas de gritos vindos de todos os lados. 
Olhando-se  assustados, ficaram todos estáticos e mudos, sem saber o que pensar ou fazer.
Momentos depois, o céu escureceu enormemente e ouviu-se um estrondo tremendo, semelhante a uma explosão. Era um som profundo, que parecia vir das entranhas da terra e fazia estremecer tudo em redor. 
Um pavor imenso tomou conta do grupo que dispersou rapidamente, correndo cada qual para a sua casa.
Uma luz estranha iluminava o breu e de dentro dela, pairando nos ares, saiu uma enorme e terrífica Coruja que,  continuamente, soltava piados horripilantes.




Temendo pela própria vida, corriam o mais rapidamente que lhes era possível. 
Pelo caminho, foram encontrando outros grupos, igualmente apavorados. Não havia tempo para dizer nada. Um único pensamento os movia, chegar a casa o mais rapidamente possível.
Finalmente, alcançaram a Aldeia. Havia gente por todo o lado. Ouviam-se gritos e choros. Uns gritavam chamando pelos familiares, outros, apenas, de pavor.
Os sinos tocavam, endoidecidos, a sinfonia de um compositor tresloucado. A voz gritada de Adalberto, utilizando um megafone, tentava sobrepor-se  à algazarra, chamando todos para o Salão da Casa do Povo.
De súbito, um novo estrondo, um enorme estrondo, bem maior do que o primeiro, fez com que tudo o resto se silenciasse.  O céu foi tomado por um estranho movimento, parecendo que ia abater-se sobre os presentes, que gritaram de horror. Mas logo um ensurdecedor bater de asas os silenciou.  



A multidão, incrédula, não conseguia desfitar o céu, no qual voavam centenas de corujas, num impressionante silêncio, aparentando ter um objetivo determinado. 
Ao Largo da Aldeia não parava de chegar gente, em pânico, vinda de todos os montes e pequenas povoações próximas.
Ao fim de algum tempo, que pareceu as todos uma eternidade, a quantidade de corujas em voo começou a diminuir. No céu restavam apenas algumas retardatárias, mais jovens, que voavam baixo, batendo as asas furiosamente, na tentativa de acompanhar o voo poderoso das suas mães.



Ainda todas as cabeças se encontravam viradas para o céu, quando se ouviu um grito de pavor, seguido de um estridente aviso de alarme - Olhem, ela está ali! Fujam, pela vossa vida.



Então, todas as cabeças se viraram na mesma direção e viram-na, diáfana, etérea e assustadoramente luminosa.
Um lamento imenso nasceu do seio daquela multidão apavorada. Mas, ninguém se mexeu. Olhavam, petrificados, aquela figura hipnótica, que se aproximava lentamente, num movimento harmonioso, como  se dançasse. 
Quando já se encontrava bem perto da multidão, a mulher ergueu os braços. Das suas mãos translucidas libertava-se uma estranha luz.




A multidão aguardava em silêncio, sem capacidade ou energia para ter qualquer outra reação.

Por um momento, que pareceu eterno, o mundo quedou-se em absoluto silêncio. A temperatura subiu desmesuradamente e a multidão sentiu-se envolta por essa estranha onda de calor e serenidade.
O momento mágico terminou abruptamente com o grito sobre-humano de Toino. A multidão despertou do estado de hipnose e apercebeu-se, mais lentamente de que seria necessário para agir, de que o pequeno António se encontrava ao lado da Senhora de Branco.
Joaquim foi o primeiro a reagir. De um salto transpôs vários metros, para depois continuar a correr em direção ao filho. Mas, foi tarde demais. 
A Senhora de Branco afastou-se, etérea e fantasmagórica, levando o  pequeno António pela mão. Joaquim corria com quantas forças tinha, mas as duas figuras cada vez se encontravam mais distantes, acabando por se dissolver na noite.




Ermelinda deixou-se escorregar para o chão, chorando convulsivamente. António fora levado pela Senhora de Branco e nem ela, nem o marido tinham conseguido fazer nada para o evitar. 
- Porquê, meu Deus? Devolve-me o meu filho!!! - gemia Ermelinda entre soluços.
Consternada, a multidão abrira um círculo em volta da mãe destroçada.  Todos se encontravam cabisbaixos, de braços caídos, impotentes perante uma situação para a qual não encontravam explicação, nem solução.
A voz de Adalberto fez-se ouvir, pedindo voluntários para irem em busca do pequeno António e a todos os outros que regressassem a casa, ou, para aqueles que viviam no sopé da montanha, à casa dos vizinhos que os tinham acolhido.
Informou, também, que iria avisar as autoridades acerca dos estranhos acontecimentos e de que, logo que tivesse notícias, mandaria tocar o sino para que todos se reunissem no Salão da Casa do Povo ou, caso o espaço não fosse suficiente, reunir-se-iam no Largo.
Adalberto exortou todos para estivessem atentos, fechassem bem portas e janelas e tentassem dormir, pois avizinhava-se um dia demasiado difícil.
Os voluntários reuniram-se num grupo, para combinarem uma estratégia, enquanto a multidão começava a dispersar. Foi então que se ouviu um estrondo imenso, como se a própria montanha tivesse explodido. 
As pessoas fugiram apavoradas, sem saber de quê, tentando abrigar-se nas casas mais próximas. Momentos depois, começou a ouvir-se um ruído horrendo que não conseguiam identificar. Este, de minuto a minuto, aproximava-se cada vez mais da Aldeia.
A certa altura, alguém gritou bem alto - É água, é uma enorme tromba de água que vem a chegar aqui.
Para espanto de todos, o terrível ruído, quando parecia estar mesmo a entrar na Aldeia, começou a afastar-se.
A medo, as pessoas começaram a sair dos abrigos, tentando compreender o que teria causado aquele ruído medonho. À primeira vista tudo parecia estar no seu lugar, mas o som de água, correndo com violência, continuava a fazer-se ouvir.
Então, lá da ponta Aldeia, alguém chamou, com uma voz que denotava incredulidade. - Venham ver. É um rio....!!!

A multidão olhava estarrecida o imenso rio que havia nascido na ponta mais afastada da Aldeia e que, como que por milagre, não havia destruído uma só casa, como se tivesse escolhido o caminho que causasse menos danos.
O céu tinha clareado de novo e o sol brilhava, como se nada de extraordinário se tivesse passado.


- Fim do III Capítulo - 


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