Amor; Relacionamentos; Respeito; Encontro

À Minha Maneira

sábado, maio 21, 2016Teresa Varela

Cada viagem ao passado é complicada pelas ilusões, falsas memórias, falsa citações dos acontecimentos reais.
Adrienne Rich


Todos temos uma maneira única de pensar, sentir, agir e viver.
Esta maneira que nos é própria tem origem quer nas nossas características pessoais intrínsecas e específicas, quer em fatores genéticos ou congénitos, quer ainda pela forma como os diferentes meios e ambientes em que vivemos nos afetam e moldam.
Por essa razão, muitas vezes, temos tendência para repetir os mesmos erros, ao longo da vida.
Não adianta culpar os outros pela nossa infelicidade, pelos nossos falhanços, nem mesmo pela forma como nos tratam, porque, na verdade, só  nos tratam da forma como lhes permitimos que nos tratem.
Muitas vezes, procuramos no nosso passado, na nossa infância, as causas profundas das atitudes, comportamentos, limitações e formas de sentir de que não gostamos em nós e, mais uma vez, temos tendência para culpar os outros por nos terem feito isto ou aquilo que nos marcou.
Mas, de facto, não são exatamente as ações dos outros que nos marcam, mas sim a forma como reagimos a elas.
O Incrivel.club publicou dois artigos que, de alguma forma, se complementam e procuram dar respostas, relativamente aos motivos pelos quais agimos ou sentimos de determinada forma, e, simultaneamente, indicam estratégias para a sua compreensão e/ou modificação.
 "Paramos na idade em que falta amor", este artigo procura identificar os momentos que nos marcam e influenciam a nossa vida, afirmando -"Com muita frequência, me encontro com pessoas que, por fora, parecem ter 20, 30 ou 40 anos, mas, lá no fundo, ficaram na infância e ainda precisam do amor que lhes faltou quando eram pequenas. Elas ficam assim até o momento em que aprendem a encontrar a satisfação nelas mesmas." - e conclui sugerindo uma estratégia de ação - "Agora, a conversa é apenas entre você e a sua criança interior. Quem fala primeiro? Como começa a conversa? As respostas podem ser inesperadas e surpreendentes. 
Neste momento em que você encontrou a sua criança interior e está falando com ela, chegou a hora de começar uma relação. Converse o tempo que quiser, pergunte se ela precisa de alguma coisa e dê a ela o que ela pedir. Chame-a pelo nome (o seu), fale palavras doces e amorosas, expresse o seu amor e dê sugestões. Seja para ela o pai ou a mãe que você gostaria de ter com essa mesma idade.”
No artigo "Quem escolhemos amar e por quê" aborda-se o tema do amor, na perspetiva daquilo que nos leva a apaixonarmos por uma pessoa e não outra e, também, no que se refere aos fatores que contribuem para que os relacionamentos amorosos sejam bem ou mal sucedidos.
"Às vezes é difícil explicar por que nos interessamos por determinada pessoa e nos sentimos atraídos por ela. Porque nossa escolha é instintiva e inconsciente. Cada um de nós guarda nas profundezas do nosso ser as imagens das pessoas que participaram de nossa criação e crescimento. São as imagens dos nossos pais e outros entes queridos que marcaram nossos destinos.
Nestas imagens, muitas vezes, realidade e fantasias infantis se misturam. No entanto, essas imagens são precisamente aquelas que associamos ao amor: da mesma maneira que entendíamos e recebíamos (ou não) esse sentimento durante nossa infância. E, se alguém que conhecemos ’encaixa’ naquela imagem, desperta em nós antigas lembranças sobre o primeiro relacionamento significativo, e já não podemos simplesmente deixar essa pessoa e tornar-nos indiferentes. Nos sentimos curiosos, emocionados, e em pouco tempo estamos apaixonados."
Na verdade, não são apenas os motivos que nos levam a apaixonar que têm algo de instintivo e inconsciente. Toda a nossa vida depende tanto do instinto e do inconsciente, como do pensamento racional, dos nossos objetivos, gostos, desejos e necessidades. 
Se perguntarmos, por exemplo, a um escritor por que escreve ou a um pintor por que pinta, provavelmente, ele irá referir uma série de razões, tais como, porque lhe dá prazer, lhe é impossível contrariar essa necessidade, cresceu num meio ligado às artes ou porque, para ele, é uma atividade rentável ou lhe dá a projeção social ou profissional que sempre ambicionou.
Mas, ainda que todas essas razões ou motivos possam ser perfeitamente razoáveis e credíveis, a lista estará sempre incompleta, pois existem motivações e razões que, por não termos acesso ao inconsciente, não podemos conhecer.
E, se pensarmos por que razão bloqueamos, trememos, suamos das mãos, esquecemos a palavra certa, ou adotamos uma postura física retraída exatamente naquelas situações em que era para nós muito importante passar uma boa imagem, percebemos quanto somos dependentes do funcionamento, relativamente automático, do nosso cérebro.
O cérebro do ser humano é um órgão de extrema complexidade, ainda não totalmente compreendido pela ciência. Tudo na nossa vida depende da forma como ele funciona e caso ele pare entramos em morte clínica.
Não nos é possível mexer sequer um dedo sem que uma série de mecanismos complexos, que ligam o cérebro a esse dedo, se ativem e o permitam.
Ainda que o cérebro seja nosso, não temos total controlo sobre ele, pelo contrário, o controlo que detemos é muito relativo. Ele decide por nós como deve atuar em caso de perigo eminente e inesperado, em caso de doença, acelerando ou diminuído as funções dos diversos órgãos, por forma a preservar-nos a vida.
Da mesma forma, ele condiciona as nossas ações e comportamentos sociais, vistos de uma forma abrangente. Sempre que reconhece uma situação como ameaçadora ou causadora de dor ou frustração, ele aciona determinadas zonas nele próprio e liberta, com maior ou menor intensidade, diferentes substâncias químicas, por forma a preservar a nossa integridade psíquica, física ou emocional.  
No entanto, principalmente no que se refere aos nossos sentimentos e emoções, nem sempre o cérebro, ainda que sadio, reage da forma que nos é mais conveniente, pois a sua aprendizagem não é reflexiva, mas sim de ação/reação. 
Ou seja, se um dia fomos mordidos por um cão, o cérebro, sempre que um cão se aproxima de nós, tende a reconhecer o cão como um perigo que devemos evitar; se quando éramos pequenos apanhámos um grande susto quando estávamos ao escuro, o cérebro associa escuro com perigo e, por isso, podemos ter medo do escuro; Se  em criança fomos abandonados, maltratados ou humilhados por alguém de quem gostávamos muito, o cérebro associa amor a abandono, maus tratos ou humilhação.
Então, mas nesse caso, somos apenas autómatos, dominados  por um cérebro que, ainda que seja nosso, não controlamos? 
Isso, de alguma forma, tornar-nos-ia irresponsáveis ou inimputáveis pelas nossas ações.
Obviamente que dominamos parte do nosso cérebro e, consequentemente, as nossas decisões, a escolha dos nossos valores e grande parte das nossas atitudes ou comportamentos. Fazemo-lo através do nosso consciente, o qual nos permite pensar, refletir, decidir, modificar comportamentos ou hábitos.
É o consciente que desliga o mecanismo automático do medo, gerado pelo inconsciente ou pelas memórias, para que sejamos capazes de nos aproximar ou fazer festas a um cão, mesmo que tenhamos sido mordidos por um outro cão. 
Claro que isto não acontece com todas as pessoas e, por vezes, essas mesmas pessoas nem foram nunca mordidas. Contudo, na teia complexa do seu inconsciente, algo criou essa associação, a que o consciente pode não ter acesso 
Quanto mais harmonioso for o equilíbrio entre o consciente e o inconsciente, melhor, mais seguros e felizes nos sentiremos.
Na escolha do nosso parceiro/a amoroso, da nossa profissão, do clube desportivo, no grupo de amigos, dos nossos hobbies, enfim, em tudo que escolhemos na vida estão presentes motivos conscientes e inconscientes.
Da mesma forma, na maneira como nos comportamentos nesses diferentes "departamentos" da nossa vida, também estão presentes fatores conscientes e inconscientes.
Por vezes, perguntamo-nos como é possível que alguém, proveniente de uma família onde existia violência doméstica, a qual necessariamente muito a fez sofrer na infância, acaba por constituir uma nova família onde também existe violência.
Não seria natural que quem sofreu com a violência doméstica se afastasse dela, ao invés de repetir  o mesmo padrão?
Pois é, o problema está aí mesmo, é que o nosso cérebro é muito mais complexo do que aquilo que possamos pensar.
As vítimas de violência doméstica, normalmente mulheres, têm falta de autoestima, ou, de alguma forma, sentem que merecem ser maltratadas. Essas características podem ser como que transferidas para as filhas mulheres, como uma espécie de imitação. Tal como a atitude de agressor pode ser transferida para os filhos homens.

Na infância, os nossos ídolos e principais educadores são os nossos pais, logo, temos tendência para os imitar. 
Assim, ao criar uma família, essa mulher poderá, inconscientemente, procurar um homem com características semelhantes às do pai, quer porque se vê a si própria como uma eterna vítima, quer porque poderá querer provar que é possível inverter esse ciclo de violência, mesmo com um homem propenso à violência. 
Mas, por outro lado, também pode acontecer o contrário. A filha que viu a sua mãe ser vítima de violência, pode desenvolver aversão ou medo de qualquer homem, não lhe permitindo, portanto, estabelecer relacionamentos equilibrados ou duradoiros. Poderá usá-los e abandoná-los em seguida ou combatê-los profissional ou socialmente.
Na verdade, as formas de reagir a qualquer situação são tão variadas quanto as pessoas que as enfrentam.
Talvez se lembre de já ter chorado lágrimas amargas porque todos os seus relacionamentos acabam da mesma forma ou porque a pessoa com quem está não a respeita ou à sua opinião. 
Quantas vezes já se sentiu maltratado, humilhado, ignorado, desrespeitado, não valorizado na sua família, círculo de amigos, pelos seus chefes ou colegas de trabalho, ou em qualquer outro grupo ou relacionamento em que se envolva?
De facto, se a situação se torna repetitiva, o mais provável é que o problema não esteja no mundo, nem nos outros, mas, sim, em si.
"A sua maneira", de agir, falar, comportar-se, relacionar-se, pode não ser a melhor para si. "A sua maneira" pode mesmo ser o seu pior inimigo.
"A sua maneira" pode levar a que os outros não o respeitem ou levem a sério; a que os outros se habituem a não ter em conta os seus sentimentos, desejos ou aspirações.
Às vezes, esses outros até podem gostar muito de si, mas "a sua maneira" pode propiciar que o tratem exatamente da forma oposta àquela que queria.
Não podemos viver em constante guerra com o mundo e os outros. Não podemos assumir o papel da vítima a quem todos querem maltratar.
Na verdade, quando diz que ama ou gosta de alguém, o que está de facto a dizer? Principalmente, se considera que os outros, de quem gosta, não o respeitam, ou tratam como acha que merece, como pode mesmo assim continuar a gostar deles?
Será que o seu gostar deles, o seu sacrificar-se por eles, o seu estar sempre atento às suas necessidades e mais pequenos desejos, não significa antes que você quer "comprar" o seu amor, ou a sua atenção, ou a boa imagem que quer que tenham de si, não tanto pelo que sente por eles, mas pelo que quer que sintam por si?
Se você leu até aqui e, de alguma forma, se identificou, saiba que, provavelmente, o problema está em si próprio. 
Você não se ama, verdadeiramente. Você procura preservar-se e defender-se, mas a imagem que transmite aos outros é exatamente aquela que tem de si próprio e é em função dessa imagem, que você transmite, que os outros o vão tratar.
Você nunca será bem amado, enquanto não se amar.
Você nunca será respeitado profissionalmente, enquanto não acreditar nos seus talentos e capacidades.
Você nunca será levado a sério, pelos familiares ou amigos, enquanto não acreditar que aquilo que pensa, escolhe e diz é válido e importante.
Você nunca se sentirá à vontade, em lugar algum, enquanto não se sentir seguro de si próprio.
Ninguém é totalmente seguro de si próprio, todos temos medos, inseguranças, limitações, mas, aquilo que podemos e devemos procurar é aceitarmo-nos tal como somos, ainda que tenhamos a "obrigação" de tentar ser a melhor versão de nós mesmos.
Mas, como conseguir vencermo-nos e amarmo-nos a próprios?
Bem, aí você vai ter que ter uma grande conversa consigo mesmo e não pense que vai ficar tudo resolvido à primeira. Vai errar muitas vezes. Vai repetir os mesmo erros. Vai ter que lutar contra os automatismos do seu cérebro e perder, uma, duas, três, tantas vezes quantas as necessárias, até ser capaz de se superar. 
Vai aprender que falhar não é grave, o importante é tentar e não desistir. Vai aprender que você é único, incomparável e merecedor de respeito e amor.
Então, respeite-se e ama-se. Mas, para isso, não precisa agredir os outros. Basta-lhe apenas ser. 
Paramos na idade em que nos falta o amor? Então volte a essa idade. Fale com a criança que você era então.
Sabe, ela viverá sempre dentro de si!! 
A criança, o jovem, o adulto coabitam dentro de si, ainda que nem sempre de uma forma pacífica. 
Fale com eles. Questione-os acerca dos seus medos, desejos, frustrações, faltas de amor. 
Nem sempre aquilo que eles recordam ou pensam corresponde à realidade dos factos, mas, mesmo que corresponda, você tem o poder para, amando-os, os compensar.
E Ame-os a todos. Pois todos eles são Você.




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