Contos

O GRITO DA CORUJA - IV Capítulo

segunda-feira, julho 21, 2014Teresa Varela



Depois do choque inicial, provocado pela visão do rio que agora banhava a Aldeia, parte da multidão decidiu dividir-se em dois grupos. Um iria pela margem até à montanha, para localizar  a nascente, e o outro iria em sentido contrário, para descobrir onde este ia desaguar.
A caminhada até ao sopé da montanha não era muito longa, pelo que contavam encontrar a nascente  ainda com luz do dia. Já a dos outros caminhantes era completamente imprevisível, quer em tempo, quer nos obstáculos que lhes poderiam aparecer ao longo do caminho.
Ainda mal tinham começado a andar, apareceu um helicóptero a sobrevoar a zona. Adalberto já tinha comunicado às autoridades os últimos acontecimentos, mas, certamente que as populações das zonas que tinham sido subitamente invadidas por um novo rio, saber-se lá com que graves consequências, também o deviam ter feito.



Caminhavam o mais rapidamente que lhes era possível, temendo a devastação que iriam encontrar ao virar de cada curva. Mas, por mais extraordinário que pudesse parecer, as marcas de destruição eram quase indetetáveis. 
Na verdade, alguém que não conhecesse a região julgaria que o rio sempre ali estivera.
De quando em quando, os que seguiam em busca da foz encontravam pessoas que também observavam o rio e avaliavam os estragos. Mas, embora já caminhassem há mais de uma hora, ainda não tinham encontrado ninguém que se lamentasse de que o súbito aparecimento  do rio tivesse causado a morte ou ferimentos graves a alguém, nem, tão pouco, de ter havido perdas significativas de casas ou animais. 
Até aquele momento, tanto quanto se tinham conseguido aperceber, apenas as culturas tinham sido verdadeiramente atingidas. Algumas tinham ficado somente inundadas, mas outras encontravam-se completamente submersas.
Ainda tinham quase seis horas de luz para continuar na sua demanda, mas já se sentiam bastante cansados, porque junto à margem era difícil caminhar e encontravam obstáculos, a todo o momento, que os obrigavam a desviar caminho. Por vezes, tinham que se afastar tanto da margem que acabavam por se encontrar com o grupo que procurava o pequeno António.



Pelo caminho iam questionando todos que com eles se cruzavam, se por acaso tinham visto o rapaz, mas ninguém se lembrava de ter visto uma criança, vagueando sozinha, ou acompanhada por uma Senhora vestida de branco.
Na Aldeia, Ermelinda, inconsolável, encontrava-se rodeada por várias mulheres. Joaquim juntara-se ao grupo que ia procurar a nascente do rio. Antes de se ir embora, dissera-lhe que, sem saber bem porquê, achava que seria mais provável que o filho se encontrasse para esses lados, pois, afinal, todas as coisas estranhas que se andavam passando, pareciam ter origem na Serra.
Entretanto, começou a chegar à Aldeia uma enorme quantidade de gente, em automóveis, carrinhas, carros de bombeiros e, até, de helicóptero. 
Entre polícias, bombeiros, técnicos, investigadores e jornalistas, a Aldeia ficou, durante algum tempo, pejada de gente, que falava muito e se movia rápida e continuamente. Depois, partiram quase todos em direção à serra e o silêncio e quietude voltaram ao lugar.
Ermelinda, que sentira necessidade de andar um pouco, para se afastar das pessoas, quedou-se perplexa, no meio do torvelinho de pensamentos e sentimentos que a avassalavam, observando Toino que, sem que ninguém lhe tivesse pedido nada, se encontrava a tratar dos animais, com uma eficiência e carinho tal que desmentiam completamente a sua, suposta, incapacidade para desenvolver qualquer trabalho.
Por qualquer razão, esta visão de um Toino desembaraçado, deu-lhe uma inexplicável serenidade e a esperança encheu-lhe o coração.



No sopé da montanha o panorama era fascinante. Esta parecia ter-se dividido em duas, dando origem a um novo vale, por onde deslizava, pacificamente, o recém-nascido rio
Não se avistava ainda a nascente, mas o trajeto apresentava-se agora difícil. As margens eram bordejadas por pedras imensas que desencorajavam os menos ágeis ou audazes a continuar..
O grupo de exploradores ficou bastante reduzido, mas logo se lhe vieram juntar os jornalistas, investigadores e técnicos que tinham chegado à Aldeia. 
Por sobre as suas cabeças, fez-se ouvir o ruído atroador de um helicóptero, o qual se afastou rapidamente sobrevoando o rio.
Um dos investigadores, que encabeçava aquela expedição, mantinha-se continuamente em contacto com alguém que seguia no helicóptero. O equipamento, semelhante aos utilizados pela polícia, encontrava-se em alta voz, pelo que todos conseguiam perceber o que o homem dizia.
A dada altura, fez-se um enorme silêncio, apenas se ouviam ruídos de estática. Mateus, o investigador que seguia por terra, chamava pelo colega, mas, durante algum tempo, não obteve qualquer resposta.
Este foi, então, quebrado por uma voz embargada de emoção que dizia:
- Meu Deus... Que maravilha... Meu Deus..!!!
Todos pararam cheios de curiosidade. O que seria que o homem estava a ver de tão extraordinário que quase o impedia de comunicar? - interrogavam-se.
Depois, aceleraram o passo, tornando-se menos cuidadosos,  na pressa de ver o que quer que fosse que causara tão grande comoção. Tentavam adivinhar o que seria, através da explicação vaga que o homem ia dando. Mas, este acabou por concluir que não era capaz de explicar, aquele espetáculo tinha que ser visto, não era possível descrevê-lo. 
O rio parecia agora mais apressado e ouvia-se, ao longe, o som cantante de uma cascata.
Todos se encontravam exaustos, mas parar, para descansar um pouco, parecia-lhes uma ideia absurda e o som da cascata como que lhes renovava as energias.
De quando, em quando, alguém escorregava nas rochas, caindo mais ou menos aparatosamente, mas para além de algumas escoriações de somenos importância, ninguém se tinha verdadeiramente magoado. 
A expetativa causada pelo som da cascata, que se tornava mais audível a cada passo, não os deixava parar. Os corações batiam descompassados, num frenesim de cansaço e antecipação.

Nenhum dos presentes esqueceria jamais o espanto e deslumbramento que a imagem da cascata lhes causou. Também eles se quedaram mudos, sem palavras, perante aquela maravilha da natureza que sem explicação aparente, subitamente, aparecera da ancestral montanha.
Estavam todos maravilhados, mas, simultaneamente, desolados. Para encontrar a nascente do rio precisavam de mais horas de luz do que aquelas de que dispunham, pois teriam que contornar grande parte da encosta antes de encontrar um local onde fosse possível escalá-la.
Contravontade retrocederam. Teriam que deixar a busca da nascente para as primeiras horas da manhã. Agora, era necessário andar rapidamente, pois o caminho era agreste e com o cair da noite tornar-se-ia perigoso.
Já era noite escura quando se começaram a aproximar da Aldeia. As conversas iam morrendo, pois as emoções do dia e o cansaço físico tinham-lhes sugado a energia.
Foi então que, quase em uníssono, soltaram gritos de espanto e terror. Bem na sua frente, junto ao pinhal, encontrava-se a Senhora de Branco, olhando-os fixamente e pronunciando algo de ininteligível.



Joaquim correu para a Senhora, sem medo. Encontrar o filho sobrepunha-se a toda e qualquer outra coisa. O seu maior terror era o de ter perdido o pequeno António para sempre.
Mas, a Senhora de Branco desvaneceu-se no ar tão inesperada e rapidamente como havia aparecido. 
Joaquim, frustrado, deixou-se cair por terra soluçando violentamente.

- Fim do IV Capítulo -


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