Letras; Poesia; Hipocrisia

Arre, estou farto de semideuses!

quinta-feira, julho 14, 2016Teresa Varela

Das coisas dos homens talvez a mais nefasta seja a hipocrisia. 
Esta hipocrisia faz com que o Mundo, a maior parte das vezes, pareça estar em estado de permanente campanha eleitoral.  A verdade oculta-se por detrás de sorrisos, grandes tiradas de palavras ocas e sem sustentáculo, apelos às emoções mais básicas ou aos instintos mais irracionais.
Invocando-se valores sociais, morais, humanísticos, religiosos e outros, que se assumem como verdadeiros e importantes, distorcem-se factos, prometem-se dividendos e usam-se os mais fracos, mais desprotegidos e menos privilegiados (física, intelectual ou socialmente) como estandarte de uma campanha que, afinal, apenas serve os interesses de quem a faz.
E não, não, estou apenas a falar de partidos políticos, confissões religiosas, clubes desportivos ou quaisquer outras organizações ou organismos. Estou a falar de pessoas individuais. Afinal, são elas que dão corpo, sentido, orientação e atuação a todas essas organizações
A solidariedade, a justiça, a integração, a igualdade de direitos, a compreensão e tantos outros valores são bandeiras que muitos humanos hasteiam, sem que de facto as suas atitudes e comportamentos sejam coerentes com esses valores, nem, muitas das vezes, correspondam a um conhecimento real e prática ativa de muitos dos temas em que os pretendem aplicar.
Na verdade, não são mais do que uma pintura da realidade ou de si próprios, pretensamente realista, mas que, no fundo, não passa de arte abstrata.
Pessoa, através do seu heterónimo Álvaro de Campos, faz uma reflexão algo semelhante a esta no "Poema em Linha Recta"



POEMA EM LINHA RECTA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 312.

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