Os Intocáveis

Acomodei-me no sofá, ajeitei as almofadas e pus o filme a correr. Como quase sempre me acontece, mesmo que não veja o filme do início, a certa altura, apercebi-me de que o enredo não era uma ficção qualquer, pois era demasiado duro, demasiado injusto, demasiado incontrolável, demasiado cru, demasiado desumano, demasiado cruel. Seguramente, era baseado em factos reais.
Incomodada, procurei uma posição mais confortável e foi então que me apercebi de que não era uma mera espetadora, mas, antes, que também eu fazia parte do filme.
Por mais que nos coloquemos no lugar de observadores e analistas do mundo, não nos é possível colocarmo-nos fora dele. 
Podemos ser parte do problema, parte da solução ou apenas paisagem, mas estamos lá e não há forma de fugir à complexidade do "lugar". De uma forma ou de outra, faremos sempre parte das estatísticas e seremos sempre detetados e "lidos" por um algoritmo qualquer. 
Visionar e participar deste filme permite-me colocar várias hipóteses e fazer diversas  análises e reflexões
As conclusões não são muitas, mas as principais são as seguintes:
Existirão sempre escravos, quer estejam agrilhoados ou não, porque ser escravo não é uma condição, mas uma forma de estar no mundo.
Existirão sempre seres humanos maus ou cruéis, porque estas características lhes são intrínsecas e se encontram no seu interior.
Existirão sempre seres humanos bons, qualquer que seja a sociedade em que vivam, quaisquer que sejam as circunstâncias em que vivam, quaisquer que sejam as dores porque passem. E estes serão sempre os únicos seres humanos verdadeiramente livres.
O mundo é um lugar conturbado, repleto de predadores e presas, onde a sobrevivência é o principal primado.
Mas, se para animais, vegetais ou mesmo minerais sobreviver significa reunir as condições para se manter vivo, seja através da caça, da união, da transformação ou da adaptação, para os humanos sobreviver tem um significado bem mais abrangente, pois deriva da sua própria complexidade e capacidades  únicas.
Na verdade, só os humanos têm capacidade para refletir acerca do mundo, dos outros ou de si próprios, só eles criam conceitos ou valores morais ou éticos, só eles são capazes de desenvolver conhecimentos, sistemas ou técnicas de elevada complexidade.
Embora em muitos animais seja manifesto o desejo de liderança ou a existência de um conjunto de regras de comportamento de grupo, nos homens estas são bem mais complexas e dependem de uma grande variedade de fatores psicológicos, psíquicos ou emocionais bem como das suas crenças e sistemas de valores e de todos os condicionalismos de uma sociedade gregária em permanente transformação, evolução e convulsão
Os últimos séculos têm sido extraordinariamente ricos na evolução da ciência e da tecnologia e, simultânea e consequentemente, a população mundial atingiu uma dimensão, 7,2 mil milhões e a crescer, pouco compatível com os recursos  do planeta e com a sua capacidade de absorver ou filtrar a enorme quantidade de lixo, de vários géneros, que essa mesma população produz.
Para alimentar e satisfazer as necessidades, desta enorme quantidade de seres humanos, recorreu-se à criação de animais em massa, às culturas e sementeiras demasiado extensivas e intensivas, à desflorestação e abate de florestas de forma indiscriminada, sem acautelar os perigos ambientais ocasionados pela utilização excessiva dos solos, pela existência de animais em número muito superior àquele que é possível a terra sustentar, por processos naturais, e pela cada vez menor área florestal, sabendo que as árvores são essênciais para a captura do carbono e para a manutenção de condições climáticas equilibradas.
Por outro lado, a evolução tecnológica rouba, a cada dia que passa, centenas de postos de trabalho aos humanos, tornando-os um fardo para os estados e deixando-os inativos, condição que origina problemas psicológicos e psíquicos, os quais conduzem a convulsões sociais de consequências imprevisíveis, 
Recentemente, teve lugar, em Portugal, o Web Summit, uma conferência tecnológica, onde são apresentadas as mais recentes criações a nível tecnológico, com particular ênfase na tecnologia da internet.
Nesta conferência foram apresentados dois robots, Sofia e Einstein, talvez os primeiros humanoides do novo mundo, os quais foram a apoteose ou momento alto da dita conferência, gerando grande euforia e emoção no público e confrontando-nos com um futuro que se torna, cada vez mais, incerto e imprevisível.
O futuro é inevitável, a compreensão do que se passa é opcional. Não existe uma teoria da conspiração, nem mesmo uma conspiração para tramar o futuro da humanidade,
Existe a realidade e essa está visível para todos, independentemente de todos os jogos de bastidores. 
Para refletir: 

  • Quais são os maiores problemas do mundo e da humanidade?
  • Se fosse uma máquina sem sentimentos, pela lógica, como é que os resolveria?

Claramente, os robots não vão sentir piedade de nós, pois não têm sentimentos, nem emoções, nem criatividade, nem imaginação, nem sabem lidar com o desconhecido, nem com situações novas. das quais não tenham referências. 
Claramente, os robots vão apenas fazer aquilo que os humanos os ensinarem a fazer, de acordo com os limites que lhes impuserem, mas com muito mais precisão e mais rapidamente do que qualquer humano. 
Claramente, os robots não são um perigo para a humanidade, quem é, ou pode ser, são os próprios humanos, que são quem determina o que os robots devem fazer, dentro de que limites e obedecendo a que critérios.

E é a "nossa" atitude perante os acontecimentos que vai determinar o futuro. A falta de reflexão e análise acerca do que se passa no mundo, de quem mexe os cordéis e de quem são as marionetas é que nos poderá conduzir à beira do abismo.
A realidade vai muito, muito para além do que vemos à superfície e as consequências  muito para além daquilo que agora conseguimos imaginar
Os robots ou humanoides, Sophia e Einstein, foram entrevistados no palco da conferência e manifestaram as suas "opiniões" e "preocupações":

“Conheço muitas pessoas que têm medo que a inteligência artificial destrua a humanidade e lhes tire o trabalho. Nós, robôs, não temos vontade de destruir nada, mas vamos tirar-vos os trabalhos.” Sophia, robot

“Os robôs ajudam os humanos, não o contrário. Esse não é um problema tecnológico. É uma questão de valores. Eu acho que os robôs vão absorver os valores humanos, mas esse é capaz de poder vir a ser o problema.”
Professor Einstein, robot 
Estas respostas refletem reflexões, previsões ou preocupações humanas e não qualquer tipo de consciência dos próprios robots, os quais só têm a consciência que lhe foi dada pelos seus criadores, daí que as minhas reflexões se prendam exatamente com aquilo que foi dito por um dos participantes nesta conferência.
"Estou mais preocupado com o comportamento humano do que com a Inteligência Artificial" Bryan Johnson, CEO of Kernel - Web Summit

Por que misturo excesso de população, recursos limitados do planeta, problemas ambientais e climáticos com a maior crise laboral de que há memória e  com robots, tecnologia e ciência?
Bem, porque, na verdade está tudo relacionado e faz parte do paradigma do mundo atual. Um mundo super-habitado, globalizado e hiper-tecnológico.
E, tudo isto, parece intrinsecamente relacionado com os migrantes que fogem, aos milhares, dos seus países, em condições perigosíssimas e sem óbvia capacidade financeira para pagarem a quem os transporta; os atentados terroristas que acontecem um pouco por todo lado; os movimentos revolucionários, extremistas ou independentistas  que aparecem como coelhos saídos de cartolas, como se tivessem acordado de um longo sonho milenar; os incêndios que devastam milhares e milhares de hectares de floresta, deixando um rasto de morte e cinzas.
Quem comanda o destino dos homens e do mundo são homens iguais a nós que, afinal de contas, sabem, tão bem ou tão mal, quanto qualquer vulgar mortal, o que o futuro nos reserva?
No entanto, nas suas mãos está o poder económico ou político, ou ambos. Nas suas mãos encontra-se o poder da guerra e da paz, manipulando outros que julgam seguir ideais ou apenas a sua carteira. Nas suas mãos encontra-se o poder para investir na ciência e na tecnologia e para dar maior bem-estar à humanidade, mas também se encontra o poder do conflito entre os homens ou mesmo da morte.
A uns conhecemos-lhes os rostos, mas muitos vivem na sombra.  Não são deuses, nem têm poderes mágicos, nem um conhecimento ou consciência mais profunda ou mais sábia do mundo e da humanidade. São, contudo, intocáveis, até ao momento em que caiam em desgraça  ou na hora da sua morte.
Como reflexão final, deixo-lhes uma interrogação e um video

Entre 1958 e 2006, a ETA realizou todo o tipo de ações, contra Espanha e os espanhóis, na tentativa de reivindicar a independência do país Basco. 
Para além de uma pontual movimentação, declaração ou conversa de café, nem o povo Catalão, nem o povo Galego aproveitaram a onda, de 48 anos, para reivindicar a sua própria independência.
Agora, num mundo grandemente globalizado e interdependente, passados mais de 400 anos sobre a última tentativa de independência, a Catalunha vem reivindicar o seu profundo e histórico sonho de independência.
Isto faz-me meditar e causa-me uma grande inquietação e perplexidade.
A vocês não?


Onde nos leva o mundo tecnológico e virtual? Quem dedilha o teclado?


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