MULHER CARACOL

Jardim de Artes e Esculturas de Bruno Torfs


Where there’s Passion, there’s always a Way 

It’s kind of fun to do the impossible.


O meu corpo frágil protege-se na concha forte do acidentado e irregular caminho, das rudezas e durezas humanas, mas, não me protege de mim.
Eu, tirana professora, cruel e desumana juíza, despótica ditadora, exigi de mim o que seria impensável para o mais insensível e indiferente ser humano que comigo se cruzou, na minha já longa caminhada.
Como num sonho, desperto mulher caracol, reclinada no solo selvagem e  macio de um mágico bosque. Raios de sol, filtrados pela folhagem, acariciam meu corpo com suavidade. A temperatura é amena. O vento, apaziguado, transformou-se em brisa ondulante. 
Os meus olhos, ainda ensonados, são invadidos pelos milhares de verdes que se transmutam em jogos de sombra e luz.
Uma imensa e lânguida preguiça imobiliza-me. A ilusão desfez-se. Chegou o tempo de parar. 
O poderoso som, semelhante ao de uma grande fábrica em atividade, sucumbe com um violento estertor, como se tivesse sofrido um súbito corte de energia. Afasta-se lentamente e morre. Em breve, não passará de uma recordação. 
A pausa inevitável é o momento que vivo. Não preciso provar mais nada. Não me limito, nem me coajo. Não me julgo ou martirizo.
E, os outros? Os outros seguirão nas suas vidas, como sempre fizeram, sem se preocuparem, esperarem ou exigirem que eu seja mais ou melhor. 
Não sei se cheguei ao tempo ou se o tempo chegou a mim. Lutei árdua e incansavelmente. Arregacei as mangas. Fui à luta. 
Cansados os meus braços de labutar. Cansadas as minhas costas de carregar o peso do mundo. Cansados os meus olhos de tanto ler e tresler.
Esqueci-me de ser essência. 
É tempo de me sentar na soleira da porta, pelo simples prazer de o fazer.
É tempo de olhar as ondas, pelo simples prazer de ver o mar.
É tempo de dormitar nos serões, pelo simples prazer de descansar.
É tempo de deixar a minha concha, pelo simples prazer de ser.
Sei que para lá dessa porta imensa, carregada de mistério, incerteza e magia, encontrarei o caminho....
Lá buscarei minha alma ao encontro de mim, pelo simples prazer de estar comigo.
Abadia de Glastonbury

Comentários

  1. Tê irmiga amaaad!
    Que escultura maravilhosa. E vc bem soube escrever lindamente o que tantas vezes nos acontece. Sentar na soleira é bom...muito bom e contemplar..dar esse tempo a si mesma! Siga em frente...no seu tempo.
    Beijuuss

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