AQUELA DOENÇA - QUE GRANDE AZAR

Quase em surdina, as pessoas falavam "daquela doença", abanado a cabeça com consternação e trocando olhares significativos.
Naquele tempo, falava-se pouco naquela doença e ainda menos se proferia o seu nome. Era tabu. Como se por apenas verbalizar a palavra cancro, este pudesse materializar-se, atacando, sem piedade, os que ousassem mencioná-lo.
Nessa altura, as pessoas não morriam de cancro, morriam de uma doença má ou daquela doença.
Embora alguns dos meus familiares paternos tenham partido, prematuramente, vítimas daquela doença, muito antes de eu ter nascido ou quando ainda era demasiado pequena para me aperceber do que se estava a passar, o meu primeiro verdadeiro contacto com o cancro e com todo o sofrimento, medo, consequências, tratamentos e seus efeitos colaterais, que a estes se encontram associados, foi feito através de um livro "Átomos à hora do chá", teria eu cerca de 13 anos.
Foi esmagador o efeito que este livro teve sobre mim. Penso que, pela primeira vez, me apercebi de quão frágil e vulnerável é o ser humano e de como temos tão pouco controlo sobre grande parte dos acontecimentos que fazem parte das nossas vidas.
Não sou, nem nunca fui, mulher de lágrima fácil. Ainda miúda, era mais provável verem-me chorar por uma contrariedade sem importância, ou mesmo de irritação, do que por qualquer dor maior.
A "dor maior" remete-me ao silêncio, à introspeção, ou a uma enorme hiperatividade, em busca de soluções, quando a situação em causa pode ser solucionada ou minimizada através de quaisquer ações e diligências ao meu alcance.
Odeio problemas, por essa razão sou uma mulher de soluções. Caso estas existam, não dou tréguas ao problema enquanto não as encontrar.
Talvez por essa razão, "Átomos à hora do chá" tenha tido um efeito tão esmagador sobre mim. Pois, para além de todo o sofrimento envolvido, a história falava-me de algo incontrolável e impossível ou muito difícil de vencer, que me fazia sentir, simultaneamente, impotente e revoltada.
Hoje, são poucas as famílias que, em Portugal, não tenham passado já por essa terrível experiência de ter um ou mais familiares com cancro. Todos nós temos, ou já tivemos, amigos a quem esta doença foi diagnosticada. Uns lutaram e venceram, outros lutaram e perderam, outros estão agora a travar essa luta.
Ninguém está a salvo, a qualquer momento, sem pré-aviso, sem preparação, sem motivo, qualquer um de nós pode ser diagnosticado com aquela doença.
Aquela doença é cruel e caprichosa e dá-se ao luxo de escolher entre todos os órgãos do nosso corpo qual lhe apraz atacar. Por vezes, ataca de surpresa e de forma fulminante. Outras vezes, fá-lo lentamente e de forma incipiente, como se nos pretendesse enganar, não nos dando os sinais suficientes para que fiquemos alerta e a combatamos desde o início.
Algumas vezes, responde positivamente aos tratamentos e desaparece para sempre, mas, outras vezes, apenas adormece por períodos, mais longos ou mais curtos, dando-nos uma falsa sensação de segurança e conforto, acordando, mais tarde, cheia de força e vitalidade.
A ciência procura explicar, combater ou mesmo erradicar aquela doença, mas embora as taxas de sobrevivência sejam cada vez maiores, há um cada vez maior número de pessoas diagnosticadas com cancro.
De acordo com os dados estatísticos, o cancro não se distribui de forma uniforme por todo o país, nem pelo mundo, quer ao nível da incidência, quer de tipo de cancro: 

- Há cada vez mais casos de cancro em Portugal e os homens são os mais afetados

- 2% dos portugueses da zona sul e Madeira vivem com cancro

Numa análise pouco científica, mas muito humana, o cancro afigura-se-me como um ser horrendo, malévolo e caprichoso, que se dá ao luxo de escolher não só o órgão que ataca inicialmente, como que órgãos ataca por género e por localização geográfica, das suas vítimas.
Odeio-o com todas as forças do meu ser, mas, estranhamente, acredito que está nas nossas mãos encontrar a forma de o exterminar ou pelo menos de reduzi-lo a algo insignificante, semelhante a uma vulgar constipação.
Não é a morte o que mais me assusta. Afinal, todos temos que morrer um dia. De preferência depois de uma vida bem vivida. 
O que me assusta, de facto, é o medo, o sofrimento, a vulnerabilidade a que ficamos sujeitos, os exames invasivos, as mutilações, os tratamentos e as suas consequências, das quais a queda do cabelo é a menos importante de todas, pois, esse, volta sempre a crescer.
Entre família e amigos, já perdi demasiadas pessoas para o cancro. A algumas delas nem me foi permitido conhecê-las.
São aos milhares os estudos, as investigações e as teorias acerca do cancro.
As causas que mais frequentemente são atribuídas para o aparecimento da doença, são determinados fatores do ambiente, a hereditariedade, o tabaco, o tipo de alimentação, os hábitos sedentários e mais recentemente, os alimentos geneticamente modificados e os químicos administrados aos animais, que fazem parte da nossa alimentação. 
Mas também há quem o atribua a uma espécie de suicídio, ou seja, o facto de estarmos infelizes, ou de sermos pessoas negativas ou deprimidas originaria uma  "desistência de viver", a qual despoletaria uma espécie de adormecimento do nosso sistema imunitário e ausência de controlo na divisão celular, o que daria origem ao aparecimento de células anormais que se replicavam, ao invés de serem destruídas, em virtude dessa ausência de controlo do próprio sistema.
Uma das mais recentes investigações, relativas aos cancro, apresenta-nos uma novidade. Afinal, parece que o motivo principal para se ter cancro é mesmo o "azar":

- Dois terços dos casos de cancro acontecem "por azar"

- Ter cancro é mais vezes um azar do que uma consequência do estilo de vida

Seja por puro azar, seja pelo "azar" de divisões celulares aleatoriamente erradas, seja pelos fatores poluentes do ambiente ou pela manipulação genética dos alimentos que comemos, ou por qualquer outro motivo, o que é facto é que cada vez há mais pessoas com cancro e formas mais eficazes de o combater, mas que são manifestamente insuficientes.
Nada existe neste mundo que não seja deste mundo. Por essa razão, acredito que se existe a doença, existe também a cura e, seja lá de que maneira for, ela passa por nós.
Enquanto não a descobrimos, resta-nos acender uma luz e mantê-la acesa e rezar, para quem é crente. 
Unamo-nos, pois, na Luz, por todas a vítimas do cancro. Unidos jamais poderemos ser derrotados.



Comentários

  1. Aqui em casa ela chegou também. Levou meu sobrinho e minha mãe. Antes, nunca houvera casos em minha família. Creio que seja algo na nossa alimentação - produtos químicos, hormônios na carne e no leite, agrotóxicos. talvez até mesmo o ar que respiramos esteja contaminado de substâncias que causam o câncer.

    Só nos resta rezar e contar com a boa sorte.

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    1. Olá Ana,
      Temos mesmo que viver com esperança.

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