Contos

O GRITO DA CORUJA - EPÍLOGO

segunda-feira, setembro 01, 2014Teresa Varela

Joaquim e Ermelinda entreolharam-se espantados. O seu filho, o pequeno António, relatava-lhes as experiências dos últimos dias, num tom sereno e profundamente adulto. Ocasionalmente, sorria-lhes com doçura, como se tentasse reconfortá-los pela sua ausência.
- A Senhora  é muito bonita e bondosa. Mostrou-me locais belos e misteriosos. São locais Sagrados onde a Magia da Vida acontece. 
Mas é muito difícil chegar lá para a maior parte das pessoas.
E, sabem porque é que é de difícil? - Questionou-os, sem no entanto aguardar uma resposta. - Porque para se poder lá chegar é necessário ter um coração puro e fazer a longa caminhada da vida com generosidade e de mente aberta. 
Os locais Sagrados estão perto dos homens, apenas eles não conseguem vê-los porque têm as mentes e os corações fechados à Grande e Eterna Sabedoria, pois andam sempre preocupados com milhares de coisas, muitas delas sem importância alguma.
A Senhora mostrou-me como é importante tentar alcançar a Saberia e a Unidade. E disse-me que, a partir de agora, porque me foram revelados grandes mistérios, eu seria responsável pela Harmonia. - Disse o menino com um ar compenetrado. Continuando, depois,  a falar, perante o espanto e incredulidade de toda a família. - Ela revelou-me segredos que não vos posso transmitir. Mas assegurou-me que a nossa Aldeia irá ser um local importante e muito visitado.
Depois, bocejou cansado. No seu rosto infantil desenhou-se um trejeito de mimo e,  olhando Ermelinda, disse: -  Mamã, tenho sono. Vens contar-me uma história antes de eu adormecer?


Ermelinda pegou no filho ao colo. Abraçou-o e inspirou profundamente, sentindo o cheiro reconfortante dos cabelos do seu, ainda quase, bebé.
Ela não entendia bem nada do que se estava a passar, mas isso não tinha agora nenhuma importância, pois o seu filho regressara e, para já, essa era a única coisa que lhe interessava.
Esta foi mais uma noite em que Joaquim e Ermelinda mal dormiram. António adormecera rapidamente, não conseguindo manter os olhos abertos até ao final da primeira página da história que a mãe lhe lia. Mas, a excitação reinava na casa. Os outros dois filhos não paravam de rir e  fazer perguntas. Por um lado, estavam muito felizes com o regresso do irmão, mas, por outro, tinham ficado muito confusos com todas as coisas que ele dissera. Quase foi preciso zangarem-se para que, finalmente, sossegassem e fossem dormir.
Toino, com um sorriso feliz e sem demonstrar qualquer tipo de surpresa com os acontecimentos, também se recolheu aos estábulos. Era aí que queria dormir, por mais que lhe dissessem que devia dormir no quarto que tinham arranjado para ele. Felizmente, nos estábulos existia uma cama, reminiscências de outras épocas em que  os carroceiros dormiam junto aos animais.
Por fim, a casa ficou em silêncio. Abraçaram-se, demoradamente, congratulando-se por terem a família de novo reunida. 
Então, Joaquim contou-lhe tudo sobre a sua visita ao casarão e mostrou-lhe a carta do pai. Ermelinda nem sabia que dizer. Eram demasiadas surpresas e emoções para um dia só.
Aparentemente, estavam ricos. Muito mais ricos do que alguma vez tinham desejado ou imaginado. 
Era impossível, para já, fazer projetos. Estavam demasiado atordoados com tantos acontecimentos e primeiro tinham que confirmar tudo aquilo no Banco, de acordo com as indicações deixadas pelo pai. Em seguida telefonariam para os irmãos, que se encontravam em Londres, para os pôr ao corrente das novidades.
Foram deitar-se, não sem antes irem espreitar António que dormia serenamente. Mas, foi-lhes difícil conciliar o sono, sentiam-se excessivamente felizes e, simultaneamente confusos. Nos seus corações nascia agora uma esperança de uma vida melhor, mas, de alguma forma, como que temiam que tudo lhes fugisse das mãos, levado por qualquer vento misterioso e inesperado.
O dia nasceu cheio de sol. Foram imediatamente ao quarto de António, mas este estava vazio. Temeram o pior e correram pela casa à sua procura, mas nada. Os filhos mais velhos dormiam sossegadamente.
Assustados, saíram para a rua. Toino acenou-lhes do portão dos estábulos, ainda meio estremunhado.
Perguntaram-lhe se sabia de António, mas este encolheu os ombros, dizendo que ainda não tinha visto ninguém.
Olharam-se, aterrorizados, sem saber o que fazer. Então, ouviu-se o chiar inconfundível da cadeira de rodas da Ti Aniceta, logo seguido de uma gargalhada.
Viraram-se espantados. A Ti Aniceta ria a bom rir. O pequeno António, mal chegando às pegas da cadeira, empurrava-a pela rua abaixo e os dois pareciam muito divertidos.
A cara do filho tornou-se séria e disse-lhes - Desculpem. Acho que os assustei. Mas, não se devem preocupar comigo. Hoje têm coisas importantes a fazer e a Ti Aniceta precisa apanhar sol. Já está há muito tempo fechada naquela casa escura, sem ter ninguém com quem conversar.
Ermelinda e Joaquim nem sabiam que dizer ou pensar. Por fim, mandaram todos para o alpendre, para irem tomar o pequeno almoço. Estava um dia tão bonito que era um desperdício não o aproveitar.
Depressa, os filhos mais velhos juntaram-se ao grupo e a manhã começou animada, entre gargalhadas e brincadeiras. 
Como não era tempo de escola, os filhos iam ficar em casa, pelo que recomendaram a Mariana, a filha mais velha, que tomasse conta dos irmãos e também a Toino para se manter por ali, enquanto eles iam à cidade. 
Aniceta  interrompeu-os dizendo - Vão em paz. Podem ir descansados. Eu também fico por aqui, embora seja uma velha cega e sem préstimo, mas, posso garantir-lhes que o vosso António tomará conta de todos nós. - Rematou, dando uma pequena gargalhada de verdadeira felicidade.
Partiram, algo apreensivos. Mas era necessário que fossem esclarecer toda aquela trapalhada de herança, ou lá o que era.
Joaquim levava uma pequena chave dentro da carteira. Tinha-a encontrado exatamente no local onde o pai dizia, na carta, que esta se encontraria. De tempos a tempos, abria a carteira para confirmar que a chave ainda lá se encontrava. Mal conseguia esperar que chegassem ao Banco. Tinha algum medo de que, afinal, já não estivesse lá nada, uma vez que o pai já morrera há algum tempo.
Mas, tudo correu como o previsto.  Depois de confirmarem os dados com o funcionário do banco, este conduziu-os a uma pequena sala e entregou-lhes um cofre. 
Quando ficaram sozinhos, Joaquim meteu a chave na fechadura. Sentia o coração aos pulos, as mãos tremiam-lhe. Por um momento, hesitou. Será que ali encontraria felicidade? No fim de contas, sempre tinha tido uma boa vida. Uma boa família. E, o dinheiro, muitas vezes, só vem atrapalhar e afastar as pessoas.
Ermelinda olhava-o, silenciosa. Também ela sentia a mesma hesitação, o mesmo temor.
Respirando fundo, Joaquim deu a volta à chave. Ouviu-se um estalido e a gaveta abriu. Ficaram como que hipnotizados, fitando a maior quantidade de dinheiro que alguma vez tinham visto. Por cima do dinheiro encontrava-se um envelope.
Joaquim, ainda em estado de choque, abri-o vagarosamente e leu as palavras que seu pai ali lhe dirigia.



Joaquim, Meu Filho, 
Estás agora, tal como os teus irmãos, de posse de uma grande fortuna. Um dia também eu fui rico, mas, de um mpmento para o outro, tudo me desapareceu das mãos. Levei muitos anos a compreender que o que me trouxera infelicidade não fora a falta de dinheiro ou de terras, mas, sim, a minha dificuldade em aceitar e saber viver com a minha nova condição.
Por isso, espero que contigo e com teus irmãos não venha a passar-se a mesma coisa, O dinheiro pode dar-nos, ou tirar-nos, muita coisa, mas nunca a nossa honra, a nossa dignidade e, muito menos, destruir a nossa vida e a daqueles que amamos. 
Eu errei, errei muito, e só tarde demais percebi que tinha transformado num inferno a vida da pessoa que mais amei. A tua Mãe, essa mulher extraordinária que me amou sempre, mesmo quando fiquei pobre, mesmo quando me passei a comportar como um estranho, triste e revoltado.
Assim, meu Filho, se por um momento duvidares de que sejas capaz de manter a felicidade da tua família, por causa deste dinheiro, deixa-o aqui, a apodrecer. É apenas papel e nada vale quando comparado com a família e a tua dignidade.
Pensarás que não podes tomar uma decisão destas sozinho, pois só te pertence a quarta parte desse dinheiro, mas eu afirmo-te que podes. Sem ti e sem as tuas descobertas, eles nunca saberiam da sua existência.
Do teu pai que sempre te amou, mas nem sempre o soube demonstrar.
João

Joaquim abriu uma nova conta no Banco, em seu nome e de Ermelinda e depositou lá todo o dinheiro. O Pai havia ganho, nada mais, nada menos, que o primeiro prémio do euromilhões.
Depois correu para casa. Era urgente que falasse com os irmãos. A responsabilidade era enorme e ele queria que, o mais rapidamente possível, estes tomassem conta daquilo que, por direito, lhes pertencia. 
Ao chegarem à Aldeia assustaram-se. No pátio, em frente à casa, encontrava-se um grupo de gente. Correram, aflitos, pelo meio das pessoas, mas tudo estava calmo.
No alpendre, Aniceta sorria, deixando que o sol lhe aquecesse os ossos, enrijecidos pelos anos e pelos muitos invernos rigorosos.
Mariana, conscienciosamente, levantara a mesa do pequeno almoço e atarefava-se nas lidas domésticas, enquanto João se entretinha dando voltas de bicicleta e Toino tratava dos animais.
Ermelinda e Joaquim estacaram perplexos, o seu filho António parecia ser a razão de toda aquela comoção. As pessoas rodeavam-no e ouviam-no falar da Senhora e dos lugares Mágicos.
O menino fitou os pais e a sua expressão adulta modificou-se, dando lugar a uma outra bem mais infantil. Despediu-se do grupo e correu para os pais, sorridente, com qualquer outra criança da sua idade.
Joaquim pegou no filho ao colo. Este abraçou-se ao seu pescoço e disse-lhe em tom de confidência. - Então, Papá, correu tudo bem? Agora, só tens que fazer viver de novo a Casa?
O pai olhou-o interrogativamente. - A casa? Do que é que estás a falar?
António apontou, com o seu pequeno dedo, em direção à encosta. - Ali, Papá, tu sabes. A Casa precisa viver, outra vez. Ela tem estado, pacientemente, à espera de ti.
- Mas, para fazer o quê? - perguntou Joaquim.
- Para trazeres gente à Aldeia. Para todos viverem melhor. - respondeu a criança
- Mas, como vou fazer isso, meu filho?  
- A Mamã, ajuda-te. Ela sabe o que se há de fazer. - disse o menino olhando a mãe com ternura.
Ermelinda ouvia o diálogo entre os dois, ainda um pouco espantada. Mas, de momento a momento, ia-se adaptando melhor àquela nova e extravagante característica do filho, que parecia entender o mundo de uma forma que a mais ninguém era dado compreender.
Joaquim olhou-a intrigado. - Tu sabes o que hás de fazer?
- Acho que ele se refere a turismo. A transformar a Casa num Hotel. .- respondeu Ermelinda hesitante.
Os olhos do pequeno António brilharam e, batendo palmas, disse. - É isso mesmo Mamã. Eu sabia que tu ias entender.
Tudo fazia agora sentido. Ermelinda tinha um curso de Turismo. Ainda trabalhara, durante algum tempo, nessa atividade, mas, depois, conhecera António. Apaixonara-se por ele e pela vida no campo e deixara tudo o resto para trás.
Muitas vezes, perguntava-se se tinha feito bem. Se ela trabalhasse poderiam ter uma vida bem mais desafogada. Mas, rapidamente, afastava esses pensamentos. Isso obrigá-la-ia a afastar-se muitas vezes da família e, portanto, era algo que estava completamente fora de questão.
Entraram em casa já o grupo se tinha dispersado. As janelas estava semicerradas, deixando passar apenas uma ligeira claridade. Sentaram-se na sala fresca, na semiobscuridade. Era tempo de Joaquim ligar para os irmãos.
As conversas foram rápidas. Todos eles ficaram espantados com as novidades e disseram que iam combinar entre eles para virem passar uns dias a Portugal, o mais rapidamente que lhes fosse possível. Informá-lo-iam logo que soubessem a data.
A semana decorreu rápida, quase alucinante. António tentava perceber se lhe seria possível reaver algumas das terras que tinham sido da família, enquanto Ermelinda entrava em contacto com antigos colegas, para tentar saber qual seria a melhor forma de transformar o Casarão num hotel. 
Mas, o facto mais extraordinário era o grande número de pessoas que procurava o pequeno António, para que ele desse opiniões acerca do que deveriam fazer, para resolverem os problemas das suas vidas.
Joaquim e Ermelinda não conviviam bem com aquela situação, mas acabaram por quase se adaptar. Além disso, o pequeno António, a não ser nesses momentos, portava-se como qualquer outra criança da sua idade
Os irmãos de Joaquim chegaram no fim de semana seguinte. Abraçaram-se saudosos. A última vez que tinham estado todos juntos tinha sido por altura da morte do pai.
O almoço prolongou-se pela tarde. Havia tanta coisa para contar. Os factos extraordinários da debandada das corujas, do nascimento rio e do desaparecimento de António, relatados em primeira mão, emudeceram os três irmãos.
Era tudo tão extraordinariamente inimaginável que se sentiam como se, subitamente, fossem personagens de uma história de mistérios e aventuras.
À tardinha, quando o calor abrandou, foram todos em romaria, até ao Casarão. Nenhum dos irmãos de Joaquim se lembrava de como era a velha casa. Catarina, a mais nova, nem nunca lá tinha estado.
Mas, estranhamente, todos manifestaram ter tido a mesma sensação. Como se tivessem regressado a Casa e esta os tivesse acolhido, calorosa, dando -lhes as boas-vindas.



Elegeram o jardim das colunas para se sentarem a discutir acerca do que iriam fazer com a herança.
Quando Joaquim lhes disse que pretendia fazer da grande casa um hotel rural, os irmãos foram unânimes, afirmando que a casa por direito lhe pertencia.
- Afinal, o Quim foi o único que ficou para trás, junto dos pais. Eu bem sei que ele gostaria de ter ido connosco, mas, na sua perspetiva, alguém teria que ficar, portanto, ele, como irmão mais velho, achou que esse papel lhe competia. - afirmou Catarina, certa de que todos concordavam.
- Da casa nós só queremos ter cá um quartinho à nossa espera, sempre que nos apetecer vir de visita. E, logo que o hotel esteja pronto, tenho a certeza de que nos apetecerá muitas vezes. - corroborou Manuel
- Bem, mas há que pôr isso por escrito, para que, um dia mais tarde, não venham a existir problemas. Pois, todos nós temos filhos e mulher ou marido. - advertiu João, o irmão  a seguir a Joaquim.
Quanto ao dinheiro, decidiram dividi-lo pelos quatro em partes iguais. As partilhas estavam feitas e levantaram-se para dar mais uma volta pelas redondezas.



- Ó Quim! - disse João, ao entrarem nos estábulos. - Meu querido irmão, vais, finalmente, conseguir dar asas ao teu sonho. Agora já podes encher este estábulo de cavalos e, também, de vacas, ovelhas ou o que mais desejares.
Joaquim sorriu. Imaginar-se ali tratando dos seus cavalos. Com tempo para montar todos os dias, isso, sim, seria um sonho realizado.
Os irmãos partiram no início da semana seguinte, após terem tratado de todas as questões relativas às partilhas, prometendo regressar em breve, Se não fosse antes, todos tinham já confirmado a sua presença para a inauguração do grande hotel.
Entretanto, Joaquim despediu-se do seu emprego e embrenhou-se nos procedimentos legais e logísticos, para a transformação do Casarão num grande Hotel Rural
Vivia numa roda viva entre a Câmara, o apoio às atividade turísticas, arquitetos, engenheiros e o empreiteiro, que estava a levar a cabo a grande obra de recuperação e adaptação, ao mesmo tempo que ia comprando algumas  terras, da encosta até à margem do rio.
Todos na Aldeia se sentiram espantados com aquela súbita reviravolta, na vida dos Moreira Vilar, mas as extraordinárias habilidades de previsão e aconselhamento, do pequeno António, pareciam sobrepor-se a qualquer outro assunto.
O Grupo de Investigação que estivera na zona para averiguar os motivos do nascimento súbito do rio e do desaparecimento das corujas, partiu, ao fim de alguns meses, sem, aparentemente, ter chegado a grandes conclusões.
A vida seguia igual a si própria e o Grande Hotel, de dia para dia, ia ganhando forma. 
Passara um ano sobre todos aqueles estranhos acontecimentos e a inauguração já tinha data marcada. A família Vilar Moreira mudara-se para o Hotel "Casa da Coruja", onde destacara uma zona para residência particular.
Na Aldeia abriram dois novos Restaurantes. Todos esperavam vir a colher dividendos da instalação do Hotel.
Joaquim dividia agora os seus dias entre o Hotel, as atividades agrícolas e pecuárias e os vários cavalos que tinha adquirido, ainda que Alcaide continuasse a ocupar o lugar de honra na cavalariça.
Acabara precisamente de montar um cavalo, quando um grito tremendo ecoou pela serra. Era a voz da sua mulher chamando António, em desespero. 
Joaquim correu para casa. Ninguém sabia de António há algum tempo e ele não respondia aos chamados. Já várias pessoas tinham esquadrinhado a encosta, mas ninguém o avistara em lado algum.
A princípio, Ermelinda não se assustara muito, pois já estava habituada  às suas excentricidades, mas, já passara demasiado tempo e ela estava a ficar aterrorizada. Quem sabe o que lhe poderia ter acontecido. Podia ter tropeçado e caído ou ter sido raptado por algum louco.
Joaquim correu encosta abaixo, de cabeça perdida. A imagem do filho a afogar-se no rio, de segundo, a segundo, ficava mais nítida na sua cabeça. Ofegante, tropeçou várias vezes, quase caindo, mas não abrandou a velocidade.  
Um medo irracional dominava-o. Imaginava-se a receber um castigo severo, agora que tudo parecia estar a correr tão bem. A margem do rio parecia encontrar-se a quilómetros de distância. O coração batia-lhe desenfreadamente e as lágrimas afloravam-lhe aos olhos, impedindo-o de ver com nitidez. Estes estavam a ser os minutos mais longos de toda a sua existência. 
Finalmente, estava a dois passos da margem. Os seu olhos escrutinaram cada milímetro de terreno. De súbito, apercebeu-se de um ligeiro movimento. Focando a visão, deu-se conta de que aquilo que vira tinha sido o movimento de um pé, bem pertinho da margem, mas a vegetação não lhe permitia ver mais coisa alguma. Sentiu um movimento por trás de si. Era Toino que acabara de chegar. Descera a encosta no seu encalço. Também ele tinha uma expressão assustada.
Joaquim lançou-se numa correria louca até ao local onde avistara o pé. Estacou, estarrecido, quando lá chegou. A cena, incongruente e insólita, desafiava toda a racionalidade.


  
O seu filho encontrava-se deitado no chão, junto à margem, dizendo adeus à Senhora,  que se ia afundando, lentamente, nas águas do rio. No seu rosto, alvo, desenhava-se um estranho e doce sorriso e vários ramos de flores acompanhavam-na na descida, como imagens num hipnótico e extravagante quadro em movimento.
Joaquim manteve-se em silêncio até que tivesse desaparecido o último vestígio do mergulho da Senhora. Depois, tocou suavemente no ombro do filho. Este virou-se e enfrentou o pai com os olhos marejados de lágrimas. O pai abraçou-o, procurando reconfortá-lo.
- A Senhora teve de se ir embora. Eu sei que ela virá sempre que eu a chamar. Mas, só a posso chamar por coisas realmente graves e importantes. Eu sei que ela Vive, mas vou ter tantas saudades dela. - disse o pequeno António, num fio de voz.
Vagarosamente, voltaram os três para casa. Entardecia, o sol fazia milhares de reflexos multicolores nas águas inquietas do rio, nas folhas das árvores, que baloiçavam ao sabor de uma ligeira brisa, no céu azul de verão, envolvendo-os numa magia doce. 
Então, o Grito da Coruja fez-se ouvir por todo lado. Seguido de um imenso e terrifico silêncio. Joaquim, estremeceu, pensando. - Vai começar tudo de novo. - mas, olhando para o seu filho percebeu que um divertido e feliz sorriso se lhe desenhava no rosto.
Aquele grito de coruja foi, então, seguido de uma infinidade de gritos idênticos.



O céu estava coberto por centenas de corujas em voo. Joaquim aprimorou o ouvido e percebeu que o seu grito rouco era alegre. Era um grito de saudação a velhos amigos.
Finalmente, chegara o dia da inauguração. Tudo estava a postos para receber mais de três centenas de convidados.

O Hotel com 100 quartos, oferecia múltiplos serviços. Duas grandes piscinas, uma interior, outra exterior, ginásio, massagens, um grande salão de festas, salões de conferências, sala de jogos, passeios a cavalo e de bicicleta, banhos, numa zona que não era perigosa, e passeios de barco e gaivota no rio, passeios pedestres e escaladas na encosta da serra e, até, provas de vinhos na adega do Senhor Januário.







Este tinha visto o seu vinho tornar-se, de repente, num dos melhores da região. Dizia-se que o nascimento do rio alterara a composição dos solos, emprestando ao vinho um sabor delicado e um travo inigualável.
Para o dia da inauguração estava previsto um fogo preso no rio, ao anoitecer, para além de um lauto banquete e de um espetáculo com vários artistas, cantores, mágicos e comediantes,
Até as televisões tinham sido convidadas. Afinal, o nascimento repentino de um rio não é uma notícia muito comum e esse acontecimento dera-se apenas no ano anterior.
Ao final da manhã, dezenas de automóveis atravessaram a pacata Aldeia, em direção ao Hotel. A população acorrera à rua para ver aquele enorme cortejo de viaturas, a maior parte delas topo de gama. Todos esperavam que a inauguração fosse um sucesso.  Pois isso seria bom para todos, para além de que muitos dos habitantes da Aldeia e das redondezas eram, agora, lá funcionários.
Mas, ninguém prepara, nem estava preparado, para o maior, mais extraordinário e divertido espetáculo que alguma lhes fora dado ver.
Centenas de corujas vieram, em jeito de saudação aos visitantes, mostrar as sua habilidades.  As pessoas, maravilhadas e espantadas, saíram dos carros para apreciar mais de perto aquele quadro campestre tão inusitado.
O pessoal das televisões, também, não tinha mãos a medir. Cada um queria apanhar o melhor plano, a mais insólita imagem.















E, as mais afoitas, atreveram-se mesmo a aproximar-se dos seus simpáticos anfitriões de duas asas.



As gentes da Aldeia olhavam para tudo aquilo boquiabertos, entre o incrédulo e o divertido.
Joaquim e Ermelinda tinham estampados nos rostos  sorrisos imensos. O pequeno António saltitava de um lado para outro divertido.
A certa altura, segurou na mão do pai e disse-lhe num sussurro: - Vês, Papá, eu não te disse que isto ia ser um sucesso? A Senhora deu-me a chave da Harmonia, agora apenas é necessário que os homens a saibam manter.
Depois, largando a mão do pai, saiu correndo aos saltos. Afinal, uma inauguração daquelas era uma grande excitação para qualquer criança.  

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