Sessenta menos quatro

quinta-feira, agosto 25, 2016Teresa Varela

Pois é, há 19 dias atrás, fiz 56 verões, sim verões, não primaveras, pois nasci no verão, ehheh. Talvez, por isso mesmo o adore.
A velhice nunca foi coisa que me atraísse. Não a acho bonita, nem romântica, nem agradável, nem sequer lhe acho um não sei quê de bucólico ou enternecedor. 
A imagem da avozinha de cabelos brancos e coque no alto da cabeça, ensinando os netinhos a ler, tão comum nos livros e filmes da minha infância, nunca foi algo que me entusiasmasse.
Sempre adorei todos os meus "velhos", os que já partiram e os que ainda cá estão, mas nunca me senti atraída pelo meu próprio envelhecimento. Por mais que praticamente todos eles tenham mantido ou mantenham as suas faculdades físicas e mentais quase intactas, sempre relacionei a velhice com perda de capacidade física, independência e beleza.
Por circunstâncias que me são alheias, não sou ainda avó, não que me importasse de o ser, nem me pareço minimamente com as avós do tal do coque e de cabelos brancos. Aliás, por mais estranho que possa parecer, tenho apenas uns muito raros cabelos brancos que até dão alguma piada aos meus cabelos castanhos escuros.
Desde que fiz cinquenta anos que me tenho vindo a tentar adaptar à ideia de que, de facto, vou mesmo envelhecer, até porque a alternativa não é lá grande coisa.
Mas, afinal, ter feito 56 anos e estar, portanto, agora, mais próxima dos 60 do que dos 50, não alterou absolutamente nada na minha vida, tal como quando fiz os tão almejados 18 anos, nada passou a ser diferente.
Penso que, na verdade, as grandes mudanças, que se vão dando em nós, vão acontecendo lentamente, pelo que nos habituamo-nos a elas como a algo que nos é próprio.
Quase diariamente, o facebook vai-me recordando das minhas memórias. Alguma delas relembram-me outras menos boas, mas, ao passar grande parte da minha vida em revista, chego sempre à conclusão de que, se tivesse possibilidade de voltar atrás no tempo, pouco ou nada alteraria naquilo que fiz.
Poderão perguntar-me: Mas, então, essas coisas que dependiam de ti e que correram mal não ias alterar?
Acho que a minha resposta é não. Pois se eu voltasse a ter 18 anos, ou qualquer outra idade, seria exatamente a mesma pessoa que era na altura e, portanto, iria cometer exatamente os mesmo erros.
A maioria dos meus erros ou as situações difíceis ou tristes pelas quais passei, tal como as outras, as boas, transformaram-me naquilo que sou hoje, ensinaram-me quase tudo aquilo que sei e deram-me a maioria das pessoas e coisas mais importantes da minha. E eu gosto do que sou, gosto do que sei e gosto das minhas pessoas e das minhas coisas. Logo, muito provavelmente, não faria nada ou quase nada diferente.


Uma das últimas memórias, de que o facebook me relembrou, foi da minha loja de decoração, a DIEM. Este foi um projeto que, definitivamente, me correu muito mal e me obrigou a alterar muita, mas muita coisa, na minha vida, até porque a esse projeto falhado se veio juntar outra situação muito complicada. 
Mas, se foi difícil sobreviver-lhes, foi, também, através delas que pude vislumbrar, de forma interiorizada, os pensamentos e sentimentos daqueles que se debatem com problemas financeiros graves e, também, perceber que frases como "o dinheiro não dá felicidade" só podem ser ditas por pessoas que nunca passaram dificuldades. 
Não, o dinheiro não dá felicidade, mas liberta-nos de preocupações básicas, tais como, onde vou buscar dinheiro para comer ou dar de comer aos meus filhos, para pagar a água, a luz ou a renda de casa, ou para ir ao dentista. Assim, no mundo em que vivemos, ter dinheiro,  suficiente para nos proporcionar uma vida condigna, é, certamente, um fator que contribui para criarmos condições para o nosso bem-estar e felicidade.
Foi, igualmente, este falhanço que me ensinou muito coisa acerca de negócios, riscos e, obviamente, decoração. Para além de me ter ensinado a conviver com dificuldades e obstáculos e a superá-los, sem baixar a cabeça, "arregaçando as mangas" e trabalhando arduamente.
Hoje, com a recuperação da minha casa do Alentejo em curso, a qual se encontra na família há várias gerações, sinto-me preparada e confiante em relação aos vários aspetos que envolvem a recuperação de uma casa enorme, com mais de 200 anos, repleta de mobiliário de diferentes épocas. 
A DIEM pode não ter sido um negócio de sucesso, mas foi um projeto feito com amor que me preparou para um outro projeto maior, não lucrativo, é certo, mas que me dá a certeza de que, por mais difícil que seja o caminho, se não desistirmos, seremos capazes de concretizar os nossos objetivos.
É para mim uma honra e um prazer dar uma nova vida a esta casa, que é muito mais do que um bem material. Ela é a memória viva, de mais de dois séculos, da família, digna, honesta, generosa, unida, corajosa, despretensiosa e cheia de alegria e amor, a que muito me orgulho de pertencer.


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1 comentários

  1. Em primeiro lugar muitos parabéns! Eu prefiro dizer que são 45 mais IVA, eheheh :)
    Eu também concordo que aprendemos imenso com os nossos erros, eu fiz um percurso idêntico, tendo obtido grande sucesso e depois foi a queda, é dura a queda. Também aprendi imenso.
    Quanto à idade (somos quase da mesma idade) um dia aprendi algo muito interessante com um velhote de 85 anos, e perguntei-lhe: sr. Manuel gostava de ter agora 20 anos?
    Eu? 20 anos? Na, na queria mesmo.
    Porquê? Porque tinha que voltar a passar por tudo o que já passei e eu agora é que estou bem.
    E esta heim?
    Jorge

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