A Morte pode esperar

Liberdade, Qualidade de Vida e Felicidade

Liberdade, em filosofia, pode ser compreendida sob uma perspectiva que denota a ausência de submissão e de servidão. Ou sob outra perspectiva que é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional.

Desde 22 de maio que não escrevo nada aqui. Não por não ter nada para dizer ou por não haver acontecimentos ou preocupações de que valesse a pena falar, bem pelo contrário, mas, sim porque não me apeteceu escrever.
Deus, ou seja quem for, fez-me assim, desta forma, cabeça sempre a mil, sonhos, projetos, cursos, causas, trabalhos, disponibilidade para quem precisa de ajuda ou apoio, sempre num frenesim imparável que me cansa e desgasta, mas que também me dá vida e me faz gostar e vibrar com ela.
Ah, pois é, posso ser bem cansativa. Enquanto não atinjo o meu objetivo ou, inversamente, enquanto não "vejo o fundo ao cesto", ou seja, enquanto não esgoto todas as tentativas para solucionar um problema, alcançar um objetivo ou pôr de pé um projeto, não descanso, nem mesmo a dormir, a minha cansativa cabeça não pára de trabalhar.
O meu Pai dizia que eu era teimosa, ahah. Eu digo que sou persistente.... Na verdade, talvez seja um bocadinho obsessiva ou louca com tudo o que me toca ou é importante para mim
Nos últimos tempos, as preocupações, projetos, objetivos têm sido tantos, em simultâneo, que, penso, finalmente, a minha cabeça chegou a um momento de quase exaustão e deixei de ter capacidade para escrever.
Se precisamos estar focados para conseguir atingir qualquer objetivo ou participar de qualquer processo, o estar focado, intensamente, em várias coisas, ao mesmo tempo, acaba por nos inibir de fazer outras ou até nos pode pôr doentes, pois se o nosso cérebro tenta controlar os danos, incapacitando-nos, por exemplo, de escrever num blog, não consegue evitar que todas essas fontes de stress, ansiedade, angústia ou tristeza se repercutam  noutros órgãos do nosso corpo e, a certa altura, até ele se pode ressentir e deixar-se apanhar por uma depressão ou exaustão/esgotamento.
Pois é, voltei aqui no ponto, ou seja, quando quase à beira da rotura me decidi libertar de parte do que me causa ansiedade e, egoisticamente, digo bem, egoisticamente  deixar-me levar e mimar-me a mim.
Para trás ficou o 25 de Abril, acerca do qual comecei a escrever, mas nunca terminei. 
Talvez isso tenha algum significado, pois o processo iniciado no 25 de Abril de 1974 também ainda não terminou e continua no seu percurso, muito pouco linear, repleto de altos e baixos e de momentos pouco claros ou mesmo muito negros.
Não, não comemoro o 25 de abril, ainda que goze o feriado.
Não, não sou contra a democracia e a liberdade, bem pelo contrário.


Acontece que o 25 de abril não foi feito nem pelo povo, nem para o povo. O povo só entrou nesta equação para ratificar outros interesses, que pouco ou nada tinham a ver com democracia, e, já agora, aproveitou-se e lá veio a democracia e a liberdade, por arrasto, largos meses depois e não sem que antes disso se tenham cometido enormes abusos de poder, atrocidades, roubos inqualificáveis, destruição de vidas e de património, injustiças incontáveis e diversos apelos à violência e ao que de pior existe no ser humano, por parte de alguns dos responsáveis pela "revolução" e outros que entraram na "onda", pois, para alguns, qualquer onda se apanha desde que ela traga proveito.
Para trás ficou também o meu artigo acerca da tentativa de despenalizar e legislar a eutanásia, em Portugal. 
Escrevi muito acerca desse assunto mas foi nas redes sociais  e, no final, acabei por não terminar, nem publicar aqui o artigo que cheguei a iniciar.. 
De toda essa polémica e da não ratificação da lei, para memória futura, partilho aqui uma das minhas muitas publicações/comentários, no facebook. 
No caso, este prendia-se com o cartaz da foto e todos os comentários e tomadas de posição que suscitou, o qual era empunhado pela Vera, estudante de medicina, e que durante vários dias foi o alvo preferencial dos comentários dos facebookianos, desde os jocosos, aos malignos, passando pelos de apoio à Vera e/ou à idea que o cartaz transmite.

"O DEBATE QUE A NAÇÃO NÃO FEZ






O meu último comentário num post que tem mais de 5.000 visualizações e reações, 1185 partilhas e 1,6 mil comentários.

A Vera é a "vítima" de um cartaz, entre o infeliz e o ridículo, daqueles que estão contra a legalização da eutanásia.
Mas a Vera e este cartaz são também os principais protagonistas de um DEBATE que o país não quis fazer e que o poder político tentou legislar sem um debate alargado à população portuguesa; sem disponibilizar informação pertinente relativa ao que é a eutanásia, o que são cuidados paliativos, o que é apoio social, a quem não tem meios financeiros ou famílias que os apoiem, por negligência ou abandono, ou por que não tem familiares diretos.
Muitos dos comentários que aqui têm sido feitos revelam futilidade, desprezo pela vida e pelo sofrimento humano.
Aqui debate-se VIDA e MORTE, como se fossem os próximos destinos de férias.
Muitos dos que aqui comentam são eleitores, são futuros ou atuais legisladores, futuros ou atuais profissionais de saúde.
A Eutanásia é um assunto demasiado complexo e envolve sempre situações dolorosas, de elevado sofrimento.
Fiquei portanto bastante apreensiva e acho que os caros comentadores deste post também deveriam ficar
É nas mãos destes comentadores frívolos e superficiais que querem deixar as decisões da vossa vida ou morte?
Daqui a aproximadamente 70 anos, nenhum dos que aqui comenta estará já neste mundo, mas, até lá, é bom não esquecer que os cuidados de saúde que irão receber, irão ser decididos e/ou realizados por pessoas que debatem VIDA e MORTE, DOR e CUIDADOS DE SAÚDE, como se destinos de férias se tratassem.
Somos todos mortais, a vida nem sempre é justa, muitas vezes é extremamente cruel e nenhum de nós está imune ao sofrimento.
Não se omitam da vossa própria vida. Exijam um debate alargado.
Exijam cuidados paliativos para todos os que a eles quiserem recorrer.
A MORTE É DEFINITIVA - só temos uma VIDA, não a transformem, nem deixem que outros a transformem num inferno."

Voltando ao início deste artigo e da foto dos meus olhos de menina, onde o sonho, a felicidade, a qualidade de vida e a liberdade se encontram refletidos, apetece-me dizer que só somos verdadeiramente livres e felizes e só temos verdadeira qualidade de vida quando aceitamos o inevitável, mudamos o que pode ser mudado e temos capacidade para discernir entre o que é inevitável e o que podemos mudar.
Mas, este processo só é bem sucedido se conseguirmos estar e manter-nos em paz connosco próprios; se conseguirmos distinguir entre o essencial e o acessório; se não ficarmos presos às dores ou frustrações do passado, se não ficarmos demasiado ansiosos ou stressados com os resultados, no futuro, dos nossos esforços, no presente; se aceitarmos que não conseguimos controlar tudo o que se passa na nossa vida e à nossa volta. Aliás, o que conseguimos controlar é muito pouco; se não perdermos a capacidade de amar e sonhar, mas, também, se formos capazes de deixar para trás aquilo que nos prende sem nos satisfazer ou dar felicidade.
Na verdade, a liberdade, a felicidade e a qualidade de vida dependem sempre não da nossa indiferença, inércia ou falta de empenho que são sinónimos de desistência da vida, mas da nossa paz de espírito.
É um caminho árduo, complexo e, aparentemente, interminável?
É, sim senhor. Mas é o único caminho que verdadeiramente vale a pena fazer, para, de facto, Viver, pois a Morte pode mesmo e sempre esperar.  

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