Contos

O GRITO DA CORUJA - V Capítulo

segunda-feira, agosto 11, 2014Teresa Varela



Finalmente, chegaram. Uma grande algazarra, pouco habitual na pacata Aldeia, provinha do Largo, que se encontrava  repleto de gente.
Todos tinham algo para perguntar ou informar. A certa altura a voz de Adalberto, ampliada pelo megafone, sobrepôs-se ao alarido.
Este informou então a população de que um grupo de técnicos e investigadores iria permanecer, por alguns dias, na Aldeia, a fim de estudar o fenómeno do aparecimento do rio, da "invasão" das corujas e outras situações, ainda inexplicáveis, ocorridas recentemente. 
Mateus subiu para um palanque improvisado e apresentou-se e à sua equipa. Depois pediu a colaboração de todos, para que respondessem às questões que, eventualmente, lhes fossem colocadas por qualquer um dos elementos da equipa e, também, para que seguissem as suas  instruções e das autoridades.
Até ao momento, não tinham dados suficientes que lhes permitissem informar qual a causa destas ocorrências, pois, embora já tivessem localizado a nascente do rio, via aérea, não lhes tinha sido ainda possível investigar no local.
Seguidamente, Adalberto chamou um representante de cada grupo que saíra da Aldeia, ao princípio da tarde, para que dessem a conhecer os factos que tinham conseguido apurar.
Nenhum dos grupos trazia novidades do pequeno António. A GNR também se juntara à busca, mas sem melhores resultados.
Os estragos causados pelo rio, felizmente, não tinham sido muito graves. Não houvera perda de vidas ou acidentes sérios com pessoas e poucos tinham sido os animais que tinham perecido, levados pela força das águas.
As perdas mais importantes tinham-se dado em algumas, poucas, casas que tinham ficado inundadas e muitas culturas que se encontravam alagadas ou  submersas, como era o caso das Hortas, onde Joaquim e vários moradores da Aldeia trabalhavam.
A choupana de Toino e  mais uma meia dúzia de casas no sopé da montanha, essas sim, tinham sido completamente destruídas pela correnteza.
Quase ao cair da noite, tinham conseguido chegar à foz do rio. Este ia desaguar no rio Verde, o maior e mais conhecido rio da zona.
Estas eram as novidades do momento. Nada mais se podia fazer, pois era noite cerrada.
A multidão dispersou rapidamente. O cansaço provocado pelos trabalhos e emoções do dia, não lhes deixara muita energia para prolongarem as conversas.
Joaquim foi tratar dos animais com a ajuda de Toino. Depois de comer qualquer coisa, estafado, atirou-se para cima da cama. Ermelinda deitou-se ao seu lado e deu-lhe a mão. Durante largo tempo, mantiveram-se, assim, em silêncio, olhando o teto, incapazes de dormir ou falar,
João, o filho do meio, chamou pela mãe, mas Ermelinda não respondeu, nem um só músculo do seu corpo se moveu. Estava inerte. Parecia-lhe que se se mantivesse imóvel, sem falar, quase sem respirar, conseguiria parar o tempo e evitar que algo de mau acontecesse ao pequeno António.
Perante o silêncio da mãe, João foi até ao quarto. Não entrou, ficou parado à porta, que se encontrava aberta, olhando os pais. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Nem conseguia imaginar o que sentiria se tivesse acontecido algo de grave ao irmão.
Embora passasse os dias a implicar com António, o irmão era, para ele, algo de precioso. Mariana, a irmã mais velha, passou-lhe um braço à volta dos ombros e levou-o dali. Ver os pais naquela tristeza e desalento não ajudava em nada.
Depois, já na sala, afirmou, segura de si. - Ele está bem, vais ver. Não tarda nada, aparece por aí. 
João abraçou a irmã e chorou, chorou, como não se lembrava de chorar há muito.
Ainda o sol não tinha nascido, Joaquim levantou-se, tão cansado como se deitara. Fez o possível por não fazer barulho, pois Ermelinda parecia ter, finalmente, conseguido adormecer.
Mais uma vez, não viu Toino em lugar algum, mas não se preocupou, pensando que estaria a dormir ao pé de Alcaide. Mas, quando chegou ao curral, ficou espantado, não só Toino não se encontrava lá, como, também, o seu magnifico cavalo desaparecera.
Meio enlouquecido, Joaquim saiu do curral a correr, chamando por Toino e Alcaide. Mas, apenas o súbito levantar voo da passarada, que se encontrava a dormir nas árvores, respondeu ao seu chamamento. Parou e respirou fundo, tentando controlar-se. Fechou os olhos. Eram demasiadas coisas. Demasiados acontecimentos, sobre os quais não tinha qualquer controlo. Ao abri-los viu, bem na sua frente, as marcas dos cascos de Alcaide na estrada de terra batida. Seguindo o rasto, percebeu que se estava a encaminhar para o rio. Quando já estava muito próximo, ouviu risos de criança. 
Primeiro, viu Alcaide, pastando calmamente. Um pouco mais à frente estava Toino, com um estranho sorriso desenhado na face. Joaquim seguiu a direção do olhar de Toino e, a alguma distância, avistou a cena mais insólita que alguma vez poderia ter imaginado.


O pequeno António banhava-se nas águas calmas do rio, vigiado de perto pela Senhora de Branco, uma figura diáfana, semitransparente que parecia levitar. Uma coruja planava sobre eles, como se estivesse de guarda. A incipiente luz do sol, ainda por nascer, passava por entre as ramagens das árvores, indo refletir-se nas águas límpidas, António sorria feliz e olhou o pai diretamente nos olhos. 
Por um infindo segundo, Joaquim estacou incrédulo. Depois, de um salto, procurou alcançar o filho. Toino ainda tentou segurá-lo, agarrando-o por um braço, mas, tarde de mais. Mal Joaquim pôs os pés na água, misteriosamente, a cena esfumou-se, perante os seus olhos incrédulos.
Lentamente, de ombros caídos, Joaquim virou-se para Toino, que lhe pousou a mão no braço, num gesto de consolo. Este tinha um estranho brilho no olhar, de inteligência e serenidade, que Joaquim jamais lhe tinha visto. Era como se Toino compreendesse tudo o que se passava e tivesse conhecimento de coisas que mais ninguém sabia. 
Regressaram  os três a casa. Pelo caminho, Joaquim foi tentando decidir se deveria, ou não, contar à mulher o acontecido, pois não a queria perturbar, mais do que ela já se encontrava, e acabou por nada lhe dizer.
Depois, juntou-se ao grupo que ia procurar a nascente do rio, Nem pensou em ir trabalhar. Afinal, encontrar o filho era agora a sua principal prioridade, para além de que as Hortas estavam todas inundadas, pelo que abrir regos para a drenagem da água era quase a única coisa que havia para fazer e dois ou três dos seus colegas chegavam bem para o trabalho.



No caminho passaram pelas vinhas, onde homens e mulheres estavam a chegar para ir trabalhar. Estas não tinham sofrido quaisquer danos, com o aparecimento do rio, pois encontravam-se num plano mais elevado.
Seguiam a passo acelerado. Iam por um trajeto mais fácil e rápido, agora que já tinham uma ideia clara da localização da nascente. Foi fácil atravessar o rio a vau, pois não era muito profundo. Depressa chegaram ao sopé da montanha, perto do lugar onde antes se situava a choupana de Toino, desta restavam pouco mais do que escombros e alguns utensílios que dançavam ao sabor da corrente.
Iniciaram a escalada da encosta cheios de energia e determinação. Esta não era muito escarpada, nem apresentava especiais dificuldades  na subida.
Em breve começaram a ouvir o gorgolejar da água. Aceleraram ainda mais. Mesmo Joaquim, por momentos, deixou-se dominar pela beleza daquele cenário, por aquele momento inigualável.



O Sol nascia em todo o seu esplendor, iluminando magicamente a nascente. Um fantástico jorro água elevava-se da terra, explodindo em ondas de espuma prateada, repleta de reflexos brilhantes de várias tonalidades.  O declive, sinuoso e escadeado, da encosta formava diminutos lagos e pequenas cascatas, cantantes, de água cristalina, que escorriam céleres em direção ao abismo.
Joaquim despertou do seu encantamento, quando ouviu, distintamente, uma gargalhada infantil. Abandonou, de imediato, o grupo, tentando perceber de que local provinha o som. Mas, quanto mais ele avançava, mais este parecia  distanciar-se.
Entretanto, técnicos e investigadores puderam, finalmente, livrar-se da sua pesada carga e começaram a instalar os equipamentos, que, supostamente, lhes poderiam fornecer pistas para o esclarecimento daquele mistério.
Os curiosos começaram a debandar e a serra foi ficando cada vez mais silenciosa, apenas perturbada pelos diversos sons da natureza vibrante e das ocasionais trocas de palavras entre os membros da equipa de investigação.
Joaquim estava só, à escuta, atento ao mais pequeno ruído. A uma gargalhada infantil, quase em surdina, seguiu-se outra e mais outra. Pareciam vir de todos os lados, como se pequenos duendes estivessem a brincar na floresta. 
Sentiu-se animado  para prosseguir, andando naquela que lhe parecia ser a direção de onde lhe chegavam as gargalhadas.
Já caminhava há algum tempo, quando avistou, por entre a vegetação, os andares superiores do Casarão da montanha. Protegido por frondosas árvores e densa vegetação, o velho Solar tornara-se quase invisível, caindo no esquecimento de todos.



Uma nova gargalhada, desta vez mais audível, confirmou-lhe que se encontrava no caminho certo. Tentou acelerar o passo, mas não existiam caminhos, ou veredas, e o mato cerrado dificultava-lhe o avanço. 
Por fim, conseguiu descer a encosta e olhar de frente para aquela que, um dia, fora a casa dos seus ilustres ancestrais.
Lentamente, encaminhou-se para a porta. Sem hesitar, retirou a chave debaixo de uma laje com um pequeno fundo falso. Só no momento em ia metê-la na fechadura é que parou, perplexo com o seu gesto. Como podia ele saber que a chave se encontrava ali?




Recuou. Memórias remotas, remanescentes de uma infância há muito perdida, libertaram-se das sombras dos anos e transportaram-no de volta ao tempo dos dias felizes. Sim, ele já vivera naquela casa, naquela que lhe parecia ser uma outra vida.
Olhando para cima, reparou num pormenor de que não tinha qualquer recordação. Por cima da porta, cravado ao centro do arco de pedra, que a circundava, encontrava-se uma espécie de brasão, no qual estava representada uma Coruja. Este era cercado, em ambos os lados do arco, por uma inscrição gravada na pedra, onde se podia ler "Casa da Coruja".
Joaquim sentiu um calafrio. A Coruja. Porquê a Coruja?
Por mais que recuasse nas suas memórias, nada  o fazia associar a Coruja àquela casa. Mas, talvez isso não tivesse nada de extraordinário, pois, a última vez que olhara aquela porta, tinha apenas cinco anos. Na altura ainda não sabia ler e o desenho da Coruja encontrava-se num plano muito superior àquele que os seus olhos de criança normalmente vislumbravam. Para além de que, muitas vezes, não nos damos conta da existência de coisas que vemos todos os dias, nem nos detemos a pensar acerca delas, porque simplesmente elas estão lá, fazem parte da "paisagem".
Talvez aquela casa  estivesse relacionada com os últimos acontecimentos ou, pelo menos, o pudesse ajudar a encontrar uma explicação para eles.
Ganhando coragem, introduziu a grande chave na fechadura. Esta, após vencer uma ligeira resistência, girou ligeira, como se os trinta anos de inatividade não tivessem causado qualquer dano.



O hall de entrada e a escadaria, à parte a quase total ausência de móveis e a presença fantasmagórica de algumas teias de aranha, pareciam encontrar-se em bastante bom estado de conservação, atendendo ao facto da casa se encontrar fechada há tantos anos.



A imagem dele próprio, subindo e descendo a escadaria em loucas correrias ou às cavalitas do pai, atravessou-lhe o espírito. Julgou mesmo poder ouvir as suas gargalhadas de criança feliz.
Joaquim percorreu a casa, abrindo portas e janelas, deixando que o sol e as suas memórias a enchessem, de novo, de luz e vida.
No primeiro andar reviu, com saudade, o quarto dos pais, com a pequena saleta que lhe servia de antecâmara. Quantas vezes entrara por ali a dentro e saltara para a cama dos pais? Ali, para si e seus dois irmãos, havia direito a risos, mimos,  sovas de cócegas e outras brincadeiras que já não recordava, mas que lhe tinham deixado a memória de uma infância feliz.



O frio e majestático quarto do avô, no qual não tinha permissão para entrar, sempre lhe causara calafrios. 
Recordava o avô como uma pessoa fria e distante, que parecia não gostar de crianças, manifestando imediato enfado se ele e os irmãos tivessem brincadeiras ruidosas ou rissem e falassem demasiado alto.                                                                                                                                                                                                    

Entrar no seu antigo quarto provocou-lhe uma sensação de nostálgica irrealidade. A porta-janela que dava acesso à varanda fora um dos seus locais de brincadeiras preferidos, nos dias de inverno. Dali conseguia avistar todo o vale e até a Aldeia, lá longe, com as suas pequenas casas brancas, e imaginar-se protagonista das mais fantásticas aventuras



Depois de ter percorrido todo o primeiro andar, subiu nova escadaria. Esta dava acesso aos antigos aposentos dos criados. Não era um local de que se recordasse muito bem, pois raramente lá devia ter ido. Tinha a vaga recordação de a mãe lhe ter dito que não o devia fazer, pois era importante respeitar a privacidade dos criados e ali era o único local em que podiam estar à vontade.



Subitamente, veio-lhe à memória a imagem de uma Ti Aniceta, ainda nova, sempre bem disposta, sempre a fazer brincadeiras e partidas, cheia de energia e vitalidade, limpando e arrumando a casa e tomando conta das crianças. 
Por mais estranho que pudesse parecer, há muito que se esquecera que, um dia, a Ti Aniceta trabalhara para a sua família e tomara conta dele.
Desceu as duas escadarias, entre o desalentado e o perplexo. Havia algo de errado ali. Era impossível que aquela casa estivesse desabitada há trinta anos. As madeiras das portas e portadas estavam demasiadamente bem conservadas, não havia vidros partidos nas janelas, muitas tinham ainda cortinados, em razoável estado de conservação,  e, na maioria das divisões, embora parte dos ornamentos e pinturas dos tetos já lá não se encontrassem, também não estavam no chão os restos das mesmas. 
Propositadamente, deixara para o fim a exploração do rés-do-chão.



O grande salão, agora quase despido de móveis, transportou-o para um mundo de cheiros, luzes, conversas e gargalhadas. Aquela sala só se abria nos dias de festa e para limpar. Guardava ainda a imponência e elegância de antigos tempos. Do tempo em que os Moreira Vilar eram conhecidos pela sua arte de bem receber, generosidade e festas memoráveis.
Ao lado, era a sala do piano. Por momentos, recuou no tempo e julgou ver a sua mãe, sorridente, dedilhando as teclas, enquanto o pai a olhava embevecido. Foi apenas um momento fugaz. 
Olhando em volta, deu-se conta de que esta sala tinha os tetos e paredes em muito mau estado, mas aparentemente, alguém fora interrompido quando estava a tentar recuperá-la, pois para além de um escadote encostado à parede, no meio da sala, encontravam-se alguns baldes cheios do lixo recolhido.



Desta passou para uma sala bem mais pequena, onde a família costumava receber as visitas, no dia a dia.. Estranhando, novamente, o facto de, nalguns pormenores, ainda se encontrar tão bem preservada.




Joaquim viu-se refletido no espelho, sobre a lareira. Este devolveu-lhe uma imagem semelhante à de seu pai, nos últimos dias de permanência naquela casa. Os mesmos ombros caídos, de impotência,  o mesmo rosto prematuramente envelhecido, sulcado por rugas de amargura e preocupação, a mesma sombra negra no olhar.
Incomodado, virou costas e dirigiu-se à biblioteca. Esta encontrava-se praticamente vazia, com as prateleiras, sem livros, repletas de pó. Apenas duas peças de mobiliário se encontravam naquela divisão, uma cadeira e uma mesa, junto às janelas, sobre a qual estava depositado algo improvável, um jornal, amarelecido pelo tempo, datado do ano anterior.

Joaquim já não tinha dúvidas. Alguém estivera e cuidara daquela casa, nos últimos trinta anos. Esse alguém apenas poderia ter sido o seu pai, o qual falecera há um ano atrás. 
Recordava o pai com carinho e tristeza. Um homem bom que não conseguira ou não soubera ultrapassar as adversidades da vida.
Desde que a tragédia se tinha abatido na sua vida, Joaquim nunca mais lhe ouvira uma gargalhada, nem mesmo lhe voltara a ver um sorriso.
O seu avô Joaquim, de quem herdara o nome por ser o filho mais velho, pois era esse o costume na família, delapidara, nos últimos anos de vida, a grande fortuna dos Moreira Vilar.
Após a morte da mulher, a avó que Joaquim nunca conhecera,  o avô, que a amara profundamente, transformara-se num homem misantropo  e duro. Dedicava-se apenas à gestão da sua vasta propriedade e nada mais parecia interessar-lhe e nem mesmo os nascimentos dos netos lhe amaciaram o coração.
O pai de Joaquim era o seu único filho, pois o primogénito falecera em criança, vítima de uma queda de um cavalo.
Poucos anos depois, a mãe deixara-os também. Dizia-se que de uma doença má, mas, provavelmente, fora a morte do filho que, lentamente, a matara de tristeza, pois, verdadeiramente, nunca conseguira recompor-se da sua morte.
Em virtude de o pai se encontrar sozinho e porque alguém teria que dar continuidade à gestão da propriedade, João, pai de Joaquim, decidira continuar a viver no Casarão, mesmo após ter casado.
Contudo, nos seus últimos anos de vida, o avô modificou-se completamente. Embora continuasse a controlar o dinheiro, desinteressou-se completamente da propriedade. Passava longos períodos fora de casa, dizendo que tinha negócios importantes a tratar na cidade, passando assim a gestão da mesma para as mãos do filho.
João estranhava as atitudes do pai, a sua rudeza e desinteresse pela família e pela herdade, que sempre fora o seu principal interesse e prioridade, mas não se sentia no direito de o questionar.
Quando, de súbito, o pai faleceu, João sentiu como se o mundo lhe tivesse desabado em cima da cabeça.
A imensa fortuna esfumara-se, como se levada pelo vento. No seu lugar apareceram dívidas, incontáveis, de jogo e de maus negócios, muitos deles de índole duvidosa. Os credores, dos quais os bancos eram os principais, caíram sobre ele como aves de rapina. 
Os amigos e até os familiares, incluindo a família da mulher, abandonaram-nos como se fossem animais peçonhentos. 
Falava-se que o avô Joaquim gastara a fortuna em negócios de contrabando, ao jogo e com mulheres de reputação duvidosa.
João não queria acreditar em semelhante tragédia. A vergonha cobria agora a família, sem apoios, sem amigos e sem família a quem recorrer, restava-lhe encontrar uma forma para tentar pagar as dívidas.
A melhor solução que encontrou foi dividir a propriedade em parcelas pequenas e colocá-las à venda. Entre o pico mais alto da serra, abrangendo todo o vale, até à Aldeia, tudo era dos Vilar Moreira. Mesmo a própria Aldeia era, em parte, sua propriedade, pois a maioria das casas também lhes pertencia.



Grande parte dos compradores dessas parcelas foram os próprios trabalhadores rurais da herdade.
No final, da imensa fortuna, restou apenas a pequena casa da Aldeia para onde se mudaram e onde Joaquim ainda morava e o Casarão, que seu pai fechou, por não ter capacidade para o manter funcional, proibindo a todos de lá irem.
Nessa altura, a mãe estava grávida da sua irmã mais nova, Catarina, a qual já nasceu na casinha da Aldeia.
Todos tiveram que se habituar a uma nova vida, sem dinheiro, sem comodidades, sem funcionários.
Joaquim começou a sentir-se oprimido dentro do imenso casarão. Muito do que se passara na altura, só soubera ou entendera muitos anos mais tarde. Afinal, na altura, ele não passava de uma criança.
Já na rua, apercebeu-se da existência de uma outra porta. Entrou. A sua memória infantil não registara a existência de uma capela de família. Ficou ali, parado, olhando tristemente a antiga capela abandonada.





Ao voltar para trás reparou que, meio encoberto pela vegetação, se encontrava o Jardim das Colunas, onde tanto brincara, onde tantas festas se tinham realizado. Mesmo deteriorado, detinha um estranha beleza selvagem, as colunas e o teto trabalhado integravam-se na natureza, como se fizessem parte dela, ou, de alguma forma lhe rendessem homenagem.



E, da parte de trás da casa, ainda bastante bem conservados, estavam  os grandes estábulos e o celeiro.





O som dos seus passos ressoava pelos estábulos vazios. Sentiu-se um intruso, perturbando o silêncio das memórias gravadas naquelas paredes.
Percebeu, finalmente, a dimensão de tudo quanto seu pai havia perdido. A vergonha pelos atos e dívidas do pai. A desilusão e mágoa, pelo afastamento dos, supostos, amigos e até dos familiares. A humilhação por ter que ir  pedir trabalho àqueles que, até então, tinham sido seus empregados. A impotência. Tudo deixara de estar sob o seu controlo, até mesmo a capacidade de dar uma vida condigna à sua família.
Também ele se sentia impotente e desesperado. Por qualquer extraordinário motivo, nascera no seu coração a esperança, quase a certeza, de que encontraria o filho ali, ou, pelo menos, uma pista para o localizar.
Mas, afinal, só encontrara memórias que o entristeciam, ainda mais, e uma compreensão, mais profunda, da dimensão do sofrimento de seu pai.
Não se apercebera de que era tão tarde. A hora de almoço tinha passado há muito e a tarde já ia a meio. Ermelinda já devia estar preocupada com a sua demora e ela, no momento, não precisava de mais nenhuma preocupação.
Voltou para a Aldeia, cabisbaixo, alheado do mundo, perdido em pensamentos dolorosos. A mulher estava à porta de casa, quando ele chegou. As profundas olheiras e o brilho no olhar deixavam transparecer as noites insones e  as lágrimas que, silenciosamente, teimavam em assomar aos olhos. 
Joaquim parou. Abanou a cabeça, em sinal de que não tinha mais novidades. 
Preparava-se para entrar em casa, quando se lembrou da Ti Aniceta. Disse à mulher - Volto já. - e foi pela rua fora disparado.
Bateu à porta, mas esta, chiando nos gonzos, abriu-se lentamente. Chamou, mas não obteve resposta, pelo que foi entrando, dizendo baixinho - Ti Aniceta. Ti Aniceta, está aí?
A voz gutural fez-se ouvir vinda do lado da janela. - Já tardavas, menino, já tardavas...



Joaquim, perplexo, perguntou-lhe: - Mas, a Ti Aniceta estava à minha espera?
Com um gesto, Aniceta convidou-o a sentar-se ao lado dela. Depois, pousou a sua mão sobre a dele, dando-lhe pequenas palmadinhas e  dizendo: - Há muito que te esperava. Cuidei de morrer sem que viesses falar comigo, mas não me cabia a mim tomar a iniciativa.
Cada vez mais confuso, Joaquim perguntou-lhe: Mas, Ti Aniceta, eu não estou a perceber nada. Sabe por que razão eu vim falar consigo?
- Pois com certeza que sei. Vieste falar comigo do teu pai, do Casarão, da Coruja, da Senhora de Branco e, tudo isto, porque o desaparecimento do teu filho te fez acordar para muitas coisas.
Habituaste-te a esta vida. Vida de pobre. E, nunca te perguntaste se podias ter outra. Se podias reclamar o que é teu por direito. Se podias recuperar o que o teu avô desbaratou e que o teu pai não pode, não quis e não soube lutar por reaver.
Antes de mais, deixa que te conte uma história. - Disse Aniceta mirando-o com os seus olhos cegos.
A tua família era uma família de gente boa que sempre soube respeitar e ajudar todos, mesmo aqueles que para eles trabalhavam. Mas, quando o teu bisavô Joaquim se casou com aquela menina do norte, a frágil e doce Ana,  a tua bisavó, foi como se alguém lhes tivesse rogado uma praga. Primeiro foi o grande incêndio que destruiu todas as colheitas. Depois as enxurradas que desceram a serra, engolindo tudo à sua passagem. 









Por fim, a morte inexplicável da mulher, que o teu bisavó foi encontrar já sem vida, no Jardim das Colunas, com um punhal cravado no peito.

Suspeitaram de uns vadios que andavam por aqui, na altura, e a quem a tua bisavó costumava dar de comer, às escondidas do marido. A tua bisavó era, como a minha mãe costumava dizer, um coração de ouro.











Diz-se que quando o teu bisavô encontrou a mulher, com o seu belo vestido branco manchado do sangue da morte, soltou um urro tão grande que se ouviu na Aldeia. O céu encheu-se de nuvens e as Corujas levantaram voo, soltando gritos horrendos.




Desde então,  a Senhora de Branco aparece sempre que está para acontecer qualquer desgraça.
Ora quando isto tudo se passou, o teu avô era apenas uma criança. Habituou-se a viver numa casa triste, sem mais mimos do que aqueles que lhe dispensavam as criadas. 
Tornou-se numa criança calada e triste, quase sem amigos. Depois foi estudar para o colégio interno e ficava muito tempo sem aparecer por aqui. 
Voltou, já homem feito, quando terminou os estudos. A princípio parecia não se conseguir adaptar. Não dava confiança a ninguém e pouco parecia interessar-se pela gestão das terras, pela floresta, pelas culturas.
Depois, tudo mudou, quando conheceu a tua Avó e se casou. De um dia para o outro, tornou-se um homem sorridente, interessado não só na herdade, mas também no desenvolvimento da Aldeia e até na qualidade de vida dos seus trabalhadores.



O Casarão pareceu renascer. Os amigos apareciam com frequência e as gentes daqui habituaram-se à romaria de carros em direção à montanha, sempre que por lá havia festa
Era uma casa cheia de alegria e animação, que ainda aumentou mais quando nasceu o teu tio Joaquim e, mais tarde, o teu pai. Eu sei bem disso, porque a minha mãe trabalhava lá nessa altura e às vezes levava-me com ela.



Mas, a tragédia estava à espreita. O teu tio Joaquim, com apenas dez anos, caiu do cavalo, que a mãe lhe tinha oferecido nos anos, e morreu imediatamente. À tua Avó nunca mais ninguém a viu. Meteu-se em casa. Já não havia alegria, nem visitas, nem festas e, pouco tempo depois, também ela faleceu. 
Benzendo-se, Aniceta prosseguiu: - As mulheres da tua família não têm sorte. Parece que a má sorte, ou o demónio, as persegue. Bem, mas voltando ao que interessa. Estes acontecimentos foram demais para o teu avô. Voltou a ser o homem sério e metido consigo. Dedicava-se apenas ao trabalho. Não mostrava os dentes a ninguém e só falava para dizer o que não podia deixar de ser.
Logo que teve idade, o teu pai passou a ser o seu braço direito na gestão da herdade, mas, fora isso, tinham pouca ligação um com o outro. Foi como se aquelas mortes lhe tivessem secado o coração.
A menina Margarida, a tua mãe, de quem tenho tantas saudades, veio devolver a alegria ao Casarão. O teu pai era, então, um homem feliz. Um homem de um único amor, apaixonado, fiel e dedicado, como qualquer bom Moreira Vilar.
Os nascimentos dos teus irmãos e o teu deram ao Casarão uma nova vida, cheia de gargalhadas infantis. A única sombra na vida dos Moreira Vilar era a amargura permanente do teu Avô.
A certa altura, sem se perceber porquê, o teu Avó modificou-se completamente. Deixou de se interessar pela herdade. Entregou completamente a sua gestão ao teu pai e ausentava-se por semanas, sem ninguém saber muito bem para onde ia.
Depois, depois tu já sabes. Foi a morte, a ruína, a vergonha e o falatório.  De um dia para o outro, os Moreira Vilar passaram de família mais rica da região, a gente pobre, sem amigos, sem crédito. 
O nome secular, Moreira Vilar, ficou, desde então associado a negócios escuros e devassidão.
O teu pai quase sucumbiu perante a tragédia. A incapacidade para sustentar a família nas condições a que estavam habituados e a vergonha de ver o seu bom nome enxovalhado, transformaram-no num homem triste, incapaz de olhar a tua mãe nos olhos.
Pobre Margarida, ela bem tentava fazer-lhe ver que não havia nada de que ele devesse ter vergonha. Que ela o amava na mesma e que era feliz com ele, quer fosse rico ou pobre.
O teu pai parecia não conseguir entender isso. Ver a sua amada, a mulher que ele prometera amar, apoiar e proteger, limpando a casa, cozinhando, tratando das galinhas e coelhos e vergada sobre si própria costurando dias inteiros, foi, para ele, uma enorme vergonha e humilhação.
Não sei se alguma vez te deste conta, mas a tua mãe era o grande suporte financeiro da casa. Foram os seus bordados e costuras, com que se ocupava pelas noites fora, que te permitiram a ti e aos teus irmãos  irem estudar para a cidade.
No princípio tentei ajudá-la, pois havia muita coisa que ela não sabia como fazer. Só não a ajudei mais porque também eu tinha que trabalhar. Ela aprendia depressa e agradeceu-me do coração. 
A Margarida  não se importava com o trabalho. O que lhe doía era o afastamento de teu pai. O já não se sentir amada.
Viveram os dois, vários anos, silenciosos. A tua mãe tratava-o com carinho, mas ele afastava-a como se ela o incomodasse. 
Só uma vez a vi impor a sua opinião ao teu pai. Ele quis emigrar, ou apenas mudarem-se para a cidade para ele arranjar um trabalho mais bem pago e melhorar as condições de vida da família, mas ela fez finca-pé e disse-lhe que isso nunca. 
A Aldeia era a terra deles. O lugar onde deviam viver. Onde ninguém os olhava de lado e onde tinham os amigos que nunca os tinham abandonado. 
Ele fez-lhe a vontade, mas penso que nessa altura ainda se sentiu pior. As ações do pai tinham causado toda aquela miséria e vergonha. Tinham feito com que a sua mulher nunca mais quisesse ser vista na companhia dele em lugar nenhum, que não fosse a Aldeia. E, ele também se sentia culpado por não se ter imposto ao pai. Por nunca lhe ter exigido que lhe desse acesso às contas bancárias. Por nunca o ter questionado sobre o que andava a fazer, quando se ausentava.
Eu sei todas estas coisas porque os dois desabafavam comigo. Várias vezes, tentei chamar o teu pai à razão e fazer-lhe ver que a mulher não tinha vergonha nenhuma, nem dele, nem da família dele. Apenas tinha uma grande mágoa da família dela e dos supostos amigos, pois todos os tinham abandonado nos momentos de aflição. Mas, ele parecia não perceber. Acho que nem ouvia. 
A tua mãe passou a amar a vida simples. Adaptou-se à vida da Aldeia, ao trabalho e aos amigos que aqui fez. A única coisa a que não se adaptou foi à transformação do marido.
Quando os teus irmãos decidiram emigrar, uns atrás dos outros, a tua mãe começou a definhar.
Muitas vezes me disse: - Eles já não voltam. Agora só falta o Joaquim ir-se embora e eu não quero assistir a isso. Não quero pensar que vou ficar aqui sozinha com o meu marido. Sempre amargurado, sempre silencioso. Sem um carinho, sem um sorriso.
Aniceta afirmou: Tenho a certeza de que foi a tristeza que matou a tua mãe e, afinal, tu nunca te foste embora.
Joaquim interrompeu-a: - Não fui, mas ela tinha razão. Os meus irmãos já me tinham arranjado emprego em Londres. Eu só não fui porque ela morreu e eu não quis deixar o meu pai sozinho. 
Decidi ficar e dedicar-me à agricultura. Pensei comprar um bocado de terra para explorar mas, na mesma altura, conheci a Ermelinda. Ela engravidou logo e, depois, nunca parecia ser boa altura para investir.
- Pois, bem sei.- atalhou Aniceta. - O teu pai também não te estimulava. Pelo contrário, estava sempre a dizer-te para não te meteres em aventuras, pois tinhas muitas bocas para sustentar.
Mas, voltando ao teu pai. Ele não fez nada para tentar recuperar o que havia perdido. Primeiro porque não podia. Depois porque se foi habituando. Estava acomodado no seu canto. Embora, no fundo, nunca tivesse perdido a esperança de poder voltar a viver no Casarão. Por isso, nunca deixou de lá ir e procurou mantê-lo habitável.
Quando a tua mãe morreu, ele ficou de cabeça perdida. Pela primeira vez percebeu como a sua atitude a tinha prejudicado. 
Desde então, as visitas ao cemitério e à Casa Grande tornaram-se numa romaria diária. Muitas vezes, vinha aqui, ao fim da tarde, e ficava horas recordando e recriminando-se. A vida pesava-lhe. As saudades da mulher e dos momentos que não vivera com ela, por vergonha, cobardia ou orgulho, eram a sua maior dor, o seu pior remorso.
Então, um dia, chegou numa grande excitação e, quase com alegria, disse-me: - Sou rico outra vez!!!
Depois, pareceu cair em si e ficou silencioso durante muito tempo. Perdido nos seus pensamentos. Como se procurasse encontrar a solução para um problema difícil.



A certa altura, a sua expressão mudou. O rosto suavizou-se Parecia determinado e calmo e pediu-me papel e uma caneta. Esteve a escrever durante muito tempo. Depois, suspirou e deu por terminada a sua tarefa.
Despediu-se prometendo voltar no dia seguinte e assim o fez. - disse Aniceta curvando-se para retirar algo de uma pequena gaveta, do velho armário da cozinha.
Aniceta entregou a Joaquim um grosso envelope lacrado, envelhecido pelo tempo, dirigido a si, dizendo: - O teu pai fez-me prometer que te o entregaria quando chegasse o momento. 
Eu, espantada, perguntei-lhe que momento seria esse e como poderia eu saber quando é que ele chegaria. 
Ele respondeu-me, misterioso, que eu saberia quando ele chegasse.
Fiz-lhe ver que estava velha e que podia morrer antes dele, sem te poder entregar a carta. 
Mas, ele, abanando a cabeça, assegurou-me que tal não aconteceria.
Pouco tempo depois, o teu pai faleceu e eu fiquei sem saber se te devia, ou não, entregar a carta. Até falei com a minha sobrinha Rosa, para lhe dizer em que sítio se encontravam as coisas importantes. Mas, quase em seguida, adoeci. Durante muito tempo, a minha cabeça esteve muito confusa e esqueci-me das coisas e das pessoas. 
Lentamente, fui recuperando, mas a vista para sempre me tinha sido roubada. Foi então que comecei a "ver" muitas coisas que não conseguia enxergar antes e compreendi que teria que esperar, para cumprir a promessa feita ao meu antigo patrão.
Hoje, chegou o momento. Já posso partir descansada. Sei que será feita justiça. 
Entretanto, Joaquim, perplexo, dava voltas ao envelope, sem ânimo para o abrir. Por fim encheu-se de coragem.
Leu as palavras de seu Pai, como se as pudesse ouvir, na sua  voz profunda e triste. 
À medida que lia a carta e os restantes documentos a sua expressão ia mudando. Primeiramente, foi o espanto, depois a quase alegria. Não fora o seu filho encontrar-se desaparecido, ele sentir-se-ia, agora, um homem feliz.
Agradeceu a Aniceta e despediu-se. Já escurecera. Joaquim correu para casa com um pressa inusitada. Quando chegou perto dos estábulos, estacou de súbito. A Senhora de Branco, quieta na noite, olhava-o fixamente. 

Não sentiu medo, mas estava como que paralisado. Tinha receio de que, se fizesse um movimento brusco, a Senhora desaparecesse de novo, sem que ele ficasse a saber onde se encontrava o filho. 
Durante um tempo, que lhe pareceu uma eternidade, ficaram assim, olhando-se em silêncio, conscientes de todos os sons da noite. 
Depois, uma porta a abrir-se com estrondo, seguida de um grito, trouxe-os de volta à realidade. Joaquim ouviu distintamente a voz da mulher, num tom que não lhe reconhecia. Foi então que uma outra voz se fez ouvir. Esta era uma voz infantil, que soava alegre e despreocupada. A voz de uma criança feliz. A voz do seu amado filho.
Correu para casa. As silhuetas de mãe e filho abraçados eram recortadas pela luz que provinha da porta escancarada de sua casa.
Joaquim juntou-se ao abraço. Era agora, verdadeiramente, um homem feliz.
Olhou em volta, ainda tempo de ver a Senhora embrenhando-se, silenciosa, na floresta.


- Fim do V Capítulo -


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1 comentários

  1. Minha cara,
    Fiquei deslumbrado com essa postagem. Além das magníficas e requintadas imagens, o texto é encantador, inusitado, envolvente; escrito de forma criativa e impecável. Mas, desculpe, apesar de ter gostado muito, e talvez por isso mesmo, estou curioso: é texto de algum livro, ou é de sua autoria?
    Beijos e apareça.

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