Alentejo; Dignidade; Alma

À VARA LARGA, ENTRE ENTROCHOS E BALHANAS

domingo, fevereiro 28, 2016Teresa Varela

Foto de EKONOMISTA

Um livro e uma entrevista foram motivo bastante para pôr o Alentejo em polvorosa. 
Os artigos jornalísticos, acerca deste livro, e as Crónicas do autor, que também é cronista do jornal Expresso, encheram-se de comentários, mais ou menos inflamados, de Alentejanos indignados. 
As redes sociais entraram em ebulição. Artigos em Blogues, vídeos e centenas de posts e comentários têm sido partilhados no Facebook e na página da SIC Radical e até foi criado um Grupo "Henrique Raposo - O inimigo nº 1 do Algarve e Alentejo",  manifestando o desagrado, indignação e repúdio dos Alentejanos, pelas opiniões do autor.

Praia - Litoral Alentejano - Inverno
Alguns pequenos excertos do livro "Alentejo Prometido", publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, ilustram as opiniões do autor acerca do Alentejo e dos Alentejanos, tornando-se estas mais gravosas por serem apresentadas em jeito de conclusões de uma investigação que, afinal, nunca foi efetuada pelo autor, nem são baseadas em investigações feitas por outros, mais idóneos e competentes para as fazerem.

"A genética até poderá explicar o comportamento dos mortos, mas não explica a atitude dos vivos, isto é, não explica porque é que a sociedade alentejana criou uma cultura que legitima o suicídio."

"Até há estudos que indicam que o suicídio aumenta nos períodos de maior contacto humano (meses de verão). O reencontro das famílias pode ser um fenómeno penoso. Neste caso, o reencontro traumático ocorre quando regressam à aldeia os irmãos que migraram para Lisboa; os irmãos que ficaram olham para os irmãos lisboetas e sentem que também podiam ter tido aquela roupa fina e aquela mulher decotada. A ascensão social pode ser dolorosa."


"Ora, o que distingue o Alentejo não é a pobreza, a paisagem, o calor, a solidão ou a genética, mas sim a arrumação do suicídio na prateleira amoral, no ângulo morto da moral."

"...tal como os meus avôs não tinham o conceito moral (criança) capaz de gerar carinho pelos filhos, tal como os alentejanos do passado que não tinham a palavra certa para diabolizarem os filhos ilegítimos (bastardo) e tal como as alentejanas que não possuíam o termo certo (violação) para condenarem os abusos que sofriam, os alentejanos de hoje ainda não têm a linguagem adequada para condenarem o suicídio."


"...O alentejano, aliás, só é espontâneo para dizer “mato-me”. "


"Claro que esta visão naturalista denota a ausência da linguagem católica. Não é novidade para ninguém que a fraca religiosidade é uma alavanca suicida."


"Há idosos orgulhosos e ciosos da sua independência em qualquer parte do país, mas é no Alentejo que existe uma cultura que autoriza de imediato o salto para a solução mais rápida."

"...isolados do mundo, desconfiados e sem capacidade de sociabilizar"  in Observador


Alentejo - Ecossistema - Montado de Sobro - Rebanho de Ovelhas - Pastagem - Trevos


O Vídeo da entrevista, foi, no entanto, o principal gatilho desta onda de indignação, sem ela, provavelmente, o livro teria passado quase completamente despercebido à maior parte dos Portugueses e, consequentemente, também aos Alentejanos.


Eu própria escrevi uma Carta Aberta à Fundação Francisco Manuel dos Santos manifestando o meu profundo desagrado com a publicação deste livro e pedindo a esta que reanalisasse o apoio a este projeto.
Alentejo - Montado de Sobro

Já, em 2014, o mesmo Henrique Raposo tinha lançado um ataque severo ao Algarve e aos Algarvios que só não atingiu proporções semelhantes porque, por ser feito apenas através de mais uma das suas crónicas "Os Algarvios", não chegou ao conhecimento da grande maioria das pessoas.
Praias - Litoral Alentejano - Verão

À partida, poderíamos imaginar que as pessoas só se "mexem" quando se sentem prejudicadas financeiramente ou quando são agredidas fisicamente, principalmente se estivermos a falar de um povo pacífico como o português. Mas, estes factos vêm demonstrar que, afinal, há outras coisas que as fazem erguer-se, manifestar-se e tomar atitudes e que até podem ser e são consideradas mais importantes.
A defesa dos valores imateriais, como a dignidade humana ou a dignidade de um povo, são, afinal e felizmente, motivo suficiente para que todos se unam em protesto. Para que se esqueçam diferenças políticas, religiosas, económicas e sociais, pois valores mais altos se levantam. A dignidade, a alma e a essência de um povo.


O autor, constatando que as repercussões, das opiniões que emitiu, verbalmente e por escrito, talvez tivessem ido um pouco longe demais, acabou por publicar no Expresso uma outra crónica "Carta de Amor ao Alentejo" , tentando passar a ideia de que aquilo que escreveu foi motivado pela sua grande preocupação com o atraso, pobreza, problemas sociais e morais dos Alentejanos e, obviamente, também com o facto de o Alentejo, particularmente o Alentejo Litoral, ser a região do país com maior número de suicídios.

De vez em quando, até sinto alguma pena deste rapazola que transportando as suas memórias traumáticas de infância, o colorido das histórias contadas pelos mais velhos, as ideias feitas, e a sua deficiente análise do pragmatismo, humor e essência da alma do povo Alentejano pretendeu revelar "verdades científicas", através de um livro que nem é romance, nem é técnico ou científico. 

O "Alentejo Prometido" não passa de uma crónica grande, idêntica àquelas que habitualmente publica no Jornal Expresso. 
Estas são, normalmente, estrategicamente elaboradas para causar polémica. 

À primeira vista, até pode parecer que o cronista tem reais preocupações relativamente aos assuntos que comenta e sobre os quais emite opiniões, mas, na verdade, não passa de uma técnica de tentar criar um público que, quiçá, por, de alguma forma, sentir que poderá estar errado ou por a sua consciência lhe pesar, se possa sentir "alcançado", como se diz no Alentejo.

Exemplo disso mesmo é a crónica de dia 24 de fevereiro 
Ao colocar-nos esta questão, Henrique Raposo, está a tentar "mexer" com a nossa consciência. Na verdade, para nós, mães e pais, persiste sempre a dúvida se não poderíamos ser melhores pais; Temos sempre presente aquele dia em que, por alguns momentos, fizemos de conta que não estávamos a ouvi-los chorar e que ficamos muito quietinhos no calor da nossa cama, a pensar; - pode ser que adormeça outra vez; Ou, aquele dia em que estávamos tão distraídos, ou cansados que, por um segundo, deixámos de tomar atenção ao que os nossos filhos estavam a fazer. 
São momentos fugazes de que não nos gostamos de lembrar e que raramente comentamos com alguém. Mas, pergunto eu, quem é o Henrique Raposo para nos interpelar desse modo e para, por um segundo que seja, comparar esses pontuais "pecadilhos" com as atuações negligentes ou mesmo criminosas dos pais que matam os filhos?
H. Raposo cheio de petulância e arrogando-se de uma superior autoridade moral e intelectual perante os demais mortais, aborda todos os assuntos por forma a causar enorme polémica, provavelmente por considerar que essa é a forma mais eficaz de se tornar conhecido e de obter publicidade.

Esta atitude de prepotência, petulância e, suposta, superior autoridade moral e intelectual é também adotada por Pedro Boucherie Mendes, diretor de programas da Sic Radical e moderador do programa Irritações, no qual ocorreu a entrevista do H. Raposo, a propósito do livro agora publicado.
Pedro Boucherie Mendes, dando-se ares de virgem escandalizada, partilhou na sua cronologia, no Facebook, alguns posts provocatórios, em resposta às mensagens agressivas, inflamadas e ameaçadoras que recebeu de alguns Alentejanos, daqueles "que fervem em pouca água".
Ora, este moderador sabia muito bem o que estava a fazer, ao convidar o autor do livro, não se chamasse o seu programa "Irritações", e, se, de alguma forma, considerou que a "coisa" estava a ir longe demais, deveria então ter tido uma atitude de "moderador", tentando acalmar os ânimos.
Mas isto digo eu, que sou Alentejana.....

Tradução do Título

À Vara Larga - Sem limites
Entroxos - Porcarias
Balhanas - Coisas sem valor


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