INTAMENTE

Quando eu era miúda, ouvia falar de uma senhora, minha conterrânea, julgo que nunca a conheci, que usava a palavra,  com sabor a advérbio de modo, "intamente", em quase todas as frases que dizia.
Em algumas frases esta parecia pretender substituir "efetivamente", "realmente" ou "de facto", como, por exemplo, "Intamente, esse chapéu fica-lhe muito bem.", mas noutras, aparentemente, era usada como exclamação,  reforço de uma ideia, ou remate final de uma afirmação ou pergunta.
Tanto quanto sei, nunca ninguém perguntou à senhora o que pretendia ela dizer, ou que significado tinha, para ela, tal vocábulo.
Pelo que, suponho, terá vivido e falecido, intamente, na ignorância de que tal palavra não existia e de que ninguém sabia o que ela queria dizer com a dita.
Direi mesmo que a senhora viveu intamente e com leveza a sua própria ignorância.
Desde o dia em que nascemos que nos confrontamos com a vida e as suas asperezas. Tentamos adaptar-nos a elas, evitá-las, contorná-las, enfrentá-las, mudá-las, destruí-las, vencê-las ou fazer de conta de que não existem.
Intamente, algumas asperezas são mais difíceis de vencer, contornar ou evitar, ou mesmo de nos adaptarmos a elas ou, alternativamente, fazermos de conta de que não existem, mas, por mais complexas ou "ásperas" que sejam, podemos sempre escolher olhá-las com gravidade ou com leveza.
Tudo isto me recorda a forma como a dislexia condicionou grande parte da minha vida e das minhas escolhas.
Desde que fui para a escola, a dislexia tornou-se um fardo pesado de carregar, não tão pesado quanto o foi para o meu Pai que, quando andava na escola primária, vomitava  o pequeno almoço, antes de sair de casa, pois a professora, a célebre D. Aninhas, gostava de dar "bom uso" à sua menina dos 5 olhinhos, a qual utilizava, assiduamente, para penalizar erros ortográficos e outras falhas dos  alunos.
Se no meu tempo ainda mal se falava de dislexia e a grande maioria nem sabia o que era, no tempo do meu Pai muito menos, pelo que os erros ortográficos eram vistos como "culpa" do aluno.
A dislexia é ou pode ser hereditária e desta existem diversos graus. O nosso era leve, tanto o meu, como o do meu Pai, apenas nos fazia dar erros ortográficos ou "comer" palavras.
Felizmente, quando chegou a minha vez, as palmatórias já eram quase só peças de museu, de má memória, e os professores já não tinham autorização legal para bater nos alunos. Mas, mesmo assim, a dislexia  não deixou de me atormentar das mais diversas formas.
Uma das consequências imediatas foi na minha caligrafia. Logo que me foi possível, arranjei uma forma de escrever pouco legível, pois quanto mais difícil fosse interpretar os meus hieróglifos, menos dariam pelos meus erros ortográficos. Mas, esta era apenas a consequência visível, as outras, as invisíveis para os outros, eram mais complexas. 
A dislexia causa insegurança, a qual acaba por se transmitir a outras áreas da nossa vida que nada têm a ver com a escrita. 
Sempre que nos chamam à atenção para esses erros, sentimo-nos profundamente humilhados, pois, por mais que tentemos, não os conseguimos evitar e torna-se difícil explicar isso às pessoas, sendo que nessa época ainda era mais difícil.
Escrevi toneladas de palavras difíceis, mas isso parecia não atenuar, em nada, o número de erros por ditado ou composição. O cansaço, nervosismo ou ter alguém por cima do nosso ombro, a ver o que escrevemos, elevam exponencialmente o número de erros que damos e provocam "brancas" em que, por momentos, podemos nem saber minimamente como se escreve determinada palavra, como se se tivesse tornado algo absurdo, de que não temos a mais leve lembrança.
O meu percurso escolar foi completamente normal, ainda que os erros e a insegurança, que eu não demonstrava nunca, me atrapalhassem.
As minhas disciplinas preferidas eram português, história, ciências naturais e línguas e para todas elas escrever sem erros era fundamental.
Naquele tempo, era o Francês que ocupava o lugar que hoje pertence ao Inglês, pelo que, após a conclusão do ensino primário e até acabar o Liceu, sempre tive Francês. 
Não tenho a certeza se me lembro de todas as professoras de Francês, desde o ciclo preparatório, atual 5º e 6º ano, até ao complementar, atual secundário, mas recordo-as, quase todas, sem saudade, nem mágoa. 
Contudo, duas delas, por sinal mãe e filha, lembro-as de forma diferente, não só porque fizeram e fazem parte da minha vida, de outras formas que não ao nível da escola, mas também porque, enquanto professoras,"mexeram" comigo, cada uma à sua maneira.
Primeiro foi a filha que me deu aulas, penso que no 4º ano (atual 8º). Apanhei-a no início da sua carreira, era ela ainda muito novinha. Bem mais nova do que qualquer outro professor, pois tinha ido para a faculdade quando todos os da sua idade ainda estavam no complementar.
Nas suas aulas sempre me senti desconfortável, não porque fosse agressiva ou desagradável, mas, antes, por ser relativamente próxima da minha família, ainda muito jovem, pouco mais velha do que a minha irmã, e com aquela aura que envolve todas as pessoas que se destacam, de forma particular, pelas suas capacidades ou inteligência muito acima da média. Pelo que, se a minha dislexia me incomodava com outros professores, com ela a última coisa que queria era fazer má figura, o que me fazia sentir sempre em estado de tensão ou mesmo envergonhada.  
Por sua vez, a D. Assunção, a mãe, foi minha professora já no complementar e, de todos os professores, e foram muitos os que já tive ao longo da vida, é aquela que recordo com mais carinho, respeito e gratidão.
Naquele dia, eu estava num verdadeiro estado de excitação. A Professora tinha mandado fazer uma composição acerca da Primavera e eu, que sempre gostei e tive facilidade em escrever, estava toda ufana, pois achava que a minha estava o máximo. De tal forma que quase não deixei a Professora entrar na sala, para lhe  entregar a bendita da composição.
Mas a alma caiu-me aos pés, quando vi a cara de espanto e perplexidade da Professora, ao olhar de relance para o texto do meu orgulho.
- O que é isto que escreveste aqui? perguntou-me ela, quase tão incomodada quanto eu.
Olhei para a palavra que a Professora apontava. Esta era exatamente o título da composição, o qual, obviamente, deveria ser "Printemps", mas, em vez disso, o que lá estava escrito era qualquer coisa como "Primever".
Sentia-me a morrer de vergonha, mas a D. Assunção, recuperando rapidamente do seu espanto, e com essa capacidade única daqueles que são professores por vocação e olham os seus alunos não como seres incapazes, mas, sim, como seres humanos cheios de potencialidades, pôs-me a mão no braço, com suavidade, e devolvendo-me a composição, disse-me, com um sorriso de encorajamento, - Vai emendar isto.
Penso que foi nesse dia que percebi o que era um verdadeiro professor e que a minha escolha, ir para História, para futuramente vir a dar aulas, era acertada e, mais do que isso, era a minha vocação.
Mas, intamente, nem sempre conseguimos levar as coisas com leveza e, muitas vezes, deixamo-nos dominar pela insegurança. A certa altura, comecei a duvidar, não da vocação, mas da minha capacidade para ser professora. 
Como poderia eu assumir a responsabilidade de ir ensinar se, ao escrever no quadro ou a fazer testes ou exames, não conseguia controlar os meus erros ortográficos? 
Então, escolhi outro caminho.
Na verdade, nunca deveria ter desistido dessa ideia, pois, anos mais tarde, vivi essa experiência fantástica. Acabei por dar aulas, de outras disciplinas que não História, e consegui contornar o problema dos erros ortográficos de uma forma habilidosa.
As aulas representavam um desafio diário de despertar o interesse dos meus alunos e uma profunda satisfação sempre que eles, ultrapassando as minhas expetativas, o que faziam com muita frequência, se dedicavam, de alma e coração, aos trabalhos que lhes propunha.
Pois o que transforma qualquer criança ou jovem num bom aluno, não é apenas um professor cheio de diplomas e qualificações, mas, sim, um verdadeiro professor, que ama o que faz e que gosta, entende e aposta nos seus alunos. 
A vida acaba sempre por nos ensinar, nem sempre das formas mais simpáticas, que não só devemos confiar no que nos diz o "coração", como o devemos fazer com leveza. 
Ao longo do meu percurso profissional, percebi que tinha dado um valente tiro nos pés. Afinal, uma das profissões que, de forma descontinua, mais vezes tenho exercido, é a de secretária, a qual, como é evidente, exige também que escrevamos corretamente.
Os pesos que carregamos, sejam eles dislexia ou qualquer outra coisa, ficariam bem mais leves se não levássemos a vida e a nós próprios tão a sério. 
Dar o nosso melhor,  não fugir dos problemas, regermos a nossa vida pelos nossos valores fundamentais só funciona verdadeiramente bem se o fizermos com um certa leveza. Caso contrário todas as tarefas, dificuldades ou valores, em vez de atividades minimamente agradáveis, desafios a vencer, ou pilares que nos suportam, passam a ser pesos que nos acabrunham, diminuem ou paralisam.  
Intamente, acabei por dar a volta a todas as situações ou limitações, com maior ou menor dificuldade. Progressivamente, fui deitando fora  arrependimentos, lamentos e pesos. 
Acabei por me sair bem e gostar da maior parte das atividades profissionais que  desempenhei e aprendi e tive acesso a outros conhecimentos e técnicas que nunca teria tido se apenas tivesse sido professora.
Aprendi que podemos aprender sempre mais, tentar fazer sempre melhor, dando o melhor de nós, mas fazendo-o com serenidade e com sentido de humor.
E quando falhamos, o melhor, mesmo, é corrigirmos e aprendermos com o erro, sem grandes dramas e com pragmatismo. 
Ninguém espera que sejamos perfeitos, que não tenhamos limitações ou que nunca erremos. Só mesmo cada um de nós espera isso de si próprio, porque, intamente, se leva demasiado a sério.
Os computadores, a internet e os seus corretores ortográficos foram o meu pequeno milagre e uns extraordinários auxiliares na busca pela dita leveza, pois para alguém que gosta de escrever, como eu, ser disléxico é um verdadeiro drama.
Às vezes, os ditos dos corretores são um bocado estúpidos e ignorantes, mas se o nosso problema não for o conhecimento da língua, mas, sim, o da ortografia, estes não nos conseguem enganar com as suas falhas e "ignorâncias".
Intamente, sou fã de corretores ortográficos, de computadores que escrevem com bonitas caligrafias  e da net que me permite "viajar", investigar, ter acesso a todo o tipo de informação, instantaneamente, e partilhar, com o "mundo", as minhas crónicas, pensamentos ou histórias.

Comentários