Sabedoria; Luz Solidão; Nudez

OLHANDO A SOLIDÃO

segunda-feira, julho 07, 2014Teresa Varela


Mi esposa desnuda (1945) Descripción: Óleo sobre lienzo 42 x 32 cm.
Localización: Fundación Gala-Dalí. Figueres
Autor: Salvador Dalí


Mal refeita, ainda, das, inesperadas e recentes, alterações na minha vida, que me levaram o meu filho para longe, eis que me vejo confrontada, com nova mudança.

A minha filha, cansada de procurar trabalho adequado, ou não, às suas diferentes áreas de Formação, decidiu, com o namorado, também desempregado, que iriam tentar a sua sorte nos trabalhos sazonais da agricultura.
Adriana com a Ísis ao colo

Esta situação, com todas as suas implicações, não foi muito do meu agrado. Mas, como habitualmente, desdobrei-me para os ajudar. Afinal, a intenção e o objetivo eram bons. Ainda que esta decisão acabasse por não vir a ter o resultado que eles esperavam.


Na mesma altura, o meu marido necessitou deslocar-se em trabalho, por alguns dias, para outra zona do país.

Assim, subitamente, vi a minha casa esvaziar-se. Ficámos sós, eu e a minha cadela. Um silêncio enorme abateu-se em meu redor. Todas as coisas se encontram nos respetivos lugares, em perfeita ordem, como num anónimo quarto de hotel.

Gosto de ter os meus momentos de solidão, mas nunca gostei de viver sozinha. Por vezes, quando estávamos todos em casa, cada um estava no seu sítio, entregue aos seus afazeres ou lazeres pessoais, mas só o facto de saber que estavam ali, embora noutra divisão e absortos nas suas tarefas, bastava para que me sentisse segura.
Era chegado o momento de enfrentar a solidão. De me enfrentar a mim mesma, nua, sem subterfúgios.
O que tanto me pesa? A solidão ou a minha própria companhia?
Habitualmente, tento distanciar-me das situações e dos problemas para poder analisá-los de diferentes perspetivas e, mais uma vez, foi o que fiz.
Apercebi-me de que talvez o que mais me perturbe seja o facto de cada vez menos necessitarem de mim.
Centrei toda a minha vida na família. Ela foi sempre a minha primeira e mais importante prioridade em todas as decisões e escolhas; Ela foi tanto a minha força motriz, como a justificação para desistir de sonhos e projetos: Ela transformou-me numa lutadora, mulher coragem e, simultaneamente, serviu de desculpa para as minhas cobardias.
Pelo caminho ficaram viagens não feitas, participações políticas não concretizadas, projetos profissionais nunca iniciados.
Em 2011, na mesma altura em que criei este blog, entrei numa nova etapa da minha vida. Reconciliei-me com o passado. Transformei mágoas em aprendizagens. Perdoei-me os meus erros. Dissequei passado e presente até à exaustão.
Compreendi que tinha iniciado a fase descendente da vida. Rebelei-me, procurei novos rumos, entrei em depressão.
Vasco no ginásio - Bishop's Stortford 
A recuperação e aceitação foi lenta e difícil. Quando, finalmente, a acalmia parecera ter chegado, a vida, mais uma vez, trocou-me as voltas e levou-me o meu filho, para terras distantes, e a todos os outros, temporariamente, para longe de mim.
A velhice nunca me foi simpática. A ideia romântica, de filmes, livros e até pinturas, da velha avozinha de cabelos brancos, apanhados num carrapito,  que ensina aos netinhos as primeiras letras, nunca fez parte do meu imaginário como uma coisa real. Por mais que a minha própria avó, mulher de enorme coração e genica ilimitada, me tenha ensinado a mim, à minha irmã e a muitos outros as primeiras letras.
Sempre associei  o envelhecimento à perda de capacidades, à doença, a corpos desprovidos de beleza, graça ou elegância, à dependência, ao já não ser necessário, ao estar a mais, ao ser um peso para os outros.
Embora não tenha, ainda, chegado a essa fase da vida, é para lá que caminho. O ter ficado, subitamente, sozinha em casa, como que me projetou para uma antevisão do futuro, de solidão, de inutilidade.
Então ocorreu-me comparar a vida com as estações do ano, onde, evidentemente, a velhice corresponde ao inverno, e com os ciclos do dia, onde a noite ocupa o mesmo lugar.
E penso que foi nesse momento que entendi.
Entendi que as três decisões de que realmente me arrependo e que foram determinantes na minha vida, conduzindo-me a situações complicadas, difíceis ou dolorosas, cada uma delas a um nível diferente, estudos, família e profissão,  não foram, na verdade, decisões erradas, pois foram elas que me permitiram ser aquilo que sou hoje. E eu gosto da pessoa que sou.
Talvez não tenha tirado o curso certo para me levar ao sucesso profissional, mas tudo o que aprendi nesse curso me tornou mais atenta, consciente e desperta para o mundo.
Talvez não tenha escolhido o homem certo para me casar, mas esse casamento deu-me os filhos que dão sentido à minha vida.
Talvez não devesse ter criado uma empresa numa área que não dominava completamente, mas foi esse insucesso que me permitiu descobrir, em mim mesma, coragem, força, capacidades e competências que nunca, antes, julgara ter.
Hoje, tenho uma nova profissão, não a ambicionada, mas a possível, um novo marido e um nova área de formação.
Hoje, comparando os ciclos dos dias e das estações, com os ciclos da vida, compreendo, finalmente, porque todos eles têm uma beleza própria e única.
Hoje, percebo que o amanhecer e a primavera são esperança repleta de vida, como a infância; o sol do meio-dia e o verão são quentes e vibrantes, como a juventude; o fim de tarde e o outono são nostálgicos, calmos e belos, como a idade madura; a noite e o inverno são frios, escuros, mas também macios e brancos de neve, cintilantes de estrelas e cheios da sabedoria/luz  da lua, como a velhice.
Se o meu Sol já se vai agachando no horizonte, consola-me a certeza de que, em ótima companhia, a minha, sempre poderei olhar as estrelas e ser guiada pelo luar.


A DEUSA
2010 - 2014 - Teresa Varela
A Deusa olha o mundo de olhos fechados
Para poder VER...
A Deusa é Força, Vida e Luz



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